BEMBE, UM MUNICÍPIO ÓRFÃO ENTREGUE À PRÓPRIA SORTE

Há viagens que se fazem só com o corpo e há viagens que se fazem com a alma inteira. Ir ao Bembe, lá no Uíge, foi mergulhar nessa segunda categoria. Não era uma simples deslocação de rotina, nem mais um ponto num mapa qualquer. Era o regresso à minha terra, à terra dos meus pais, onde os ancestrais ergueram as suas casas, abriram as suas lavras e deixaram, de geração em geração, a memória de um povo inteiro.

Por Afonso Real Garcia

Foi no sábado, dia 8 de Agosto, que finalmente parti. Preparei a viagem com o coração apertado, com aquela ansiedade boa de quem vai reencontrar algo que já não via há muito tempo. Ia na cabeça a imaginar o cheiro da terra molhada, as conversas dos mais velhos à sombra das mangueiras, a sensação de finalmente pisar aquele chão que também é meu, por direito de sangue e de história.

Mas aquilo que encontrei não foi só o sossego do interior de Angola. Foi outro silêncio, mais pesado, que dói mais. O silêncio do abandono e esquecimento. No Bembe, o tempo não ficou parado, o tempo andou para trás.

Andei por estradas que já nem merecem esse nome, passei por bairros e povoados onde a modernidade parece ser apenas boato de gente que passou por lá uma vez e nunca mais voltou. E onde eu esperava sentir aquele orgulho calmo de quem regressa às origens, o que senti foi um aperto na garganta que foi crescendo até virar revolta, até virar lágrima mesmo, sem eu conseguir segurar. Porque não há alegria que aguente quando a terra dos nossos avós nos recebe assim, esquecida, desamparada, como se não fizesse parte do mesmo país que promete, todos os anos, desenvolvimento e igualdade para todos os seus filhos.

É esta a ideia que quero deixar bem clara neste texto, escrito não com a frieza de quem observa de fora, mas com a urgência de quem sentiu na pele a distância entre o que se esperava e o que de facto encontrou. O Bembe é hoje um município órfão, entregue à sua própria sorte, e essa orfandade tem nome, tem causa e tem responsáveis.

Basta atravessar o município para se perceber que ali falta o básico, aquilo que em qualquer parte minimamente organizada já se dá por garantido. Asfalto, não há. As vias que ligam o Bembe aos centros mais próximos são hoje pouco mais que trilhos de terra batida, cheios de buraco, viram lamaçal na chuva e nuvem de pó na época seca. Serviços bancários, também não. Quem precisa de levantar ou depositar um dinheirinho tem de percorrer dezenas, às vezes centenas de quilómetros, como se ter acesso ao próprio dinheiro fosse privilégio de quem mora perto da cidade. Farmácia, nem se fala. Em caso de doença, a distância entre a necessidade e o socorro conta-se em horas de estrada esburacada de terra batida, e por vezes até em vidas que se perdem nesse caminho.

O abandono vê-se à luz do dia em detalhes que envergonham qualquer um: a própria Administração Municipal funciona num edifício de material pré-fabricado, como se a governação da terra fosse algo provisório. E há feridas que o tempo teima em não sarar, como o que aconteceu com o famoso Lar dos Estudantes do início dos anos 80. Aquela escola em regime de internato, para onde vinham os alunos de todas as comunas do município para frequentar a 5ª e a 6ª classes, está hoje reduzida aos escombros, entregue a ruínas. É doloroso pensar que por lá passaram tantas figuras que hoje servem o país nos mais variados domínios.

E há um pormenor que, à primeira vista, até parece pequeno, mas que mostra bem a dimensão deste esquecimento. No Bembe não existe uma única hospedaria, onde um visitante possa passar a noite. Planeei a viagem com todo o cuidado, mas fui obrigado a fazer aquilo que por lá se chama “marcha apertada”: ida e volta no mesmo dia, na mesma viatura Land Cruiser, as únicas que conseguem lá chegar, sem tempo de respirar, sem tempo de conversar com calma com os mais velhos, sem tempo de deixar que a terra me contasse as suas histórias como elas merecem ser contadas. Um município sem lugar para dormir é um município que já nem espera visita, nem sequer a dos seus próprios filhos.

