A responsável da Transparência Internacional (TI) para o Sul de África (Mokgao Kupe) considerou hoje que os Luanda Leaks estão a provocar “ondas de choque”, nomeadamente em África, admitindo um “efeito dominó” de revelação de casos semelhantes no continente. Bom seria que o “efeito dominó” também acontecesse em Angola. Seria uma boa possibilidade de um país poder ser o que não é, um Estado de Direito.

“A investigação está a provocar ondas de choque não só em África, mas também na comunidade internacional, porque mostra que ninguém está imune e que os delitos supostamente secretos não o são”, adiantou, em declarações à agência Lusa, Mokgao Kupe.

Até agora, ao contrário do que diz Mokgao Kupe, os Luanda Leaks estão a mostrar que, no caso de Angola, ainda há muita gente imune, casos de João Lourenço e de Manuel Vicente e do próprio MPLA, talvez um dos partidos mais ricos do mundo e o que mais corruptos tem por metro quadrado.

A coordenadora regional da Transparência Internacional para o Sul de África disse, por outro lado, acreditar que “provavelmente a investigação terá um efeito dominó” que levará a “revelações explosivas” em outros países. Só falta agora dizer que é preciso um Malabo Leaks para se saber que a Guiné Equatorial (membro da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) é um dos países mais corruptos do Mundo?

Mokgao Kupe classificou como “cruciais” as revelações do dossier Luanda Leaks por tornarem “mais claro” o nível de corrupção que, “durante duas décadas, existiu nos sectores público e privado em Angola”.

Por ignorância (ou será má-fé?), Mokgao Kupe refere duas décadas quando, para ser exacta, deveria falar em mais de quatro décadas pois, na verdade, a corrupção em Angola começou em 1975 quando Portugal vendeu o país ao MPLA.

“Também expõem instituições e países fora de Angola, que facilitaram ou viabilizaram a corrupção, um ângulo interessante que por vezes não consegue passar nas investigações jornalísticas”, apontou. Pois é. Como se sabe, no caso angolano os dirigentes do MPLA aprenderam com os professores portugueses e, como bons alunos, estão a revelar-se ainda… melhores.

Para a coordenadora da TI é, por isso, “fundamental que os facilitadores sejam responsabilizados”. E que tal responsabilizar os criminosos que sabiam de tudo mas estiveram calados?

“Paraísos fiscais e países que historicamente têm boas pontuações no Índice de Percepção da Corrupção devem assegurar que pessoas e empresas implicadas na corrupção no estrangeiro são responsabilizadas e que os bens roubados são devolvidos”, disse.

Mokgao Kupe sublinhou igualmente o “importante papel” da comunicação social (de alguma, pelo menos) na recuperação de bens roubados, lembrando que muitas vezes os governos reagem apenas quando enfrentam o escrutínio dos media.

“Os relatos de corrupção alarmam os investidores e afectam o investimento directo estrangeiro quando os países não tomam medidas contra a corrupção. Reportagens sobre os efeitos da corrupção nos mais pobres sensibilizam o público e forçam os Governos a responsabilizarem-se por esses activos”, apontou com um elevado grau de ingenuidade.

A coordenadora da TI para o Sul de África elogiou a acção do Governo de Angola (apesar de este ser hoje formado pelos corruptos de ontem) na suposta luta contra a corrupção, mostrando-se convencida que mais pessoas serão alvo de investigações no país. Serão com certeza. Mas, pelo que se vai vendo, serão os pilha-galinhas e não os donos do aviário.

“É notável que o Governo tenha tomado medidas tão rápidas contra os suspeitos de corrupção, incluindo o antigo chefe do Serviço de Inteligência e Segurança Militar, além da Isabel dos Santos e José Filomeno dos Santos [filhos do ex-Presidente angolano José Eduardo dos Santos]”, considerou Mokgao Kupe, passando um (mais um) atestado de matumbez e de menoridade aos angolanos.

A definição da coordenadora da TI para o Sul de África é, ela sim, notável no branqueamento de imagem do governo do MPLA, há 44 anos no Poder e dirigido por alguém (João Lourenço) que foi vice-presidente do partido na altura em que José Eduardo dos Santos era o presidente, seu ministro da Defesa, e que foi por ele escolhido para ser Presidente da República.

Mokgao Kupe recordou que qualquer caso de corrupção “envolve uma multiplicidade de indivíduos e instituições”, considerando, por isso, “altamente provável” que, com o avançar das investigações e com o aumento da cobertura mediática, “outros indivíduos venham a ser investigados”.

Folha 8 com Lusa

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