O Presidente da República de Angola, João Lourenço, no uso das suas prerrogativas constitucionais e por (suposta) conveniência de serviço, num passado muito recente nomeou por decreto várias individualidades, dentre eles, um Director do Gabinete de Acção Psicológica e Informação da Casa de Segurança do Presidente da República. Aliás este Gabinete não é novo.

Por João Kanda Bernardo
Embaixador da Paz

O Presidente João Lourenço tem manifestado um grande esforço para ser visto como um inovador. Isso é bom, apesar das suas iniciativas não produzirem resultados frutíferos notáveis aos olhos dum indivíduo lúcido.

Em política é fatal falar de acção psicológica em algumas circunstâncias, pois o seu conceito e a sua interpretação pode-se relacionar equivocadamente com as práticas da história da ditadura militar.

Por isso é muito importante que o Governo de Angola esclareça as tarefas fundamentais do Director do Gabinete de Acção Psicológica da Casa de Segurança do Presidente da República.

Na ditadura militar a acção psicológica é feita em forma de uma tortura mental que deixa marcas emocionais que podem durar a vida inteira. Porém, esta tortura tem como objectivos específicos provocar o medo, ameaças e perseguições que geram um duplo efeito: fazer a vítima calar ou delatar conhecidos.

Na guerra subversiva, a acção psicológica destina-se a influenciar as atitudes e o comportamento dos indivíduos. Ela é utilizada para obter o apoio da população, desmoralizar e captar o adversário e fortalecer o moral das próprias forças, assumindo três aspectos diferentes, embora relacionados: acção psicológica, acção social, acção de presença. Ela também facilita o Governo a simular o papel da oposição no próprio país.

Não é admissível que depois de 18 anos do calar das armas em Angola, ainda haja angolanos vítimas de perseguições por parte daquele(s) que devia(m) garantir a protecção da integridade física e psicológica de todos os cidadãos.

Hoje o país regista vários conflitos de carácter social e político que infelizmente em algumas circunstâncias acabam por causar a fuga de vários compatriotas para o exterior do país, enquanto estes estariam ali presentes para contribuírem com as suas experiências em distintos sectores para o desenvolvimento sustentável do país.

Pode este fenómeno ser um resultado das acções deste gabinete de acção psicológica do Presidente João Lourenço?

Se sim, então podemos afirmar que estamos diante duma ditadura militar ou duma guerra subversiva?

Entende-se que muitas dificuldades que o país está a atravessar hoje são consequências de uma governação (de 1975 a 2017), dotada de várias decisões unilaterais, que ignoravam as opiniões da oposição e de outros actores da sociedade civil angolana, onde o próprio Presidente João Lourenço exerceu várias funções de destaque.

Porém, é chegado o momento em que o actual chefe de Estado angolano devia focalizar-se mais no processo de reconciliação nacional, de modo a congregar todos os angolanos independentemente das suas cores partidárias, religião, orientação sexual, classe social e etc., ao invés de priorizar as práticas que podem dificultar os angolanos a edificarem uma nação em conjunto.

Finalmente, não podemos afirmar que o país está reconciliado, quando até o antigo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, não consegue regressar ao país, por razões de intrigas. Engana-se quem pensa que Dos Santos encontra-se no exterior apenas por razões de saúde, e espero que ele não esteja a ser um vítima deste gabinete de acção psicológica cuja agenda é desconhecida.

O Presidente João Lourenço devia reunir condições para que o seu antecessor venha a regressar ao país depois da crise da Covid-19, assim como todos outros cidadãos que se sentem injustamente ameaçados pelo seu Governo. E enquanto esperamos pelo este momento, há necessidade de se justificar formalmente a ausência do camarada Dos Santos do país, porque os angolanos olham-no como um antigo Presidente da República com ainda algumas responsabilidades, como reza a Constituição de Angola e muito menos interessa a sua vida pessoal.

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