Tudo isto é o que eu chamo de cidadania suspensa. Porque ser cidadão não é só ter bilhete de identidade ou cartão de eleitor. É poder aceder, com dignidade, ao mínimo que sustenta uma vida humana decente. Quando esse mínimo simplesmente não existe, sobra é uma população que continua, no papel, a pertencer ao Estado angolano, mas que na prática vive à margem dele, como se tivesse sido apagada do mapa das prioridades.

E mesmo assim, e é aqui que a revolta aperta ainda mais, o povo do Bembe não se entregou ao abandono. Passei por lavras onde homens e mulheres, muitos já de idade avançada, trabalham a terra com uma dedicação que devia envergonhar quem, nos gabinetes distantes de Luanda ou da cidade do Uíge, decide o destino desta gente sem nunca lá ter posto os pés. Vi campos de mandioca, de milho, de feijão, banana, laranja, abacate e de tanta outra coisa, fruto de um esforço que começa antes do sol nascer e só acaba muito depois de ele se pôr. Há, no Bembe, uma força de vontade que comove e que devia ser motivo de orgulho para o país inteiro.

Mas essa força esbarra sempre no mesmo muro, feito de indiferença e de vias que ninguém consegue atravessar. Porque de que vale suar o dia todo, arrancar da terra o sustento da família, se depois esse mesmo sustento fica a apodrecer na lavra por falta de estrada que leve o produto até ao mercado? Vi com os meus próprios olhos o paradoxo cruel de camponeses que produzem em fartura e que, mesmo assim, continuam pobres. Não por falta de trabalho nem de vontade, mas porque o fruto desse trabalho fica preso, refém de um isolamento que ninguém se dispõe a resolver. É um cativeiro económico crónico e calado. Produz-se riqueza que nunca chega a circular, que nunca vira rendimento, que nunca vira melhoria de vida para os filhos que ficam.

O Bembe tem, toda a gente sabe, um potencial agrícola enorme. Terra fértil, clima que ajuda, gente pronta para trabalhar. E, mesmo assim, esse potencial fica por explorar, refém de estradas que não existem, de pontes que nunca se constroem, de investimento que nunca chega. Há algo profundamente injusto nesta conta. Um território rico em recursos e em gente capaz, condenado à pobreza não pela natureza, mas pela ausência do Estado.

Não quero terminar este texto como quem apenas conta uma viagem. O Bembe não é só um ponto esquecido no mapa, um nome que aparece nos relatórios e desaparece das prioridades reais. É uma ferida aberta na dignidade regional e histórica de Angola, uma ferida que sangra caladinha, longe das câmaras, longe dos discursos bonitos, longe de quem tem o poder de a tratar.

É tempo de quebrar este silêncio institucional. É tempo de exigir, sem rodeios e sem mais paciência, respostas concretas. Estradas que deixem circular gente e produto. Infraestruturas de saúde e de comércio que garantam o mínimo de dignidade. E o reconhecimento, de uma vez por todas, de que os filhos do Bembe são, tanto quanto qualquer outro angolano, portadores de direitos que ninguém lhes pode tirar. A cidadania não pode continuar a ser privilégio de quem mora perto dos centros de decisão.

A memória dos nossos ancestrais, que ali viveram, trabalharam e morreram, não nos deixa calar. E a teimosia do povo que hoje continua a lavrar aquela terra, apesar de tudo, exige de nós, angolanos de todos os cantos, que levantemos as nossas vozes. Porque um município não pode continuar a ser tratado como território órfão enquanto tiver filhos vivos a reclamar, com toda a razão, o direito de pertencer verdadeiramente à sua própria Nação.

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