O médico angolano e deputado da UNITA, Maurílio Luyele, disse hoje que a polícia “manipulou o corpo clínico” do Hospital Américo Boavida sobre a morte de um activista na manifestação de quarta-feira, em Luanda, o que classificou como “repugnante”. Nada de novo, portanto.

“A polícia inicialmente negou a ocorrência de um morto, mas no dia seguinte acabou por reconhecer, mas o que é mais repugnante ainda é a forma como a polícia manipulou a informação, porque o jovem morto, faleceu na hora, ali na Avenida Brasil, morto a tiro”, afirmou hoje Maurílio Luyele, em declarações à Lusa.

Na quarta-feira, alguns activistas relataram a morte de pelo menos um manifestante, mas a polícia afirmou que o jovem se encontrava hospitalizado. Aliás, como se sabe, o jovem tropeçou na sua própria sombra, caiu e bateu com a cabeça na sombra de um Polícia que, aliás, prontamente o socorreu. Só mesmo mentes mal intencionadas podem afirmar que na quarta-feira houve violência…

A Polícia garantiu ter usado apenas meios não letais, próprios “neste tipo de eventos”. É verdade. Por alguma razão o que se viu no local, e que foi confundido com invólucros de balas, mais não eram do que vestígios dos rebuçados e chocolates que o Ministro Eugénio Laborinho entregou aos polícias para distribuir pelos manifestantes…

Segundo o político da UNITA, o maior partido da oposição que o MPLA ainda permite que exista no reino, a polícia está a veicular a informação e “manipulou inclusive o corpo clínico do Hospital Américo Boavida para prestar informações falsas”.

“Um bocado à semelhança do que já ocorreu com o doutor Sílvio Dala [médico morto numa esquadra policial, em Setembro passado, após ter sido detido por não usar máscara facial no interior da sua viatura]”, recordou.

O jovem angolano foi inicialmente dado como morto, mas a polícia afirmou que estava apenas ferido. O manifestante acabou por morrer, confirmou já na quinta-feira, a equipa médica de atendimento do hospital onde deu entrada na véspera.

A informação foi avançada pelo chefe da equipa do banco de urgência do Hospital Américo Boavida, onde foi atendido o jovem, de 26 anos, estudante universitário, que deu entrada naquela unidade hospitalar, ao início da tarde de quarta-feira, depois de ferido durante a tentativa de manifestação que visava concretizar um golpe de estado e, quiçá, um atentado contra o Presidente através da exigência de melhores condições de vida e da realização das primeiras eleições autárquicas…

Augusto Manuel referiu que o paciente foi levado pela polícia àquela unidade hospitalar, como tendo sido recolhido na via pública, vítima de provável agressão física.

O médico, em declarações à Televisão Pública de Angola, referiu que o jovem terá sido atingido “com um objecto contundente”, provocando-lhe um trauma na cabeça, “com sangramento activo e exposição da massa cerebral”.

Hoje, o médico Maurílio Luyele assegurou serem “falsas” as informações de que o jovem manifestante tenha sido vítima de um trauma craniano, insistindo que o mesmo “não chegou vivo ao hospital” após ter sido ferido com uma arma de fogo.

Em relação às balas reais, registe-se que o Folha 8 (que na quarta-feira esteve lo centro do furacão) confirma que foram usadas essas balas, não tendo – contudo – conseguido certificar-se de que não seriam balas que andavam perdidas desde 1992, altura em que o MPLA tentou decapitar a UNITA.

“Não chegou vivo ao hospital, não é verdade, morreu no local. A polícia chegou ao hospital depois. Os companheiros levaram-no em desespero ao hospital, e quando chegaram ao hospital o corpo clínico confirmou que ele já estava morto”, frisou.

“Mas a polícia chegou depois e afastou os companheiros da relação com o corpo clínico e manipulou a informação, tendo depois veiculado a informação de que o jovem estava vivo, mas ferido, para depois prestar aquela informação que teve trauma craniano e não por ferida de arma de fogo, o que é absolutamente falso”, realçou.

O também vice-presidente do grupo parlamentar da UNITA referiu que o seu partido “repudia com veemência” a repressão policial sobre os manifestantes, defendendo por isso um “inquérito independente” sobre a morte do jovem manifestante.

“Impõe-se o esclarecimento deste caso, um inquérito independente sim, e como a nossa polícia já é useira, são muitos casos assim, penso que é preciso pôr termo a isto, aquilo deveria ser um inquérito médico-legal normal”, defendeu.

Mas, observou, a medicina legal em Angola é da responsabilidade do SIC (Serviço de Investigação Criminal), órgão do Ministério do Interior, e “por corporativismo é quase que impossível a polícia nacional ou a PGR conduzir um inquérito deste tipo”.

O “ideal”, notou, “seria um inquérito conduzido pela Procuradoria-Geral da República [PGR] mas com a partição de entidades independentes, talvez a Ordem dos Advogados, associações dos direitos humanos, ou a Amnistia Internacional”.

“Porque já são muitas violações aos direitos humanos e já está a ser muita violência”, apontou.

Segundo o deputado, o “batalhão” de jovens que “reclama legitimamente” por melhores condições de vida “só tende a crescer, não é por incitamento da UNITA mas por dificuldades reais que existem”.

“Esse batalhão tende a crescer e o que se espera é que nos próximos tempos aumente a violência e, se não se puser um freio nessa repressão policial, há o risco de ocorrer um massacre, o que seria muito mais grave ainda. Penso que ainda estamos a tempo de prevenir e evitar que uma coisa dessas aconteça”, concluiu Maurílio Luyele.

O presidente do MPLA, João Lourenço, mostrou mais uma vez o que pretende e que, como Folha 8 tem reiteradamente escrito, se resume à máxima “O MPLA é Angola e Angola é do MPLA”. Quem não estiver de acordo tem liberdade para escolher entre levar um tiro na cabeça, ser preso e desaparecer ou entrar voluntariamente amarrado na cadeia alimentar dos jacarés.

O nosso monarca exclui, deliberadamente, uma ampla discussão nacional com todas as forças políticas, viola-se a Constituição e desrespeitam-se as leis, num autêntico desvario político de vaidades umbilicais, face ao monopólio de um actor e partido político, que não são virgens inocentes, pois são responsáveis por toda a desgraça que atinge a maioria dos autóctones pobres.

Folha 8 com Lusa