O Governo Provincial de Luanda, sob as ordens superiores de Joana Lina, proibiu a manifestação prevista para quarta-feira, organizada por jovens activistas, que mantêm a intenção de sair à rua para protestar contra o elevado do custo de vida e pedir eleições autárquicas em 2021. E se fosse para apoiar as medidas do Governo? Aí seria diferente.

Em declarações à agência Lusa, Benedito (Dito) Dalí, um dos promotores da marcha, prevista para quarta-feira, dia em que se assinalam os 45 anos de independência de Angola, disse que a proibição foi hoje dada a conhecer pela polícia.

Segundo Dito Dalí, o Governo Provincial de Luanda alega que houve insuficiência na comunicação da carta, por não ter sido colocada a morada, “o que é mentira”.

“Nós temos o protocolo, onde fizemos referência à nossa morada, profissão. Outra questão que levantam é que o Decreto Presidencial (sobre o Estado de Calamidade Pública) prevê ajuntamentos não superiores a cinco pessoas”, referiu.

No passado dia 24 de Outubro, uma outra marcha convocada pelo mesmo grupo de activistas e com os mesmos objectivos, foi violentamente reprimida pela polícia e terminou com a detenção de mais de uma centena de manifestantes, incluindo jornalistas, entretanto já libertados.

MPLA não aprende. Também não precisa

Em 2015, os activistas detidos em Luanda, acusados de conspiração, queriam provocar uma intervenção da NATO em Angola que conduzisse ao derrube do Presidente José Eduardo dos Santos. Nem mais nem menos. Quem disse tal barbaridade? Ora quem haveria de ser? Nem mais nem menos do que o então embaixador itinerante do regime e hoje embaixador de João Lourenço na Guiné-Equatorial, António Luvualu de Carvalho, uma cópia masculina de Joana Lina.

O rapaz estava desesperado e disparava em todos os sentidos. Na altura, ainda com o fantasma de José Eduardo Agualusa entalado na garganta, que lhe valeu um enorme puxão de orelhas do chefe do posto, descobriu mais essa pérola. Tinha então outras engatilhadas. Seria que os activistas também não quereriam a intervenção do Estado Islâmico?

“São 15 cidadãos que durante vários dias, durante várias etapas foram acompanhados pelos Serviços de Investigação Criminal. Estavam num processo de sensibilização de um grupo (…) para levarem as autoridades até um ponto, um extremo de aconteceram inclusive mortes”, salientou Luvualu de Carvalho na resposta à encomenda de Luanda a que a Lusa (obviamente) respondeu afirmativamente.

Luvualu de Carvalho esteve na colónia europeia do MPLA (Portugal) naquela que foi a sua primeira etapa de uma peregrinação para, reconhece o próprio, “dar uma grande dinâmica à imagem de Angola a nível internacional”.

Socorrendo-se das afirmações feitas em Luanda pelo então ministro do Interior, Ângelo Veiga Tavares, o embaixador itinerante repetiu – e repetir é uma das suas mais entusiásticas características – que seria posta em prática uma marcha até ao Palácio Presidencial, “levando com que fossem quebradas as regras de segurança (…) para que a guarda presidencial ou a polícia presente reagisse, matasse crianças, matasse senhoras e matasse idosos para provocar a comoção internacional e justificar então uma intervenção vergonhosa”.

O rapaz, tal como João Pinto, Joana Lina, Luísa Damião e mais uma catrefa de invertebrados, é tão genial que até parece acreditar no que diz. Tem, reconheça-se, uma vantagem sobre a esmagadora maioria dos seus camaradas. Fala com tal convicção que ninguém reparou que era um dos boneco usados pelo ventríloquo Eduardo dos Santos, tal como é hoje por João Lourenço.

“É isto que se procurava. Que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) ou alguns países que dela fazem parte fizessem um ataque a Angola, para que se verifique o horror que se verificou na Líbia ou se verificou na Tunísia”, acentuou Luvualu de Carvalho.

Na altura, pedagogicamente, Agualusa bem lhe explicou que, por exemplo, o Quarteto de Diálogo para a Tunísia, composto por quatro organizações que negociaram uma forma de garantir que o país se mantivesse uma sociedade pluralista e democrática, em 2013, num momento de crise após a Primavera Árabe, venceu o Prémio Nobel da Paz de 2015. Isto pelo “contributo decisivo para a construção de uma democracia pluralista na Tunísia”.

Luvualu bem gostaria, por alguma razão tem íntimas ligações à ex-URSS, que o Pacto de Varsóvia ainda andasse por aí. Seria uma boa ajuda para manter a NATO quietinha, não seria Luvualu? Também gostaria que a Cuba continuasse a ser o que era nos tempos do Maio de 1977 e anos seguintes.

