A consultora Oxford Economics estima que a inflação em Angola deverá continuar a subir este ano e que o kwanza vai continuar a desvalorizar-se, caindo mais de 50% face ao dólar este ano. Estamos no bom caminho, dirá com certeza a mais brilhante equipa económica do Governo. A certidão de óbito será assinada mais tarde…

“P rincipalmente devido à queda dos preços do petróleo de Angola este ano, quase 70% até final de Maio, e à liberalização cambial, o kwanza perdeu cerca de 20% do seu valor desde o princípio do ano; passou ligeiramente a barreira dos 600 kwanzas por dólar em Junho, mas recuperou devido à subida dos preços do petróleo nas últimas semanas, mas ainda assim a moeda local continua vulnerável a mudanças no sentimento global e deve depreciar-se por mais de 50% em 2020, quando comparado com o ano passado”, escreve o analista Gerrit van Rooyen.

Numa nota sobre a inflação em Angola, que atingiu em Junho o valor mais elevado desde Janeiro de 2018, a Oxford Economics antecipa que “a depreciação vai continuar a colocar uma pressão ascendente nos preços dos consumidores, devido à forte dependência dos bens importados”.

Para além disso, conclui o analista, “a implementação dos 14% de IVA, bem como o aumento dos preços das propinas universitárias, vai continuar a colocar pressão sobre a inflação”.

Os preços em Angola aumentaram 1,74% entre Maio e Junho, segundo um relatório mensal do Instituto Nacional de Estatística (INE) angolano, divulgado na segunda-feira, valor que coloca a inflação acumulada a 12 meses no valor mais alto desde Janeiro de 2018.

Segundo a Folha de Informação Rápida do Índice de Preços no Consumidor Nacional (IPCN), a variação nos últimos 12 meses – entre Julho de 2019 e Junho deste ano – situa-se nos 22,62%, o maior valor acumulado desde Janeiro de 2018, quando este indicador alcançou os 22,72%.

No início de maio, a consultora Oxford Economics anunciou que a economia de Angola vai ter um crescimento negativo de 2,8% este ano devido não só à pandemia, mas também à queda dos preços do petróleo desde Março.

Na terça-feira, o Parlamento angolano votou, na generalidade, a proposta do Orçamento Geral do Estado (OGE) 2020 revisto, estimado em 13,5 biliões de kwanzas (20,3 mil milhões de euros).

A proposta do OGE 2020 revisto prevê um défice de 4% aos 15 biliões de kwanzas (22,6 mil milhões de euros) da anterior proposta e com um preço médio do barril de petróleo de 33 dólares (30 euros).

A primeira versão tinha sido elaborada com base no preço médio do barril de petróleo de 55 dólares, uma produção média diária de um 1.436.900 barris e uma taxa de inflação de 25 por cento.

Devido à pandemia de Covid-19 verificou-se uma redução do preço do barril de petróleo, o que levou a que os Estados-membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus parceiros reduzissem a produção, de modo a equilibrarem o preço do barril de petróleo.

Por sua vez, o Standard Bank diz que as receitas do petróleo vão descer para menos de 50% do total da receita fiscal pela primeira vez devido aos preços das matérias-primas e ao impacto da pandemia de Covid-19.

“Os preços baixos do petróleo e o impacto da pandemia de Covid-19 baixaram a previsão de receita fiscal e pela primeira vez o Governo espera que o rácio das receitas petrolíferas face ao total caia para menos de metade (48,2%), face aos 60,7% de 2019 e aos 64,7% do orçamento original”, lê-se numa análise do departamento de estudos económicos do Standard Bank.

De acordo com o documento, “a despesa total deverá aumentar 17,9% face ao ano passado, mas ainda assim está 8,6% abaixo do previsto no orçamento inicial, com a despesa com salários públicos a representar 29,5% do total”.

O Standard Bank diz que “o Governo espera que a economia se contraia pelo quinto ano consecutivo, assumindo uma queda de 3,6% do Produto Interno Bruto face a uma expansão de 1,8% prevista anteriormente”, perspectivando que 2021 seja um novo ano de crescimento negativo, com uma recessão de 1,1%.

“O ajustamento nas estimativas nominais do PIB resultou, consequentemente, numa deterioração do rácio da dívida pública face ao PIB, que deverá aumentar para 123% este ano, face aos 113% de 2019 e aos 91% em 2018”, acrescenta-se no documento, que alerta para a pressão nesta área.

“O orçamento revisto coloca o serviço da dívida externa nos 4,5 mil milhões de dólares, quando era de 7 mil milhões inicialmente, o que parece incorporar, pelo menos parcialmente, o resultado da adesão à Iniciativa da Suspensão do Serviço da Dívida (DSSI) e as negociações sobre este tema com a China”, lê-se na nota assinada pelo economista Fáusio Mussa. Ainda assim, o rácio do serviço da dívida face às receitas deverá aumentar de 112,4% no orçamento inicial para 128,8%.

A degradação do cenário económico implica também um desequilíbrio orçamental, com o Governo a esperar agora um défice de 4%, que compara com a previsão de excedente de 1,2% do PIB. A balança de pagamentos também deverá oscilar para terreno negativo, descendo de 6,1% em 2019 para -4,2% este ano.

“A expectativa de défices gémeos é em larga parte atribuível ao panorama sombrio esperado no sector petrolífero, com o orçamento assumir um preço de 33 dólares por barril, que compara com os 55 dólares previstos anteriormente”, acrescenta-se no documento.

A proposta do Orçamento Geral do Estado 2020 revisto, apresentado pela equipa económica chefiada pelo ministro de Estado para a Coordenação Económica, Manuel Nunes Júnior, resulta do conjunto das medidas económicas apresentadas, em Abril passado, pelo Governo para fazer face à actual crise económica e financeira agravada pela pandemia provocada pelo novo coronavírus.

“Tendo em conta que um dos efeitos desta crise foi a redução drástica que se verificou no mercado internacional de petróleo, o preço baixou, de maneira considerável, e por conseguinte as receitas do país também baixaram de forma significativa”, disse o ministro.

Ao que parece, petróleo e Covid-19 conluiaram-se para tramar a honorabilidade governativa do MPLA e de João Lourenço. E o chato é (por maior que seja o esforço de algumas sucursais do regime, como a ERCA e a Fundação Agostinho Neto) que o Presidente não pode exonerar os preços baixos do petróleo nem o impacto do Coronavírus.

Folha 8 com Lusa