ABANDONO DE BEBÉS EM CONTENTORES DE LIXO

O abandono de bebés recém-nascidos em contentores de lixo, no bairro do Malanjino 1, município de Kilamba Kiaxi, em Luanda,  tem causado preocupação e levanta questões sobre as condições sociais e familiares que podem estar por detrás desses casos.

Por Laplaine Brito

Hoje, mais um recém-nascido foi encontrado no lixo, segundo os munícipes, o oitavo bebé deitado naquela circunscrição em  menos de dois meses.

Mariana Adolfo, moradora do bairro Malanjino 1, contou que foi uma das primeiras pessoas que ouviu o choro do bebé vindo do interior de um dos contentores de lixo próximo da sua residência.

“Ouvi de manhã muito cedo, a princípio não tinha dado importância, mas quando os choros começaram a aumentar, saí para ver, afinal, era um recém-nascido que foi colocado no lixo”, disse.

“Chamei algumas vizinhas, que me ajudaram a retirá-lo. O bebé ainda se encontrava com o cordão umbilical, isso significa que a mãe deu à luz fora de um hospital. Levamos o bebé para casa, demos banho no bebé e depois fizemos chegar a uma esquadra mais próxima”, conta.

Outro relato semelhante foi feito por uma mulher que ajudou a retirar o bebé, que afirmou ter ficado sem reacção, “essas nossas filhas têm feito coisas incríveis. No nosso tempo não existia isso de colocarem bebés no lixo. Eu tenho dito sempre que, mesmo que a pessoa seja rejeitada pelo namorado não se pode deitar o bebé, ele é inocente. Essas coisas não agradam os olhos do nosso criador”, expressou.

Em Março de 2026, o Instituto Nacional da Criança (INAC) registou mais de 1.000 denúncias de violência contra crianças numa semana. Entre os casos, houve um recém-nascido abandonado pela mãe num contentor de lixo em Viana, Luanda. O bebé foi resgatado pelas autoridades e encaminhado para cuidados médicos. Em Abril, aconteceu, nos Mulenvos, e outro no Sequele, Icolo e Bengo.

Já em Junho um recém-nascido foi encontrado dentro de um contentor na Rua 4 de Abril, junto à Escola 5008. Em Julho, outro recém-nascido foi descoberto sem vida dentro de um contentor junto à antiga CIPAL, no Rangel. Agosto e Setembro do corrente ano, uma bebé de aproximadamente três meses foi encontrada abandonada numa lixeira no bairro Chimbicado, Camama. O INAC incluiu o caso nos seus registos de violência contra crianças.

Segundo Américo Abrantes, sociólogo, essas situações representam um grave problema social, “bebés encontrados em contentores de lixo ficam expostos a riscos extremos, podem sofrer ferimentos, infecções ou até perder a vida antes de serem encontrados e socorridos”.

O sociólogo explicou também que entre os factores que podem estar associados ao abandono de recém-nascidos “estão dificuldades económicas, gravidez não planeada, falta de apoio familiar, medo do julgamento social e outras situações de vulnerabilidade”.

Américo Abrantes, frisou, que a ocorrência destes casos também chama a atenção “para a necessidade de divulgar os mecanismos de apoio disponíveis para mulheres grávidas e mães que enfrentam situações de crise”.

“O abandono de um recém-nascido é uma situação de emergência. Qualquer pessoa que encontre um bebé abandonado deve procurar imediatamente os serviços de emergência, as autoridades ou uma unidade de saúde, evitando colocar a criança novamente em perigo”, manifestou.

Mário de Assis, médico no Centro de Saúde Lumbondo, no bairro Malanjino 1, contou que “as dificuldades que muitas delas enfrentam e a rejeição por parte da família são os factores primordiais que levam muitas a tomarem decisões duras”.

O médico acrescentou também que “as autoridades e instituições de protecção à criança devem reforçar a sensibilização e o acompanhamento de mulheres grávidas em situação de vulnerabilidade”.

Especialistas e organizações ligadas à protecção da infância defendem que situações deste tipo devem ser investigadas, mas também acompanhadas por medidas de prevenção, apoio às mães em situação de vulnerabilidade e reforço dos serviços sociais e de saúde.

O saneamento básico, incluindo acúmulo de lixo e falta de serviços de limpeza urbana são situações que também preocupam os moradores. Essa situação compromete a saúde pública e contribui para problemas ambientais, como contaminação de água e proliferação de doenças. A ausência de respostas rápidas das autoridades também agrava o impacto desses problemas no cotidiano da comunidade.

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