Angola espera obter a cooperação de outros países que estejam abrangidos pelo caso Luanda Leaks, que envolve Manuel Vicente, perdão, Isabel dos Santos, afirmou hoje em Londres o ministro de Estado para a Coordenação Económica, Manuel Nunes Júnior.

Numa intervenção no Instituto Real de Relações Internacionais Chatham House, o governante do MPLA, ex-ilustre ajudante de José Eduardo dos Santos, disse que espera “cooperação em termos diplomáticos com todos aqueles países que sintam que aspectos que foram trazidos à luz tenham relevância para os seus países”.

“O combate que estamos a fazer ao mau uso de recursos públicos em Angola é um combate sério, firme e vai continuar, porque precisamos de ter em Angola uma sociedade que respeite a lei. Vamos buscar a cooperação de todos aqueles países que podem ser relevantes nesta luta contra a corrupção”, afirmou Manuel Nunes Júnior, questionado sobre o caso Luanda Leaks.

O Governo do impoluto e honorável, para além de amigo, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo já prometeu colocar à disposição do MPLA todo o seu prestigiado sistema de justiça. Assim, como um emblemático Estado de Direito, a Guiné Equatorial apenas aguarda a chegada da sentença que mais interessar a Luanda para, a partir daí, fazer o julgamento…

O ministro angolano admitiu que o caso relativo à filha do anterior Presidente José Eduardo dos Santos “é uma situação sensível, mas é algo que o executivo angolano tem realmente de tratar”.

Sobre o papel das consultoras que faziam auditorias a empresas, referiu que “vários órgãos de Angola e não só vão ter de pegar nessa informação toda, analisá-la e ver os passos seguintes”. Boa! Como se o Governo não soubesse melhor do que ninguém o papel dos consultores. Como se não tivesse sido o impoluto Governo do MPLA a fornecer o dossier do Luanda Leaks.

O Consórcio Internacional de Jornalismo de suposta Investigação (ICIJ) revelou no domingo mais de 715 mil ficheiros, sob o nome de Luanda Leaks, que detalham esquemas financeiros de Isabel dos Santos e do marido, Sindika Dokolo, que terão permitido retirar dinheiro do erário público angolano, utilizando paraísos fiscais.

Suposta investigação porque os jornalistas se limitaram a receber o dossier (através de uma fuga estratégica e conveniente) e a ler algumas partes, limitando-se a reproduzir as partes que consideraram mais interessantes. Investigar significa indagação ou pesquisa que se faz buscando, examinando e interrogando.

A empresária Isabel dos Santos disse estar a ser vítima de um ataque político orquestrado para a neutralizar e sustentou que as alegações feitas contra si são “completamente infundadas”, prometendo “lutar nos tribunais internacionais” para “repor a verdade”.

De acordo com a leitura deste conjunto de órgãos de comunicação social, entre os quais o Expresso e a SIC, Isabel dos Santos terá montado um esquema de ocultação que lhe permitiu desviar mais de 100 milhões de dólares (90 milhões de euros) para uma empresa sediada no Dubai e que tinha como única accionista declarada a portuguesa Paula Oliveira, amiga de Isabel dos Santos e administradora da operadora NOS.

Os dados divulgados envolvem também o advogado pessoal da empresária, o português Jorge Brito Pereira (sócio da Uría Menéndez, o escritório de Proença de Carvalho), o presidente do Conselho de Administração da Efacec, Mário Leite da Silva (CEO da Fidequity, empresa com sede em Lisboa detida por Isabel dos Santos e o seu marido), e Sarju Raikundalia (ex-administrador financeiro da Sonangol).

Segundo os documentos (cuja autenticidade os jornalistas não verificaram), Isabel dos Santos e Sindika Dokolo têm participações accionistas de empresas e bens, como imobiliários, em países como Angola, Portugal, Reino Unido, Dubai e Mónaco.

O actual ministro de Estado para a Coordenação Económica, que esteve em Londres a representar o Presidente João Lourenço, na primeira Cimeira de Investimento Reino Unido-África, na segunda-feira, falava após uma palestra intitulada “Angola e compromisso com a Economia: Avaliação do Progresso das Privatizações e Outras Reformas Económicas”.

Manuel Nunes Júnior salientou a implementação teórica de “um verdadeiro Estado de direito” (à medida do MPLA) como essencial para atrair investidores estrangeiros para o país e a necessidade de introduzir “medidas para combater práticas que não são saudáveis nem recomendáveis para o crescimento do país”.

“Começamos a viver um ambiente diferente em Angola. A nossa percepção sobre a corrupção e a impunidade e a percepção do resto do mundo sobre nós começa a mudar no sentido positivo”, congratulou-se o ex-ministro de José Eduardo dos Santos.

O governante elogiou ainda a Procuradoria-Geral da República de Angola por estar “a levar a cabo um combate efectivo contra a criminalidade económica e financeira” e os tribunais, que, garante, “têm exercido um nobre papel com plena autonomia”.

Na verdade, o organismo dirigido pelo general Hélder Fernando Pitta Gróz supostamente combate a criminalidade financeira de uma forma que está no ADN do MPLA. Primeiro é lavrada a sentença e depois é feito o julgamento. Ou seja, até prova em contrário todos os que não têm a bênção de João Lourenço são… culpados.

Folha 8 com Lusa

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