O Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA) repudia de forma “veemente” a atitude dos funcionários do governo (MPLA) da Província da Lunda Norte, que impediram jornalistas de fazerem a cobertura de um evento por não usarem fato e gravata. Provavelmente esses sipaios não sabem contar até 12 sem se descalçarem, mas quando se é do governo… tudo é permitido.

Em comunicado, o sindicato refere que os jornalistas da Rádio Nacional de Angola e do Jornal de Angola (apesar  de serem de órgãos afectos ao Governo, ou talvez por isso mesmo) foram impedidos de fazer a cobertura da tomada de posse dos novos administradores daquela província angolana “por não se apresentarem de fato e gravata”.

“O Sindicato dos Jornalistas Angolanos lembra que se vestir de fato e gravata não consta do Estatuto dos Jornalistas como dever profissional, nem da Lei de Imprensa como um direito da fonte de exigir tal vestimenta, ou outro diploma legal vigente no país que obrigue as pessoas ao uso de fato e gravata para a cobertura daquela ou de outra cerimónia qualquer”, lê-se no comunicado.

A nota do SJA considera ainda que “a imposição aos jornalistas de se apresentarem trajados de fato e gravata não influencia a qualidade do jornalismo, dos profissionais, nem enobrece ou empobrece as actividades sujeitas à cobertura”.

Para a estrutura sindical representativa dos jornalistas, a atitude dos funcionários do governo da Província da Lunda Norte foi “um abuso de autoridade, falta de respeito e uma ofensa à dignidade profissional, ao qual os jornalistas, de Cabinda ao Cunene, devem responder com veemência e repúdio”.

Provavelmente o Departamento e Informação e Propaganda do MPLA já terá também baixado ordens para que o presidente da ERCA (Entidade Reguladora da Comunicação Social) “decrete” que os jornalistas, sempre que dirijam a membros da casta superior, o MPLA, sejam obrigados a usar expressões como “Vossa Excelência”, “Vossa Eminência”, “Vossa Senhoria”.

Não tenhamos medo das palavras e das verdades, sem fato e sem gravata. Um jornalismo mais sério, baseado no patriotismo, na ética e na deontológica profissional, é o que o ministério da Comunicação Social pretende para Angola. A tese (adaptada do tempo de partido único) é do secretário de Estado do sector, Celso Malavoloneke.

Convenhamos, desde logo, que só a própria existência de um ministério da Comunicação Social é reveladora da enormíssima distância a que estamos das democracias e dos Estados de Direito. De quanto longe estamos do Jornalismo e do quanto perto permanecemos da propaganda, se bem que esta também tenha evoluído.

O Ministério da Comunicação Social quer formatar o que a comunicação social diz. Esse era e continua a ser o diapasão do MPLA. Mesmo maquilhado, o MPLA não consegue separar o Jornalismo do comércio jornalístico.

Quem é o secretário de Estado, ou o ministro, ou o próprio Titular do Poder Executivo, para nos vir dar lições do que é um “jornalismo mais sério, baseado no patriotismo, na ética e na deontologia profissional”?

Mas afinal, para além dos leitores, ouvintes e telespectadores, bem como dos eventuais órgãos da classe, quem é que define o que é “jornalismo sério”, quem é que avalia o “patriotismo” dos jornalistas, ou a sua ética e deontologia? Ou, com outros protagonistas e roupagens diferentes, estamos a voltar (se é que já de lá saímos) ao tempo em que patriotismo, ética e deontologia eram sinónimos exclusivos de MPLA?

Esta peregrina ideia de João Melo, Malavoloneke, Carnaval e companhia foi categoricamente manifestada no dia 27 de Fevereiro de 2018, na cidade do Huambo, na abertura do seminário dirigido aos jornalistas das províncias do Huambo, Bié, Benguela, Cuanza Sul e Cuando Cubango.

Para alcançar tal desiderato, Celso Malavoloneke informou que o Ministério da Comunicação Social iria prestar uma atenção especial na formação e qualificação dos jornalistas, para que estes estejam aptos para corresponder às expectativas do Governo.

Como se vê o gato escondeu o rabo mas deixou o corpo todo de fora. Então vamos qualificar os jornalistas para que eles, atente-se, “estejam aptos para corresponder às expectativas do Governo”? Ou seja, serão formatados para serem não jornalistas mas meros propagandistas ao serviço do Governo, não defraudando as encomendas e as “ordens superiores” que devem veicular.

Celso Malavoloneke lembrou – e muito bem (as palavras voam mas os escritos são eternos) – que o Presidente da República, João Lourenço, no seu primeiro discurso de tomada de posse, orientou para que se prestasse uma atenção especial à Comunicação Social e aos jornalistas, para que, no decurso da sua actividade (na altura não se falou de usarem fato e gravata), pautem a sua actividade pela ética, deontologia, verdade e patriotismo. E fez bem em lembrar. É que ministros e secretários de Estado também recebem “ordens superiores” e, por isso, não se podem esquecer das louvaminhas que o Presidente exige.

Aos servidores públicos, segundo Celso Malavoleneke, o Chefe de Estado recomendou para estarem abertos e preparados para a crítica veiculada pelos órgãos de Comunicação Social, estabelecendo, deste modo, um novo paradigma sobre a forma de fazer jornalismo em Angola.

Sejam implementadas as teses do Governo, que ao fim e ao cabo pouco diferem das anteriores, a não ser na embalagem, e os servidores públicos podem estar descansados que não haverá lugar a críticas da Comunicação Social.

Dar voz a quem a não tem? Isso é que era bom! Não é para isso que temos um Ministério da Comunicação Social e uma Entidade Reguladora da Comunicação Social.

Alguns leitores perguntaram-nos por que razão o Folha 8 (como outros) não é convidado para estes eventos, ainda por cima sendo eles pagos com o dinheiro de todos nós. Não somos convidados porque os donos da verdade oficial entendem que não somos “patriotas”, não aceitam a nossa tese de que se o Jornalista não procura saber o que se passa é um imbecil, e de que se sabe o que se passa e se cala é um criminoso.

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