A realidade dói. Dói principalmente quando os mortais, vulneráveis, na sua resistência, teimam em não a encarar, mesmo quando a traduzem em sublimes versos. “Um dia quando eu partir, não deixarei mais do que simples lágrimas”, são as mais useiras antevisões, no calor de cada gemido, afago ou acalorada discussão.

Por Folha 8 (o de ontem, o de hoje, o de amanhã)

Hoje, não é assim, para nenhum dos presentes e, até dos ausentes, pois mais do que simples escorrer de lágrimas, nas faces, o rio giboiando em nossas mentes, não é indiferente à dor inacreditável e indescritível, ao chocar nesta barragem limitadora em que a mãe natureza, nos colocou em barreiras opostas às do Tio Setas.

António Setas é um homem, um pai, um avô, amigo, um colega, um exímio profissional, um jornalista, um responsável do Folha 8, que cultivava, em papel, as mais sublimes letras, que compunham a mensagem, que acantonava, a cada dia, de todas as semanas, o leitor a uma atenta leitura.

Hoje, ao sentirmos a ausência do seu lead e degustosos parágrafos, perguntamo-nos, as razões deste até breve, quando sabemos nunca teres mudado de barricada.

A barricada de um homem de esquerda, cada vez mais raros no jornalismo actual e solto a tentação do vil metal, que muitas vezes apunhala amigos e colegas de profissão.

Sempre te vimos fiel à utopia de um país mais plural, igual, de liberdade e democrático, distante do estigma de a democracia, ter, em África, e em Angola, este nosso torrão, de ser definido pela discricionariedade de quem esteja no poder violando todas as somas e vontades do cidadão soberano na vontade e decisão de escolher, quem melhor o pode representar e não quem melhor o pode afogar no sonho de ser livre, enquanto jornalista.

Hoje, teimosa e determinantemente, uma seta, marca, com a assinatura do Tio Setas, o adiar, por uns instantes, quiçá, breves, as tertúlias, de longas, intermináveis e cúmplices noites, falando de toda engenharia da imprensa plural, do Folha 8 e da rota para a verdadeira liberdade de imprensa, em Angola.

Várias vezes foste tentado a bater com a porta, face ao baixo salário, de um projecto de imprensa de esquerda, como o Folha 8. Do pedestal da tua humildade, teimaste em não me abandonar, em não nos abandonar, em não me trair, em não nos trair.

Para colmatar as agruras de uma economia cruel, aliviavas o esforço financeiro desta tua casa pioneira, palmilhando colaborações, na tua área, por esta razão, o rio do “O PAÍS”, não deixa de remar, também, contigo nesta hora.

Trilhaste este caminho de acreditar que com a tua luta, a nossa luta, nem o chamamento do conforto de uma vida menos tumultuosa, que a Europa te reservava, te daria tesão de continuar a ser o monstro do jornalismo angolano que és.

Se nada te fez antes recuar, nós com a higiene intelectual, que tanto preservas, não o faremos nunca, pois, aqui continuarás a peregrinar e ajudar a desabrochar muitas outras sementes, neste nosso chão.

Que homenagem, um amigo nas vestes de director, os teus colegas de redacção poderão fazer, se teimosamente te impedimos de partir da nossa memória colectiva que é a que mais importa nesta nossa mortal cumplicidade.

Particularmente, eu, na distância que sempre te impedi de partir, hoje não seria o dia da excepção, ainda que a distância me impeça de estar presente.

Toda a direcção, a redacção e a administração temos a responsabilidade de te dizer que estaremos atentos, ante a tua ousadia de partir sem dizer adeus e para onde vais continuar a mandar os teus apetecidos textos.

Um homem, um cúmplice, um gigante como tu, não parte nunca, ainda que fisicamente se ausente da Redacção. Da tua Redacção. Estamos, todos aqui impedidos, para te dizer até breve.

Um forte abraço e, apesar da tua materialidade de encarar a vida, vai com Deus, Tio Setas.

TAMOJUNTO

O Funeral de António Setas será amanhã, sábado, às 11 horas no Cemitério de Benfica, em Luanda.

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