Mais doutores a escrever com os pés?

O processo de harmonização curricular do ensino superior poderá entrar em vigor no ano académico 2022-2023 em todas as províncias do país. Harmonizar significa aumentar a qualidade, significa valorizar exclusivamente a competência e banir a bajulação?

O anúncio foi feito esta terça-feira, 5 de Outubro, pela ministra do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, Maria do Rosário Sambo, no acto solene de abertura do ano académico 2021-2022, presidido pelo Presidente da República, João Lourenço.

De acordo com a ministra, o processo de harmonização curricular deve estar concluído este ano lectivo e está a ser conduzido por professores e especialistas de ordens profissionais que compõem as comissões curriculares nacionais.

No quadro da melhoria da formação de professores, Maria do Rosário Sambo deu a conhecer que se encontra em fase de conclusão o primeiro ano de três cursos de mestrado em metodologias de educação nos domínios da infância, ensino primário e ensino da língua portuguesa, e estão a ser capacitados 66 docentes para se tornarem formadores nos institutos superiores de ciências da educação.

Os estudantes destes cursos de mestrado estão a ser formados numa universidade portuguesa parceira e vão frequentar estágios pedagógicos em Angola, com apoio de instituições públicas.

Para este ano académico 2021-2022, estiveram disponíveis cerca de 152 mil vagas em todo o território nacional, estando 58 por cento concentradas na província de Luanda.

A ministra do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação disse ser necessário reforçar a oferta formativa nas áreas da Ciência, Tecnologia, Engenharia, Matemática e Saúde.

“Continua a ser manifesta a preponderância das áreas das ciências sociais e humanas, com 53 por cento no seu todo, excluindo a das ciências da educação que contribuiu com 12 por cento das vagas, o que é insuficiente para os desafios da formação de educadores de infância e dos professores do ensino primário e secundário”, referiu.

Maria do Rosário Sambo fez saber ainda que o Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação vai realizar nos dias 29 e 30 de Novembro deste ano a sétima Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia e a segunda Feira de Ideias, Inovação e Empreendedorismo de Base Tecnológica.

Estes dois eventos vão permitir maior divulgação de trabalhos científicos, trocas de experiência e intercâmbio a nível nacional e internacional.

“Será uma oportunidade soberana para discutirmos sobre as nossas realizações nos domínios das ciências, tecnologia e inovação, interagirmos com parceiros e criarmos mais pontes para o reforço da cooperação científica”, acrescentou a ministra.

Se “haver” necessidade, venha o “compromissio”

Em Janeiro de 2020, a ministra da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, Faustina Alves, apelou, em Luanda, aos jornalistas angolanos para trabalharem como agentes voluntários junto das comunidades, para extraírem informações concretas que ajudem o Executivo a traçar projectos que vão ao encontro das necessidades da população, em especial as mais vulneráveis.

Se, citando o Presidente do MPLA (João Lourenço), “haver” necessidade, alguns jornalistas (poucos, é certo) poderão também ensinar os membros do governo, bem como outros altos dignitários do poder do MPLA, a escrever (e a falar) português. Poderão também, citando agora a ex-ministra da Educação, Ana Paula Tuavanje Elias, assumir o “comprimissio” de escolarizar alguns.

De acordo com o Jornal de Angola, Faustina Alves, que na altura falava no seminário dirigido a jornalistas sobre o “Novo Paradigma da Acção Social”, disse ser urgente que os jornalistas se capacitem mais em matérias ligadas à acção social e que executem o seu trabalho com brio profissional.

É claro que os jornalistas (alguns) consideram ser urgente que os governantes se capacitem mais em matérias ligadas à acção social e que executem o seu trabalho com brio profissional, o que raramente acontece no nosso país.

Para a ministra, esta acção tinha como objectivo criar uma plataforma de diálogo com os jornalistas e tê-los como actores na abordagem de questões ligadas à missão e prioridades do Governo.

Por sua vez o então secretário de Estado da Comunicação Social, Celso Malavoloneke, reconheceu que para que os jornalistas possam cumprir cabalmente com o seu papel de informar e promover conhecimentos e atitudes que contribuam para os objectivos propostos, as acções de formação frequentes são necessárias.

Se calhar não seria mau dizer que, cada vez mais, são necessárias e urgentes acções de formação frequentes para todos os membros do governo, evitando assim que – entre uma enciclopédia de casos de manifesta incompetência – confundam o corredor de fundo com o fundo do corredor.

“Queremos que esta acção formativa seja o primeiro passo, porque a qualidade das coberturas jornalísticas sobre as actividades do MASFAMU (Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher) vai ser directamente proporcional à quantidade e à qualidade das acções de formação ministradas”, frisou.

Segundo Celso Malavoloneke, era (presumimos que continue a ser) importante que os profissionais de comunicação social sejam especializados sobre assuntos de acção social, para que ao abordarem as matérias possam fazê-lo com eficiência. Por outras palavras, deduz-se, também os governantes deverão ser especializados nos assuntos que estão sob sua jurisdição, o que manifestamente não acontece. É claro que o facto de ser militante do MPLA é, de per si, mais do que suficiente para alguém se tornar perito em tudo, seja no achatamento polar das batas ou na circulatura do quadrado.

Gay Talese (esse perigoso inimigo dos regimes totalitários) no livro “The Kingdom and the Power” (“O Reino e o Poder”), publicado em 1971, diz que “o papel da imprensa, numa democracia, é atravessar a fachada dos factos”.

Pois é. Mas onde está a tese de que os jornalistas existem para dar voz a quem a não tem? Essa parece ter morrido em combate.

Na verdade, não existe nas linhas de montagem de textos de linha branca nenhuma autonomia editorial e, ou, independência. E não existe sobretudo, mas não só, por culpa dos “jornalistas” que, sob a conveniente (sinónimo de bem remunerada) capa da cobardia se deixa(ra)m transformar em autómatos ao serviço dos mais diferentes protagonistas, sejam políticos, partidários, sindicais ou empresariais.

Como diz Gay Talese, cabe ao jornalista procurar incessantemente a verdade e não se deixar pressionar pelo poder público ou por quem quer que seja. Não interessa se as opiniões são do Secretário-Geral da ONU, da Rainha de Inglaterra, do Presidente da República de Portugal ou do “dono” de Angola, de seu nome João Lourenço.

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