Apicultores angolanos denunciaram que a exploração ilegal de madeira, em algumas províncias do país, e as queimadas estão a causar o extermínio de abelhas e a provocar escassez de mel. Se, ao menos, exterminassem os marimbondos…

O Ministério da Agricultura e Pescas nega, no entanto, que a falta de mel esteja relacionada com o abate indiscriminado de espécies melíferas, atribuindo o factor a outros fenómenos, entre os quais a seca. A seca é, na verdade, um sério problema. Sobretudo quando se associa, como é o caso, à seca de competência dos governantes.

Em declarações à Lusa, o presidente da Associação dos Apicultores de Angola, Frederico Maurício, confirmou denúncias divulgadas através das redes sociais e que dão conta da escassez de mel na província do Moxico, onde, mesmo depois da proibição do corte de árvores para a exploração de madeira, cidadãos chineses (provavelmente afectos à produção de marimbondos) continuaram a sua actividade de forma ilegal, usando insecticidas para matar as abelhas.

Frederico Maurício referiu que, no ano passado, foi criada uma comissão que se deslocou ao Moxico para apurar a situação junto do governo daquela província e foram tomadas algumas medidas, estando a associação a fazer o seguimento da questão.

“Constatámos que esta informação era verdade, o abate indiscriminado de espécies melíferas, uma delas a mussivi, que era a mesma espécie que concorria entre apicultores e madeireiros, e como as abelhas durante o conflito atacavam os chineses, eles usavam insecticidas para matar tudo”, disse.

Em 2017 cada metro cúbico de madeira mussivi angolana era vendido a quase 200.000 kwanzas (635 euros). Angola possui uma superfície florestal avaliada em 69,3 milhões de hectares, o que representa 55,6% da sua superfície territorial, bem como reservas de madeira comercial estimadas em 4,5 mil milhões de metros cúbicos.

Frederico Maurício confirmou as denúncias recebidas em 2019, mas frisou que ainda não conseguiu confirmar as deste ano, devido às restrições de circulação impostas pelo Governo por causa da pandemia de Covid-19, pelo que ainda não foi possível verificar “se a situação está a prevalecer este ano ou não”.

“Havia provas desse tipo de extermínio maciço de abelhas. Este ano, estamos com a situação da pandemia, ninguém vai e ninguém vem, temos a informação de que a situação tende a melhorar em algumas zonas”, disse o líder associativo.

Segundo o presidente da Associação dos Apicultores de Angola, depois das denúncias do ano passado, as autoridades tomaram medidas, entre as quais a diminuição do número de licenças de exploração de madeira na região.

O director-geral do Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF), Simão Zau, considera, no entanto, que associar a escassez de mel ao abate de árvores não tem fundamento.

Segundo Simão Zau, ao tomarem conhecimento dos relatos, uma equipa de técnicos deslocou-se ao Moxico e trabalhou em colaboração com as autoridades locais para apurar as causa da baixa da produção de mel, sublinhando que as próprias cooperativas apícolas desmentiram as denúncias.

“O que nos dizem é o contrário, a escassez de mel não tem nada a ver com o derrube de madeira pelos chineses, não estamos a emitir licenças para cortar a mussivi e, mesmo que haja actividade ilegal, não é assim tanta”, disse o responsável.

Na denúncia, alegou-se que os chineses estão a utilizar um insecticida para exterminar as abelhas, justificação que para Simão Zau não colhe, porque basta cortar a árvore para as abelhas fugirem.

“Do ponto de vista técnico, essa explicação não tem qualquer fundamento e do ponto de vista prático seria necessário haver milhares de chineses” para desequilibrar a situação da fauna, das abelhas, a ponto de a produção de mel baixar, salientou.

“Pela informação que temos não são muitos chineses, pode haver um, dois ou três garimpeiros, sem licença, e se são garimpeiros é com consentimento [da comunidade]”, admitiu, referindo que o ministério continua a “aprofundar” o trabalho para esclarecer melhor a situação.

