Isabel? Sim. E os outros?

O Luanda Leaks acrescenta dados novos a suspeitas antigas. Ficam claramente demonstradas as origens corruptas do império de Isabel dos Santos e a forma como acumulou riqueza do povo angolano para enriquecimento pessoal e muitos dos prejuízos que isso causou ao povo angolano, de que o triste episódio da Areia Branca, em Luanda, é talvez o exemplo mais violento.

Por João Paulo Batalha (*)

Mas esta investigação não arranca a máscara apenas a Isabel dos Santos. Estão aqui documentadas as amplas redes de cumplicidade e identificados os capatazes da corrupção que a ajudaram a montar o seu império de sangue em várias respeitáveis capitais europeias, com Lisboa à cabeça.

Esta não é uma história angolana, é uma história global de corrupção, de abuso e de violência praticada sobre um povo – o angolano – mas que beneficia toda uma elite política e económica em vários países, acobertada atrás de grandes escritórios de advogados, gestores, banqueiros e propagandistas de imagem.

Os lavadores de dinheiro, os lavadores de leis e os lavadores de reputação trabalharam arduamente, e de forma lucrativa ao longo de muitos anos, para manter a máquina de espoliação de Angola a funcionar.

O que se exige agora, que a verdade foi publicada, é que os respeitáveis países europeus – e Portugal antes de todos – confronte as suas responsabilidades políticas, judiciais e económicas neste esquema indecoroso. Estão em cheque não só os maiorais de Isabel dos Santos mas as autoridades políticas, regulatórias e judiciais de Portugal que têm contribuído para com o seu silêncio cúmplice, ou a sua colaboração activa, para este estado de coisas.

E espera-se que o justificado empenho do Estado angolano na perseguição desta corrupção estrutural se estenda também a outros actores do regime que têm feito negócios semelhantes com a cumplicidade ou cobertura do Estado – a começar por Manuel Vicente que, apanhado em circunstâncias idênticas, teve direito a uma defesa vigorosa por parte do Presidente João Lourenço.

(*) Presidente da Direcção da Transparência e Integridade

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3 Thoughts to “Isabel? Sim. E os outros?”

  1. Beto

    Bom texto mas…essa de “respeitáveis países europeus” dá lugar para muita controvérsia. Será q existem mesmo?! Talvez, mas só talvez, os escandinavos.

  2. carlos oliveira

    Portugal não é nem de perto nem de longe o responsável pelas alegadas diatribes de Isabel dos Santos. Os principais responsáveis são os angolanos que permitiram que o pai da dita senhora se tivesse mantido durante 38 anos no poder. Foram as Forças Armadas Angolanas, os seus generais, os seus ministros, os seus governadores que deram cobertura a José Eduardo dos Santos. Aliás, muita dessa gente serve agora João Lourenço, a quem concedem vénias. Se Isabel fez o que fez foi porque Angola isso permitiu. É certo que houve oposição, mas em vão, porque muitos opositores jogavam com um pau de dois bicos. Em Portugal ocorreu o mesmo no tempo do fascismo. O povo era imberbe. Conspirava na sombra mas sem efeito prático, até que surgiu o 25 de Abril, pacífico, mas que poderia ter sido violento. Portugal não deixa de ser responsável pelo colonialismo. Angola não deixa de ser responsável pela má gestão do seu património e pela manutenção de ditadores no poder.

  3. carlos oliveira

    Ah!!! Esqueci no meu comentário referir os culpados pelo forrobodó do clã dos Santos. Os insuspeitos magistrados judiciais e do Ministério Público. Então, não se sabia já destes factos em Angola? Claro que sabia. E alguma dessas excelências fez alguma coisa ? Nada. Lembram-se do discurso do meritíssimo Rui Ferreira aquando da tomada de posse de João Lourenço? Elogios e só elogios a Jes. Como magistrados poderiam dar noticia de crimes, instaurar procedimentos penais e levar os casos suspeitos à barra dos tribunais. Pita Gros era vice-procurador da república. Accionou JES? Mandou investigar Isabel dos Santos? Não e não. Só agora piam porque o velho JES saiu. Quando lá estava também se sentaram à mesa do repasto.

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