O administrador do município angolano de Cacuaco, Auxílio Jacob, anunciou hoje que mais 500.000 pessoas continuam a sair diariamente à rua naquela localidade do norte de Luanda, em “desobediência” ao estado de emergência devido à Covid-19, defendendo “medidas mais duras”. Entre morrer com Covid-19 ou à fome…

As autoridades não querem perceber que o Povo, ainda mais nesta fase, não consegue sequer ter peixe podre e fuba podre. Ameaçá-lo com porrada não resulta. E não resulta porque os autóctones que vivem nos musseques (e que, ao contrário do que pensam Auxílio Jacob ou João Lourenço, são angolanos) sabem que aos donos do reino não faltam trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba, caviar legítimo, salmão fumado, bifes de vaca, espargos brancos e uma selecção de queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas, bem como vinho Château-Grillet 2005…

Auxílio Jacob manifestou-se preocupado com o aglomerado de milhares de pessoas na via pública e defendeu medidas “mais duras”, como o “uso da força regulada” para a mudança de atitude, porque, comentou, “está difícil dialogar”.

“No casco urbano de Cacuaco, na zona do mercado do Sabadão, mercado do Kikolo, no mercado da Retranca nos Mulenvos estamos a ter por dia, na rua, mais de 500.000 pessoas juntas nesses espaços e já sentimos que está difícil de dialogar, por isso o Estado tem de exercer a sua autoridade”, afirmou.

Segundo o responsável, as autoridades locais já fizeram inclusive algumas detenções de pessoas, táxis e motorizadas por infracção, mas, frisou, “dá a impressão que há outras orientações invisíveis que estão a empurrar as pessoas para as ruas”.

Angola regista já duas mortes de pessoas infectadas pelo novo coronavírus, responsável pela doença Covid-19. Na segunda-feira, o secretário de Estado angolano para a Saúde Pública, Franco Mufinda, deu conta que entre os pacientes internados um está já em fase de cura.

O país vive desde sexta-feira o estado de emergência prorrogável, que se estende até 11 de Abril, com a interdição de pessoas e viaturas na via pública e horário específico para venda de bens alimentares, entre outras medidas.

No entanto, nas diversas províncias angolanas surgem relatos de actos de desobediência, sobretudo de cidadãos que insistem em sair à rua.

Forças de defesa e segurança estão na rua para o cumprimento das medidas descritas no decreto presidencial sobre o estado de emergência em Angola, que cumpre hoje o quinto dia.

Entretanto, o ministro da Comunicação Social, Nuno Caldas Albino “Carnaval”, afirmou, em Luanda, que o apoio dos fazedores de opinião é essencial para a sensibilização das populações sobre a prevenção do novo coronavírus (Covid-19).

Ao intervir numa reunião com jornalistas e fazedores de opinião, referiu que nessa fase a comunicação de proximidade, participativa e interactiva desses actores deve ser o factor preponderante para que juntos possam influenciar a sociedade.

Segundo o ministro, esse trabalho com os seguidores pode ser feito em particular nas redes sociais, sugerindo a transmissão de uma comunicação e uma informação uniforme, que assegure a melhor prevenção e sensibilização das populações.

Nuno Caldas “Carnaval” sublinhou que a comunicação deve estar alinhada, de modo a que chegue, de forma uniforme e padronizada, para as crianças, adolescentes, iletrados, intelectuais e, em particular, aos falantes das línguas nacionais.

Político pigmeu com estrelas de general/presidente

Em Maio de 2019, o Presidente da República, João Lourenço, procedeu à entrega simbólica de dois camiões cisterna (de 20 mil litros cada), feno para o gado e bens de primeira necessidade à população da comuna de Ombala Yo Mungo, município de Ombadja, província do Cunene.

Alguma vez terá o “nosso” Messias ouvido falar que mais importante do que dar peixes às pessoas que tem fome é ensiná-las a pescar?

O acto simbolizou, segundo contam as crónicas do regime, o ponto alto do segundo dia da visita de trabalho do Chefe de Estado à província do Cunene, cujo objectivo foi constatar a realidade da seca na região, uma das zonas mais afectadas, com cerca de 59.311 habitantes e mais de 100 mil cabeças de gado em sofrimento, dos 340 mil de todo o município.

Entre os bens entregues, constam também produtos de primeira necessidade como arroz, sal, açúcar, feijão, massa alimentar, salsichas, óleo vegetal e água mineral.

Na ocasião, João Lourenço recebeu informações detalhadas (se já não as sabia é porque anda a dormir) do então ministro da Agricultura e Florestas, Marco Nhunga, sobre os prejuízos causados pela seca, ao sector agrícola, bem como as soluções e necessidades urgentes para equilibrar a dieta alimentar da população.

O governante explicou que os meios entregues faziam parte de um lote destinado aos seis municípios do Cunene (Cunhama, Namacunde, Ombadja, Curoca, Cuvelai e Cahama), contemplando 51.043 toneladas de feno (pasto para o gado) , 32 toneladas de sal comum, 2.066 toneladas de sal mineral e 100 toneladas de grãos de milho.