Para o director-geral do IDF o que está a acontecer é consequência da seca que afectou a província.

“Quando há estiagem toda e qualquer planta encontra um mecanismo de defesa, ela reduz a sua actividade fisiológica e ao reduzir as folhas, a floração diminui e a floração é fundamental para a produção de mel”, argumentou.

Segundo Simão Zau, a redução de floração e, consequentemente da quantidade de néctar disponível para as abelhas, é um dos factores, ao qual se somam as queimadas, “que a gente sabe que todos os anos há”.

O responsável lembrou que todo o mel de Angola, exceptuando no planalto central, que é produzido a partir do eucalipto, é multifloral, ou seja, é de flores de diversas espécies.

“Os nossos técnicos, o que dizem é que isto não é a primeira vez que acontece, mesmo naqueles anos em que não havia chineses, sempre que há estiagem acontece isso, a redução da actividade fisiológica das plantas e consequentemente a floração diminui e a produção baixa”, frisou.

Situação semelhante ao que acontece na província do Moxico, foi denunciada por Tiago José, apicultor, produtor de colmeias, de fumigadores e de fatos apícolas, na província do Huambo.

De acordo com Tiago José, no município de Cachiungo são abatidas quantidades de madeira, nomeadamente o pinho, utilizado na produção de colmeias, por cidadãos chineses, sem o repovoamento da flora.

“Eles já vêm fazendo este abate há algum tempo, pelo menos desde 2017 encontrei esta situação que afecta claramente a produção de mel”, disse Tiago José.

Por sua vez, o responsável da empresa Maxmel, localizada no município da Tchicala-Tcholoanga, província do Huambo, apontou as queimadas anárquicas como outra prática que tem influenciado a escassez de mel.

Max Vicente avançou que a empresa perdeu os apiários devido às queimadas feitas nas zonas rurais, uma prática que se verifica todos os anos nas comunidades rurais e afasta as abelhas para longe, prejudicando muito a produção de mel.

“Neste momento, estamos mesmo sem mel por causa das queimadas que foram acontecendo durante este período seco, de Maio a Setembro”, referiu o responsável.

Sobre a desmatação no município de Cachiungo, Max Vicente disse tratar-se de uma realidade que acontece no país todo: “A gente a passar vê a desmatação por causa da exploração florestal. Não sabemos se esses chineses estão ou não legais, mas que eles fazem a exploração de madeira, isso está confirmado”.

Já o responsável do IDF admite que a escassez de mel no Moxico pode também ter a ver com a compra do produto, por intermediários, para venda nas províncias do Huambo e do Bié.

“Registamos na nossa estatística, que o mel atribuído ao Huambo e Bié aumentou consideravelmente, muitos intermediários terão ido comprar ao Moxico”, disse Simão Zau.

“Na realidade, já constatamos no relatório de balanço do ano passado, que o Huambo e o Bié apresentaram maior índice de produção de mel, mas na prática não é isso, o mel que apareceu lá é proveniente do Moxico, pode ser por isso também que há carência de mel”, acrescentou.

Em 2019, Angola registou uma produção de mel acima das 100 toneladas, controladas pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal, nas províncias do Moxico, Lunda Norte e Lunda Sul, Cuando Cubango, Huambo, Bié, Malanje, Huíla e Benguela. Em Julho de 2020 o Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF) no Huambo previa, este ano, o aumento dos níveis de produção do mel, de 500 toneladas, para mais de 600, tendo em conta os investimentos feitos nesta área. A informação foi avançada pelo chefe dos serviços técnicos e fiscalização desta instituição, Amilton Caetano, que realçou a entrega de kits completos de apicultura às cooperativas e associações, assim como o facto de não ter havido estiagem no presente ano, como a base para o aumento dos níveis de produção.

Folha 8 com Lusa