O belíssimo poema “Meninos do Huambo”, não é mais nada do que isso mesmo. Um belíssimo poema, infelizmente sem utilidade prática qualquer, uma mera utopia. Não que eu seja contra a poesia, muito pelo contrário, sempre que eu leio o “Testamento” de Alda Lara vêm-me lágrimas aos olhos.

Por Carlos Pinho
Professor da FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

Mas de facto olhando para esta foto, que mão amiga me fez chegar via Whatsapp, também me vêm lágrimas aos olhos, agora não de comoção, como na leitura do poema da Alda Lara, mas de raiva.

Vejo naqueles olhos além da inocência das crianças, a alegria nalguns e a tristeza noutros. Mas vejo principalmente, para lá dos olhares dos meninos, uma realidade que fere a nossa alma.

Estamos a falar de um país onde se fazem festas de casamento sumptuosas, de milhões de euros. Que dão azo a vídeos e comentários nas redes sociais, mas que, do que me apercebo, nunca beliscam a vaidade fátua de quem as promove.

Vejo um governo preocupado em limitar as propinas de escolas privadas a um aumento anual de 13%. Escolas estas, dos vários graus de ensino, que se destinam aos filhos dos privilegiados que as podem pagar. Se são privadas o governo não deverá ter nada a ver com as suas propinas. É um problema entre os encarregados de educação dessas crianças, desses adolescentes ou desses jovens adultos, e os gestores ou directores de tais instituições privadas.

Vejo um governo de facto preocupado com esses sectores privilegiados da sociedade angolana, mas não vejo um governo preocupado com as classes social e economicamente desfavorecidas do país. Estas últimas, sim, é que precisam e exigem o envolvimento do governo. Se o governo de Angola estivesse efectivamente interessado em promover e valorizar o ensino público, aquele ensino que permitiria uma promoção social e económica equitativa, estava-se nas tintas para as propinas dos privados e preocupava-se com que fotos destas nunca pudessem ser tiradas em Angola. Não por que fosse necessário proibir a disseminação de imagens como esta, mas porque não haveriam situações destas para relatar. Então não existiriam estas as fotos chocantes.

Mas a realidade é outra, e para lá do folclore luandense, das feiras de vaidades e exibicionismos parolos, há uma muito grande massa de angolanos que vivem na tal sanita do esquecimento, que referi numa crónica anterior.

É uma dor de alma olhar para esta foto (captada no Catchiungo, município da província do Huambo) e constatar a insensibilidade dos governantes do país, que não parecem ver que Angola está à beira de uma explosão social de consequências devastadoras.

Muitas das instituições privadas de ensino têm professores com salários indexados ao dólar ou ao euro, daí a necessidade de se aumentarem anualmente as propinas. É o custo do ensino de qualidade, pois com a alegre destruição do ensino público em Angola, quem quer qualidade tem de abrir os cordões à bolsa. A imposição de tectos nas propinas irá expulsar os professores estrangeiros de Angola. Tal pode, à primeira vista, parecer uma boa ideia, mas de facto o resultado será perverso. Em vez de uns quantos professores estrangeiros a ganharem altos salários em Angola, passarão a existir muitos filhos desses angolanos financeiramente bem abonados a estudar fora do país, com especial realce para Portugal. Ou seja, sairão de Angola muito mais divisas. No cômputo final, desconfio que Angola sairá a perder. E, por exemplo, Portugal, irá receber muito mais divisas vindas de Angola.

É evidente que, do ponto de vista dos professores angolanos, preteridos a favor desses professores estrangeiros principescamente pagos, a limitação das propinas dos privados e a ida embora dos professores estrangeiros, poderá parecer ser uma vantagem. Mas se os pais angolanos melhor abonados, mandarem os seus filhos estudar para o estrangeiro, e eu conheço alguns casos desses, desconfio que o saldo final será negativo para toda a gente em Angola.

Os professores estrangeiros, principescamente pagos, na óptica dos professores angolanos, não são culpados pela má formação profissional que os professores angolanos têm, a culpa é de quem governa Angola há mais de quatro décadas. O convívio dos professores angolanos com estrangeiros que seguiram formações mais exigentes, extensas e diversificadas, devia beneficiar os angolanos. Por isso, o que faria sentido era o governo angolano impor às instituições privadas, com a devida ponderação, alguns procedimentos, a saber:

– Em primeiro lugar, essas escolas privadas deviam dar estágios de formação profissional aos professores angolanos, estágios esses supervisionados pelos tais professores estrangeiros, principescamente pagos;

– Em segundo lugar, essas escolas privadas deveriam oferecer um determinado número de inscrições gratuitas a alunos de famílias carenciadas, por outras palavras, bolsas de estudo;

– Finalmente, deviam ser estabelecidos programas de cooperação entre essas escolas privadas e escolas públicas similares e vizinhas.

O que teríamos aqui seria, em certa medida, uma forma de se estabelecerem laços entre os diversos sectores da sociedade angolana. Seria bom que os filhos das classes mais desfavorecidas conhecessem a realidade em que se inserem, a menos que a suposta elite angolana pretenda continuar a viver no limbo e em grandes festanças de elevado impacto mediático.

É lógico que a imposição das três medidas supracitadas, às instituições de ensino privadas angolanas, teria de ser feita com conta, peso e medida. Mas tenho a certeza de que seria mais profícua do que a mera imposição do já referido tecto anual de 13%.

Mas isso iria dar algum trabalho ao governo angolano e seus ministérios. E trabalhar cansa! E trabalhar bem, cansa ainda muito mais!

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