O nome da empresária angolana Isabel dos Santos foi retirado da lista de convidados do Fórum Económico Mundial de Davos, que arranca esta terça-feira na Suíça. Encontro vai juntar cerca de 50 chefes de Estado e 2.800 participantes. Em Janeiro de 2018 os ministros auxiliares do Titular do Poder Executivo de Angola, João Lourenço, viajaram para Davos, em avião privado, com o módico custo diário de 80 mil dólares…

Quando o Presidente João Lourenço marcou presença no Fórum Económico Mundial (WEF) na cidade suíça de Davos, disse ao mundo que os ventos de mudança estavam a soprar em Angola. E disse-o mais ou menos com a mesma convicção com que, mais recentemente, afirmou que não havia fome em Angola.

A sua mensagem aos investidores foi clara: As perspectivas económicas pareciam desanimadoras, mas o Presidente foi peremptório ao prometer (sem efeitos práticos até agora) que o péssimo registo de corrupção em Angola, a dependência excessiva do petróleo e a má gestão dos fundos públicos acabara.

Enquanto esteve em Davos, João Lourenço repetiu a mesma receita junto das principais partes interessadas, incluindo Christine Lagarde – então directora geral do Fundo Monetário Internacional (FMI); o primeiro ministro de Portugal, António Costa; e Sergey Ivanov – o director executivo da mineradora de diamantes da Rússia, Alrosa.

Embora João Lourenço aposte forte em medidas de diversão, exonerações e programas para tudo e mais alguma coisa, a verdade é que o cepticismo dos que não são pagos pelo MPLA está a crescer. O África Confidential escreveu até que “a sua lua-de-mel estava a chegar ao fim à medida que o foco público se deslocava para a economia”.

O professor de Economia, Justino Pinto de Andrade, da Universidade Católica de Angola, disse ao The África Report que duvidava que a cultura do patrocínio tenha mudado, já que João Lourenço “se envolveu com as mesmas pessoas que dos Santos”. Até mesmo Marcolino Moco, que João Lourenço nomeou para o cargo honorífico e decorativo de director não executivo da estatal Sonangol, em Setembro de 2018, também ganhou espaço mediático quando, em entrevista à Jeune Afrique, em Paris, ameaçou renunciar-se se Lourenço não cumprisse suas promessas. João Lourenço está a simular que cumpre e Moco não se demitiu.

A operadora de telecomunicações Unitel, liderada por Isabel dos Santos, tornou-se na primeira empresa angolana a integrar a lista de Parceiros do Fórum Económico Mundial (WEF, sigla em inglês), anunciou em Março de 2019 esta instituição que fomenta o desenvolvimento económico.

“A parceria vai permitir à Unitel apoiar a missão do Fórum em África, envolver-se activamente nos projectos e estar representada no Encontro Anual de Davos, em 2020, no Encontro Anual dos Novos Campeões, na China, bem como nas cimeiras regionais em África e no Médio Oriente”, lê-se num comunicado distribuído no dia 13 de Março de 2019, em Genebra.

Na nota, o WEF apresenta a Unitel International Holding como “uma companhia telefónica pan-africana, operando uma rede baseada nos padrões GSM e UMTS, oferece comunicações de voz, texto e mensagens multimédia, bem como acesso à internet no telemóvel, e cobre todas as cidades de Angola desde 2011, tendo ainda investido recentemente noutros países africanos”.

A Unitel conta como accionistas com as empresas PT Ventures (detida pela operadora brasileira Oi), Mercury (através da MS Telecom, participada da Sonangol), Vidatel e Geni, todas com igual participação accionista de 25%.

Isabel dos Santos, através da participação que tem na Vidatel, é a presidente do conselho de administração da operadora.

Para o WEF, a Unitel é também “uma empresa africana que vê o potencial futuro do continente africano”.

Todos os anos, a direcção do Fórum escolhe um número limitado de parceiros, que incluem empresas como o Grupo Alibaba, Boston Consulting Group, a fundação Bill & Melinda Gates, Facebook, Google, Coca-Cola, Bloomberg e o Grupo Dangote, a única outra empresa africana.

“Este é um grande acontecimento para nós; a equipa de gestão está muito orgulhosa por fazer parte desta selecta parceria e desta rede de líderes empresariais impressionante; temos um caminho muito claro e excitante de crescimento e ansiamos por intervir no próximo Fórum, em Davos”, afirmou Isabel dos Santos, citada no comunicado.

Angola, conclui o WEF, “tornou-se um dos mais interessantes países para fazer negócios na África subsaariana; começou um processo de reconstrução do país e crescimento económico sem paralelo, principalmente alicerçado na vasta riqueza em recursos naturais com uma concentração de petróleo, diamantes, minerais, madeira e outros recursos naturais”.

O WEF foi criado em 1971, como uma fundação não lucrativa e tem a sede em Genebra, na Suíça. Funcionando em estreita colaboração com outras instituições de desenvolvimento, como o Fundo Monetário Internacional, o WEF assume-se como uma entidade independente, imparcial e sem ligação a interesses especiais.

Sempre na linha da frente, uns mais outros menos

Os ministros auxiliares do Titular do Poder Executivo de Angola, João Lourenço, viajaram em Janeiro de 2018 para Davos, Suíça, em avião privado, num custo milionário de 80 mil dólares/dia, quando aqueles a quem vão pedir dinheiro o fizeram em avião de carreira e alguns em classe económica. Manuel Vicente integrava a comitiva.

A localidade suíça é, como habitualmente, a capital mundial ao concentrar presidentes da República das maiores potências mundiais e em desenvolvimento, políticos renomados, empresários, académicos e jornalistas, mas também, muita oposição, que se bate contra as políticas economicistas que visam maior desemprego, pobreza e discriminação, entre os cidadãos de vários pontos do globo.

A presença de tão ilustres personalidades é por convite do Fórum Económico Mundial, ou WEF, organização sem fins lucrativos baseada em Genebra, onde realiza reuniões em Davos, para discutir as questões mais urgentes enfrentadas mundialmente, incluindo saúde e meio-ambiente.

Foi dentro deste quadro que coube o convite à Presidência da República de Angola que, desta forma, surgiu como uma plataforma para o novo inquilino da Cidade Alta, poder desfilar e dialogar com figuras internacionais desde a política à economia.

Os encontros com o primeiro-ministro de Portugal, António Costa, e com a Cristiane Lagard, então directora do FMI, serviram para esbater alguns escolhos, com essas personalidades, principalmente a então chefe do Fundo Monetário Internacional, a quem João Lourenço afirmou fazer tudo para implantar um programa de estabilidade económica.

Entretanto, em Angola, o governo encarnado na figura unipessoal de João Lourenço, enquanto Titular do Poder Executivo, parecia ter um verbo diferente da prática quotidiana, quanto aos gastos feitos pela sua equipa, em plena crise económica, fruto da crónica e até mesmo criminosa má gestão do MPLA.

E se dúvidas houvessem, é francamente desolador saber que a equipa ministerial de Angola tenha viajado, não em avião de carreira, onde os custos seriam menores mas em avião privado, com um custo diário astronómico.

Não é um luxo excessivo que a equipa de avanço tenha fretado um avião, quando esses mesmo arautos mandam o povo apertar o cinto, alegando não haver dinheiro nos cofres, para se aumentar o número de carteiras, salas de aulas e mais escolas, para impedir que mais de 20 mil crianças fiquem fora do sistema de ensino primário?

Partilhe este artigo