João Lourenço, Presidente do MPLA e, por inerência, Presidente da República, felicitou hoje Lula da Silva por aquilo que nunca lhe aconteceu, ser reeleito. No caso ser reeleito para a Presidência do Brasil, sublinhando a vontade expressa pelo povo brasileiro na continuidade das políticas interna e no contexto internacional.
Numa mensagem escrita dirigida ao Presidente eleito do Brasil, o chefe de Estado angolano (nunca nominalmente eleito) destaca que a vitória de Lula da Silva, nas eleições de domingo, “é a expressão da vontade democraticamente manifestada pelo povo brasileiro”.
Para João Lourenço, os brasileiros fizeram “a escolha que lhes garante a continuidade de políticas focadas na realização dos seus interesses fundamentais e na preservação do papel ativo do Brasil no contexto internacional”.
João Lourenço expressa a convicção de que neste novo mandato de Lula da Silva, Angola e o Brasil “manterão e procurarão concretizar os objectivos delineados no âmbito da cooperação bilateral”.
Uma cooperação que para o Presidente do MPLA tem em vista “o fortalecimento das respetivas economias e a construção da base material sobre a qual assentará a prosperidade e o progresso” dos dois povos e das duas nações.
João Lourenço deseja ainda a Lula da Silva “muitos êxitos no desempenho da missão que lhe foi uma vez mais confiada pelo povo brasileiro”.
Lula da Silva está a terminar o terceiro mandato presidencial, para o qual foi eleito (ao contrário do seu homólogo angolano) em 2022, quando derrotou o então Presidente em exercício Jair Bolsonaro — que actualmente cumpre prisão domiciliária por tentativa de golpe de Estado.
Os dois mandatos primeiros mandatos de Lula como Presidente da República do Brasil foram entre 2003 e 2011.
Em Maio de 2025, o Governo do Brasil, o primeiro país a reconhecer a independência (entrega unilateral ao MPLA) de Angola, encarou como “muito simbólica” a visita do Presidente angolano (não nominalmente eleito), João Lourenço, e ambiciona reforçar as relações agro-pecuárias com Luanda. Recorde-se que integraram a comitiva angolana o Presidente do MPLA, o Titular do Poder Executivo e o Comandante-em-Chefe das Forças Armadas.
Fonte da diplomacia brasileira disse que Lula “acha que é um marco das relações Brasil-Angola, Brasil-África, é uma visita muito simbólica, mas também com uma dimensão concreta muito evidente”.
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, conhecido como Itamaraty, relembrou que o Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, esteve em Angola em 2023, numa das primeiras viagens ao estrangeiro após iniciar o terceiro mandato, mostrando a importância não só de Angola e dos países de língua portuguesa, mas também do continente africano.
A visita ganhou ainda mais força por ser a celebração dos 50 anos da (in)dependência de Angola, sempre nas mãos do mesmo partido, o MPLA, “independência essa que teve o Brasil como o primeiro país a reconhecer”.
Outro dos factores apontados foi o facto de João Lourenço ser na altura presidente rotativo da União Africana.
Uma das dimensões concretas das relações bilaterais dizia respeito à cooperação agrícola, com destaque para o projecto no Vale do Cunene, no sudoeste de Angola.
“Todo o projecto que estamos desenvolvendo na área agrícola com Angola, com destaque para o Vale do Cunene”, alvo de um programa de cooperação com o Brasil, tem como objectivo promover a agricultura irrigada, disse a mesma fonte.
Pouco antes da visita, o Governo brasileiro adiantou que Lula da Silva e João Lourenço iriam analisar propostas de reforço bilateral no sector agro-pecuário.
Uma missão do sector do agro-negócio brasileiro esteve em Angola de 5 a 10 de Maio de 2025, com a participação de cerca de 30 empresários brasileiros e do ministro brasileiro da tutela, Carlos Fávaro, que participou de reuniões governamentais e visitas técnica nas províncias de Luanda, Malanje e Cuanza-Norte e ainda reuniões com representantes do sector privado angolano para discutir formas de financiamento.
Segundo o Governo brasileiro, “Angola tem cerca de 35 milhões de hectares de potencial agrícola, clima com duas estações bem definidas, com período chuvoso e estação seca, possui topografia plana, excelente para mecanização, e solos com boas condições físicas, semelhantes às do Cerrado brasileiro”.
Cerca de 70% das exportações brasileiras para Angola são do sector do agro-negócio, com destaque para o açúcar e carnes de frango, bovino e suíno, perfazendo 340 dos 493 milhões de dólares (300 de 435 milhões de euros) exportados para o país em 2024.
PARA ÁFRICA JÁ E EM FORÇA, DIZ LULA
O Brasil vê a “reaproximação política” com o continente africano como uma das suas prioridades diplomáticas com a consciência de que “o mundo precisa de África para dar certo”, disse em 2024 o director do departamento de África do Itamaraty. António Augusto Martins Cessar disse existir uma “aproximação muito nítida, declarada”, a África do Governo chefiado por Lula da Silva.
A reaproximação política, segundo o diplomata brasileiro, estava a ser demonstrada por Lula da Silva através das várias viagens que tem feito ao continente africano, assim como o seu ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Em 2023, no seu primeiro ano desse mandato, Lula visitou Angola, esteve na África do Sul para a Cimeira de chefes de Estado do grupo BRICS, visitou Cabo Verde e participou ainda em São Tomé e Príncipe na Cimeira de chefes de Estado da Comunidades dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Em 2024 discursou na abertura da 37.ª Cimeira da União Africana, em Fevereiro, no qual garantiu que a sua presença reafirma o vínculo do Brasil “com este continente irmão”, e esteve ainda no Egipto.
“Com os seus 1,5 mil milhões de habitantes, e seu imenso e rico território, a África tem enormes possibilidades para o futuro. O Brasil quer crescer junto com a África, mas sem ditar caminhos a ninguém”, disse durante o seu discurso.
Esta reaproximação, segundo António Augusto Martins Cessar, “deriva da composição da própria população brasileira e da história, um laço histórico, social e demográfico muito importante”.
“Existe uma percepção comum de que a África é em grande medida um continente que vai ter participação em todos os temas globais”, considerou o responsável brasileiro, frisando que África é um continente dinâmico, jovem e “importantíssimo para as agendas atuais de transição energética, agenda climática, desenvolvimento sustentável”.
Sobre os países africanos de língua portuguesa, o responsável brasileiro considerou-os “uma porta natural, ampla e sempre aberta”.
Muitas das parcerias com países africanos começaram por Angola e, em pouco menor medida, Moçambique. “O mercado angolano era a primeira parada de várias empresas”, recordou, lembrando que o país alberga a maior comunidade de brasileiros no continente, cerca de 27 mil. “Isso espalhou-se e outras portas abriram-se”, concluiu.
O Brasil tem uma parceria estratégica com Angola – a segunda em África, além da África do Sul – e foi o país que mais recebeu fundos do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) num total de 3,5 mil milhões de dólares (3,22 mil milhões de euros), já reembolsados, “para ajudar na reconstrução de Angola”, após o final da guerra civil, em 2002.
“As grandes empresas de engenharia e construção vieram, instalaram-se e muitas seguem por cá, investiram, essas obras são visíveis”, disse o diplomata, salientando a importância da diplomacia presidencial retomada no terceiro mandato de Lula da Silva, que escolheu Angola para a sua primeira visita.
