Adalberto da Costa Júnior, líder da UNITA, maior partido da oposição que o MPLA ainda permite em Angola, congratulou-se com a divulgação dos valores desviados do erário público, mas defendeu que estes estão “muito aquém dos números reais”, instando o Presidente da República a apresentar mais dados. Provavelmente aos cerca de 24 mil milhões de dólares (20,2 mil milhões de euros) faltam os milhões que cabem a João Lourenço e aos membros do seu clã de sipaios bajuladores.

“Ainda bem que [João Lourenço] entendeu começar a partilhar alguns dados numéricos que há muito todos vínhamos exigindo. Há quem questione a escolha deste ‘timing’, há quem especule tratar-se de uma tentativa de fazer esquecer o escândalo do seu director de gabinete [Edeltrudes Costa], há quem também fale da coincidência da proximidade do discurso do Estado da Nação. Independentemente da razão, considero que foi muito importante conhecer estes números”, disse o líder da UNITA, Adalberto da Costa Júnior, numa conferência de imprensa, um dia depois de o Presidente da República. Presidente do MPLA e Titular do Poder Executivo, ter estimado a delapidação do erário publico em cerca de 24 mil milhões de dólares (20,2 mil milhões de euros) nos últimos tempos.

No entanto, para o dirigente da UNITA, os números “apesar de elevadíssimos, estão muitíssimo aquém dos números reais”, lembrando que só a reserva estratégica de petróleo acumulada de 2011 a 2014 chegou a reter valores na ordem dos 93 mil milhões de dólares (78 mil milhões de euros).

“Se foram só 24 desviados onde estão os restantes, perguntamos nós?”, questionou, salientando que as contas do Presidentes estão “incorrectas” e perguntando “qual o propósito para ter reduzido tanto este valor?”.

O responsável da UNITA notou que desapareceram “valores astronómicos” em programas de abastecimento de água e obras públicas previstas em programas de investimento públicos, nomeadamente na construção de quartéis e modernização das Forças Armadas no tempo em que João Lourenço era ministro da Defesa, mas não materializadas ou concluídas, muitas delas com recurso a financiamento chinês.

Adalberto da Costa Júnior instou João Lourenço a usar o seu discurso sobre o Estado da Nação para trazer mais dados aos angolanos e lamentou que a falta de transparência nos negócios do Estado continue a ser a regra.

O líder da UNITA, que convocou os jornalistas dois dias antes do discurso sobre o Estado da Nação… do MPLA, que vai ser proferido por João Lourenço na quarta-feira, marcando o início do ano parlamentar, sublinhou que o partido do “Galo Negro” está preparado para mostrar um “cartão vermelho” ao chefe do executivo angolano face ao estado em que Angola se encontra, no seu entender bem pior do que há três anos, quando o Presidente iniciou o mandato. Ou, por outras palavras, quando José Eduardo dos Santos deixou o Poder.

O presidente da UNITA espera, por isso, que João Lourenço apresente “um discurso coerente, que reflicta o verdadeiro estado em que o país se encontra”, menos centrado em promessas e mais focado num diagnóstico da situação económica e social do país.

Adalberto da Costa Júnior criticou a falta de acolhimento das propostas da UNITA, que têm sido “repetidamente ignoradas” e insistiu numa revisão constitucional que permita aos angolanos eleger directamente o seu presidente e à Assembleia Nacional exercer as suas competências de fiscalização do Executivo.

Lamentou também as “demonstrações múltiplas de censura” e monopólios no sector da comunicação social, classificando os fóruns de auscultação de cidadãos como manobras de marketing.

O presidente da UNITA reiterou que o combate à corrupção em Angola é selectivo, apontando o caso de Edeltrudes Costa, chefe de gabinete do Presidente, que terá sido, segundo uma investigação da estação televisiva portuguesa TVI que, na substância, já fora divulgada há muito, favorecido em contratos públicos, caso que não foi noticiado pelos meios de comunicação social públicos angolanos.

“Se o alvo da corrupção está dentro do Palácio [Presidencial] não se noticia”, criticou o dirigente partidário.

Adalberto da Costa Júnior Insistiu, por outro lado, que no combate à corrupção que se trava em Angola, “há perseguidos e há protegidos” e reafirmou que os números divulgados pelo Presidente “não encontram justificação por serem muito baixos”. Claro. Nesses números não figuram os roubos dos protegidos.

“Na realidade os autores dos desvios sãos os membros do MPLA e não é impossível que haja aqui todo um programa de proteccionismo aos verdadeiros milionários deste país que estão no MPLA”, rematou o presidente da UNITA.

Na verdade, mesmo que de forma mitigada, os angolanos gostariam de conhecer a declaração de rendimentos de João Lourenço, bem como do seu património, incluindo rendimentos brutos, descrição dos elementos do seu activo patrimonial, existentes no país ou no estrangeiro, designadamente do património imobiliário, de quotas, acções ou outras partes sociais do capital de sociedades civis ou comerciais, carteiras de títulos, contas bancárias a prazo, aplicações financeiras equivalentes.

Gostariam de conhecer a descrição do seu passivo, designadamente em relação ao Estado, a instituições de crédito e a quaisquer empresas, públicas ou privadas, no país e/ou no estrangeiro.

Gostariam de conhecer a declaração de cargos sociais que exerce ou tenha exercido no país ou no estrangeiro, em empresas, fundações ou associações de direito público.

Isto é o essencial do ponto de vista político, moral e ético. O acessório é tudo o resto. E até agora, tanto quanto é público, João Lourenço só deu a conhecer o… resto.

Folha 8 com Lusa