Angola celebra hoje o seu 45.º aniversário como país independente, tal como celebra 45 anos de governação exclusiva do MPLA, com manifestações não autorizadas e a inauguração de um hotel nacionalizado em Luanda. Como paradigma, eis uma espécie de país que sendo rico não gerou riquezas mas apenas ricos que, ao seu lado, têm 20 milhões de pobres. Parabéns MPLA.

Em termos de cerimónias oficiais, condicionadas devido à pandemia de Covid-19, os 45 anos da “Dipanda” e da gestão exclusiva do MPLA começam em Luanda com o içar da bandeira, no Museu Central das Forças Armadas Angolanas. Depois será a vez da deposição de uma coroa de flores no Memorial Dr. António Agostinho Neto, o primeiro presidente da República e único herói nacional, certamente por ter sido o genocida que mandou assassinar milhares e milhares de angolanos nos massacres de 27 de Maio de 1977.

O Presidente da República, João Lourenço, inaugura o Hotel Intercontinental, no Miramar, nacionalizado em Outubro por ter sido construído com recurso a fundos públicos (como tudo no país) e que pertence agora integralmente à Sonangol, a petrolífera estatal do MPLA que foi presidida por Manuel Vicente também ex-vice-presidente de Angola.

Enquanto isso, jovens activistas (aqueles que não têm, como quer o MPLA, o cérebro nos intestinos e a coluna vertebral amovível) vão dirigir-se para o Largo de Santa Ana, prometendo marchar até ao Largo 1.º de Maio (Largo da Independência), reivindicando melhores condições de vida e eleições autárquicas em 2021.

O Governo Provincial de Luanda, propriedade privada de Joana Lina, proibiu a marcha invocando incumprimento de horário, falta de moradas e as medidas vigentes na actual situação de calamidade pública, mas os organizadores desafiam a proibição que dizem não ter, e não têm mesmo, bases legais.

Noutras províncias chegam relatos do que é habitual, ou seja, detenções de activistas e coordenadores de protestos semelhantes e o ministro do Interior, Eugénio Laborinho, afirmou na segunda-feira, em Benguela, que as forças de segurança não vão permitir ajuntamentos com mais de cinco pessoas, em obediência ao decreto presidencial que actualizou a situação de calamidade pública e que, nesta matéria, viola o articulado da Constituição.

“Não garanto [que não haja confronto], desde que respeitem a lei… e também a segurança pública”, disse o ministro, sublinhando que, “pacificamente, as pessoas estão autorizadas, mas devem respeitar o decreto, ajuntamento com mais de cinco pessoas é violação”.

Em 24 de Outubro, uma manifestação convocada pelos mesmos organizadores foi violentamente reprimida pela polícia e terminou em Luanda com a detenção de cerca de uma centena de manifestantes, incluindo jornalistas, libertados uma semana depois.

Nos últimos dias, organizações não-governamentais nacionais e internacionais (caso da Amnistia Internacional) e partidos da oposição têm destacado o direito das pessoas a manifestarem-se, enquanto as autoridades e representantes do partido no poder há 45 anos (que apresentam a escritura da compara do país) falam de incitação à violência e à desordem e multiplicam apelos à paz social e ao patriotismo, explicando (com armas na mão) que patriotismo é respeitar a máxima: “O MPLA é Angola e Angola é do MPLA”.

O Presidente João Lourenço criticou na terça-feira quem está a tirar proveito político da actual situação mundial, “que não foi criada pela boa ou má actuação dos governos”, lembrando que as medidas adoptadas se destinam a salvar vidas. Afinal o que tem feito João Lourenço a não ser aproveitar politicamente a pandemia para justificar a incompetência governativa?

Já o Bureau Político do MPLA exortou os angolanos de primeira a participarem “de forma patriótica” (ou seja, curvados e com trela) nas actividades comemorativas dos 45 anos da independência do país.

O Presidente da República do MPLA (se fosse de Angola teria, necessariamente, outro comportamento), João Lourenço, qualificou no dia 23 de Maio de 2018, em Luanda, José Eduardo dos Santos, famigerado “escolhido de Deus” e “arquitecto da Paz”, como exímio diplomata, “que conduziu, com mestria e saber, o processo de reconhecimento, pela comunidade internacional, do Estado angolano, fundado a 11 de Novembro de 1975”.

João Lourenço discursava na 8ª Reunião de Embaixadores de Angola no Exterior, que pretendia alicerçar uma diplomacia mais eficiente e virada para a promoção da boa imagem do país, para a captação do investimento privado estrangeiro e para a sua eleição como destino turístico.

Nesse discurso, o Chefe do Estado do MPLA enalteceu, também, o seu antecessor, em toda a sua acção, “que permitiu à Nação angolana sobreviver perante a hostilidade do regime do apartheid e dos seus aliados e afirmar-se como Nação solidária com os povos oprimidos da África austral e do resto do Mundo”.

“Quero, por isso, realçar o facto de que, ao longo de toda a nossa história, ter sido crucial o papel desempenhado por exímios diplomatas angolanos, dentre os quais quero destacar a figura do Presidente José Eduardo dos Santos”, disse o Presidente João Lourenço, 41 anos depois do ingresso de Angola na ONU.

E nestes três anos já é possível, e justo, dizer que:

– Foi graças a João Lourenço que Portugal adoptou a democracia, que a escravatura foi abolida, que D. Afonso Henriques escorraçou os mouros, que Barack Obama foi eleito e que os rios passaram a correr para o mar;

– O divino carisma de João Lourenço já o tornou o mais popular político mundial, pelo menos desde que Diogo Cão por cá andou. Tão popular que bate aos pontos Nelson Mandela e Martin Luther King.

Também concordamos que, em alternativa e em função do que já fez nos últimos três anos, João Lourenço merece um Prémio Nobel que distinga quem é o principal responsável por Angola ser – entre muitas outras realidades – um dos países mais corruptos do mundo, por ser um dos países com piores práticas democráticas, por ser um país com abismais assimetrias sociais, por ser o país com um dos maiores índices de mortalidade infantil do mundo.

Por onde andou nas últimas décadas o general João Lourenço? Claro. Claro. Só cá chegou em… 2017.

Segundo os nossos dados, nunca é por de mais dizê-lo, existem dois cidadãos com o mesmo nome: João Manuel Gonçalves Lourenço. Um sempre foi um homem do sistema, do regime. 1984 – 1987: 1º Secretário do Comité Provincial do MPLA e Governador Provincial do Moxico; 1987 – 1990: 1º Secretário do Comité Provincial do MPLA e Governador Provincial de Benguela; 1984 – 1992: Deputado na Assembleia do Povo; 1990 – 1992: Chefe da Direcção Politica Nacional das FAPLA; 1992 – 1997: Secretário da Informação do MPLA; 1993 – 1998: Presidente do Grupo Parlamentar do MPLA; 1998 – 2003: Secretário-geral do MPLA; 1998 – 2003: Presidente da Comissão Constitucional; Membro da Comissão Permanente; Presidente da Bancada Parlamentar; 2003 – 2014: 1º Vice-presidente da Assembleia Nacional.

O outro é o actual Presidente do MPLA, Titular do Poder Executivo e Presidente da República, que chegou a Angola há pouco mais de três anos com a nobre, emblemática e divina missão de nos levar (nunca é por de mais dizê-lo) para o paraíso.

Folha 8 com Lusa