Mas era tudo uma chatice, um complô, para azucrinar o na altura impoluto e honorável cidadão José Eduardo dos Santos. A URSS já não existe, Cuba até já vai à missa do Tio Sam, e a NATO apoia activistas…

Quanto aos efeitos do caso dos activistas então detidos na imagem do reino do seu patrão, Luvualu de Carvalho reconhece que é negativa.

“A situação que levou à detenção destes 15 indivíduos e os processos de luta desenvolvidos por estes 15 levaram, claro, o nome de Angola às manchetes pelas piores razões e isso ninguém nega”, disse.

“Piores razões”? Lá teve Luvualu de baixar as calcinhas e levar uns tabefes do chefe.

Na altura das manifestações do dia 24 de Outubro, a governadora de Luanda, Joana Lina, considerou a manifestação, que foi fortemente reprimida pela polícia, como “um acto de vandalismo e desacato às autoridades”, citada no órgão privativo do MPLA, Jornal de Angola.

Joana Lina lamentou as “cenas de violação das medidas contidas no Decreto Presidencial em vigor desde as primeiras horas” do dia 24 e sublinhou que são proibidos os ajuntamentos.

Afirmou ainda que não está em causa o impedimento ou limitação de direitos fundamentais, declarando que “é a própria Constituição que exige ponderação entre a liberdade de se manifestar e o dever de proteger a vida humana”.

Por outro lado, lamentou os “prejuízos incalculáveis” e apontou fins “inconfessos” de pessoas que tentam manipular os jovens. Joana Lina sabe que tem de dizer isso porque está nos manuais do MPLA, porque integra o ADN do seu partido e, sobretudo, porque sabe que tem do seu lado a razão da força, enquanto os manifestantes só têm a força da razão.

A marcha, convocada por activistas da sociedade civil, contou com a adesão da UNITA e outras forças da oposição e visava reivindicar coisas disparatadas como melhores condições de vida, mais emprego e a realização das primeiras eleições autárquicas em Angola. Tudo questões que, reconheça-se, não têm razão de ser e que por isso constituem um crime contra a segurança do… reino.

O melhor que João Lourenço conseguiu, em matéria de liberdade de manifestação, foi mantê-la ligada a uma máquina de suporte de vida até que seja conveniente desligá-la e declarar o óbito.

Daí ser hora de voltar a perguntar: Que liberdade de expressão quer, afinal, João Lourenço? Aquela que depois de ter chegado ao poder implanta uma política de expressão sem liberdade? Aquela que indicia que activista bom é o que apoia o MPLA? Aquela que impõe que os activistas (como os jornalistas) devem ser amputados de coluna vertebral e fazerem a transferência do cérebro para os intestinos?

A visão absolutista do MPLA (fascismo; ditadura; monarquia absoluta; socialismo barroco), tenta impedir o contraditório social, a diversidade de opiniões, a livre indignação popular.

Daí se ter montada uma campanha de propaganda ruidosa, através de uma máquina de comunicação social pública controlada, capitaneada por agentes obcecados e ideologicamente ligados ao partido e líder dominante, cuja missão é desvirtuar o cenário, “vendendo ilusões e banha de cobra”, branqueando a incompetência ou má-gestão da coisa pública, nos mesmos índices do período anterior.

Os noticiários de todas as televisões, rádios e jornais controlados são miseráveis, face às vãs justificativas, do descalabro, continuar ancorado ao passado, caricatamente, praticados pela mesma família ideológica, que endemicamente, desvirtuando a acumulação primitiva do capital, criou uma selectiva e ideológica classe empresarial, que se enriqueceu pela locupletação do erário público, que não consegue, a grande maioria, justificar.

Com os constantes ataques de humilhação e discriminação, exibidos na imprensado MPLA, a boçalidade patológica da propaganda institucional, de exaltação com a prisão, arrestos dos bens imóveis dos adversários e a eliminação da imagem de José Eduardo dos Santos, das notas, dos quartéis, das sedes do MPLA e dos cartazes comemorativos dos 45 anos de independência, demonstram a conversão da imprensa angolana, tal como Hitler fez, em laboratórios do ódio e raiva, contra adversários políticos internos e externos.

Por esta razão é necessário que alguém, próximo, diga, hoje e agora, amanhã pode ser tarde, a João Lourenço, para saber ouvir, desistir da bajulação, eleger as liberdades, condenar a repressão policial e informativa, adoptar a democracia como bandeira plural, para não se transformar em aglutinador de contestações e o pai das grandes convulsões sociais, em função do desemprego, fome e miséria, enganado por uma comunicação social controlada, partidocratamente.

Um líder ao preferir ser “assassinado” pelo elogio, ao invés de salvo pela crítica é incompetente. João Lourenço já teve tempo de optar. Infelizmente mostra que é mortalmente alérgico à crítica…