Angola vai contar com médicos cubanos de várias especialidades para “mitigar o impacto da epidemia” da Covid-19, anunciou a ministra angolana da Saúde, Sílvia Lutucuta, referindo que Luanda tem estado a desenvolver contactos diplomáticos com vários países afectados pela pandemia.

“N o âmbito da cooperação internacional, o Governo está a fazer um trabalho diplomático muito grande com outros países já afectados”, disse Sílvia Lutucuta, adiantando que têm sido realizadas videoconferências com a China, “com profissionais que trabalharam e estão a trabalhar” no combate à pandemia, com o Brasil e outros países “mais ou menos afectados”.

Com Cuba, a interacção vai ser mais directa e Angola já está a trabalhar com as missões diplomáticas cubanas nesse sentido.

“Vamos mandar vir médicos cubanos das especialidades mais importantes”, incluindo cuidados intensivos e pneumologia, saúde pública, virologia e infecciologia, referiu a ministra, adiantando que o objectivo é que possam dar apoio a Angola e mitigar o impacto “na parte assistencial, na área de saúde pública mais preventiva e na busca activa e controlo da epidemia”, declarou.

Sílvia Lutucuta frisou que estão a ser mobilizados vários sectores para implementar as medidas que considerou “de salvação da pátria”. “Além da saúde, temos os militares e a polícia, estamos a trabalhar com o sector privado e as instituições com fins não lucrativos e igrejas”, realçou a governante.

Angola anunciou esta segunda-feira um novo caso confirmado de infecção pelo novo coronavírus, elevando para três o número de doentes. Todos os casos são relativos a passageiros angolanos que chegaram na semana passada em voos provenientes de Portugal.

O continente africano registou mais de 50 mortes devido ao novo coronavírus, ultrapassando os 1.700 casos em 45 países e territórios, segundo as estatísticas mais recentes sobre a pandemia da Covid-19.

Centenas de médicos e enfermeiros cubanos já participam “in loco” dno combate ao coronavírus em vários países da América Latina e também na Itália. No domingo, 53 deles chegaram à Lombardia, epicentro da Covid-19 na Europa, para prestar ajuda de emergência à sobrecarga do sistema de saúde nessa região do norte da Itália.

Cuba informou que o seu pessoal está treinado no enfrentamento de outras epidemias – como a do Ébola, em África – e já colaborou em diversos países, inclusive no Brasil. Segundo Giulio Gallera, assessor de Saúde e Bem-Estar da região da Lombardia, num primeiro momento eles trabalharão no hospital de Crema (sul da Lombardia) e serão enviados para o novo hospital de campanha a ser construído em Bergamo, a zona mais afectada pelo novo coronavírus na região, onde os mortos são contados às centenas e há milhares de contagiados.

É a primeira vez que Cuba presta ajuda desse tipo a um país desenvolvido como a Itália, embora a presença de médicos cubanos na América Latina e países do terceiro mundo seja habitual. As autoridades cubanas indicaram que actualmente as suas brigadas médicas estão a actuar também no Suriname, Venezuela e Nicarágua, e que ao todo 31 países recebem actualmente diferentes tipos de colaboração sanitária cubana para enfrentar o coronavírus.

“Até este minuto, nenhum colaborador da saúde se reporta como doente de coronavírus nas nossas brigadas médicas no exterior”, afirmou o director da Unidade Central de Colaboração Médica do Ministério da Saúde Pública de Cuba, o médico Jorge Juan Delgado Bustillo. Segundo ele, há na ilha “um sentimento nacional de querer cooperar”. “Recebemos mensagens de pessoas voluntárias dispostas a partir para qualquer lugar para ajudar diante desta situação global de saúde”, acrescentou.

Cuba mantém presença médica em mais de 60 países. Em 2019, o pessoal sanitário cubano no exterior superava 28.000, sendo quase metade na Venezuela. Esta política internacionalista foi, desde o triunfo da Revolução Cubana, em 1959, uma das bandeiras do Governo de Fidel Castro, além de se tornar nas últimas duas décadas uma importante fonte de rendimentos, pois muitos convénios de cooperação, implementados através de organismos internacionais como a OMS e a OPAS, trazem uma notável arrecadação para os cofres públicos, sem falar do prestígio.

O envio de brigadas médicas para colaborar no enfrentamento ao coronavírus ocorre num momentos em que a ilha se prepara para fechar suas fronteiras ao turismo, a partir desta terça-feira, e quando Cuba já notificou 35 casos confirmados da doença —10 a mais do que no sábado passado. Mais de 900 pessoas estão isoladas em centros sanitários por sintomas suspeitos, enquanto 30.000 estão sujeitas a vigilância médica em seus domicílios. Até o momento, um turista italiano morreu em Cuba por causa da Covid-19, duas pessoas se encontram em estado crítico e outra está em estado grave.

As autoridades decretaram na sexta-feira o fecho do país ao turismo, anunciando que a partir de hoje só residentes poderão entrar na ilha, desde que se submetam a um confinamento preventivo de 15 dias num centro assistencial, mesmo na ausência de sintomas. Actualmente, cerca de 60.000 turistas – sendo quase 15.000 europeus – encontram-se em visita a Cuba e devem deixar o país nos próximos dias. As autoridades disseram que o espaço aéreo não será fechado, por isso as companhias aéreas que ainda mantêm os seus voos – como as espanholas Ibéria e Air Europa— poderão retirar os viajantes.

O Consulado da Espanha em Havana abriu no fim-de-semana para atender e informar os viajantes e está a recomendar aos que ainda se encontram na ilha que retornem o quanto antes, embora Havana não tenha determinado um prazo para que deixem o país. Um critério semelhante foi adoptado por outros consulados europeus, enquanto com os passageiros da América Latina a situação é muito mais complexa, pois muitas companhias aéreas da região suspenderam os voos, e os turistas estão com dificuldades para regressar.

Folha 8 com El País