Acrescentou, para que todos ficassem sossegados, que o lote integrava igualmente 33 toneladas de farelo de trigo, 10 kits técnicos, 100 litros de carricidas, material diverso e fármacos de uso veterinário, para o gado doente, entre bovino, suíno e caprino.

De Ombala Yo Mungo, João Lourenço rumou para a povoação de Oshaiwanda, onde constatou o sofrimento dos moradores da aldeia de “Okanakawa”. Chatice. Povo a sofrer? Mas será de fome (que João Lourenço diz não existir em Angola) ou apenas de ligeira má-nutrição (segundo a definição do Presidente)?

Nessa deslocação, o Presidente da República fez-se acompanhar pela primeira-dama, Ana Dias Lourenço, e por uma delegação ministerial. Quantos mais… melhor, pensa o Departamento de Informação e Propaganda do MPLA (ou do Governo, já que são a mesma coisa).

Mais do que o peixe, os milhões de angolanos famintos precisam de aprender a pescar. Mas quem é que os pode ensinar? Se calhar poderia ser o Estado. No nosso caso, o MPLA que é o Estado desde 1975. Mas este não o faz porque a mandioca, ou o farelo, como dizia Kundi Paihama, não se… pescam.

Durante décadas, o MPLA/Estado dizia que para algumas zonas de Angola só era possível mandar algum peixe, já que para ensinar a pescar era imprescindível a paz. Tendo esta chegado há 18 anos, porque será que o regime continua a não ensinar a pescar?

Poucos com milhões, milhões com pouco… ou nada

Em Angola, para além dos milhões que legitimamente só se preocupam em encontrar alguma coisa para matar… a fome, uma minoria privilegiada de acólitos do MPLA só se preocupa em ter mais e mais, custe o que custar.

Quando alguém diz ou escreve isto, e são cada vez menos a dizê-lo mas cada vez mais a pensá-lo, corre o sério risco de que os donos do poder o mandem calar, se possível definitivamente. Não nos esquecemos, apesar de teimarmos em dar voz a quem a não tem (a esmagadora maioria do Povo), que um dia destes um jacaré pode saltar da uma viatura da Polícia e fazer de nós um soberbo manjar, seja no Cacuaco ou em qualquer outro ponto.

Mas, como dizia a outro propósito mas com uma actualidade divina Frei João Domingos, “não nos podemos calar mesmo que nos custe a vida”. Que estamos quase a saber viver sem comer, isso é uma verdade que só deve regozijar o Presidente da República. Como dizia Zeca Afonso a propósito do regime de Salazar (em tantas coisas tão parecido com o nosso, às vezes para melhor), eles comem tudo e não deixam nada. E nada deixando, importa explicá-lo ao Presidente da República, nem os jacarés vão gostar de se alimentar de corpos esqueléticos, seja por causa da fome ou da Covid-19.

Também por cá (é que esta gangrena tende a espalhar-se) o Povo pergunta (baixinho ou em silêncio) como é possível acreditar num regime cujo objectivo único é fazer com que os poucos que têm milhões tenham mais milhões, roubando e escravizando os milhões que têm pouco ou nada, nem que para isso use o estado de emergência e ponha os tanques de guerra a circular junto aos musseques.

Citando de novo, e tantas vezes quantas forem preciso, Frei João Domingos, em Angola “muitos governantes, gestores, administradores e similares têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro”.

Na verdade, apesar de podres de ricos por dentro e por fora, continuam a viver à grande e à MPLA, enquanto o Povo se prepara para morrer de fome, ou por causa da Malária ou da Covid-19. O tempo em que o mais importante era resolver os problemas do povo (assim dizia Agostinho Neto), já lá vai, se é que alguma vez existiu. Com rara maestria, reconheça-se, João Lourenço continua a fazer da demagogia e do populismo a sua principal arma.

Tal como muitos dos ortodoxos do MPLA, que gravitam na bajulação ao “querido líder” (agora na versão II), o Presidente João Lourenço continua a pensar que Angola só pode ser o MPLA e que o MPLA é Angola. E como pensa assim, o que sobra dos abundantes regabofes do seu séquito partidário e governativo não vai para os escravos agora “acorrentados” nos musseques, mas sim para os rafeiros que gravitam sempre junto à manjedoura do poder.

É claro que o que sobra não vai para os pobres porque, apesar de eles estarem ao dobrar de todas as esquinas, oficialmente não há pobres em Angola. Aliás, como é que poderia haver fome se (ainda) existe fartura de farelo? Voltando a parafrasear o magnânimo Kundi Paihama, se os porcos comem farelo e não morrem, também o nosso Povo pode comer. É isso não é Auxílio Jacob, Nuno “Carnaval”, presidente João Lourenço?

Embora seja um exercício suicida, dos tais que alimentam os jacarés, importa aos vivos não se calarem, continuando a denunciar as injustiças, para que Angola possa novamente abolir o esclavagismo e, dessa forma, ser um dia um país diferente, eventualmente uma nação e quiçá até uma pátria de liberdade, equidade e progresso social.

O Povo sofre e passa fome. Os países valem, deveriam valer, pelas pessoas e não pelos mercados, pelas finanças, pela corrupção, pelo compadrio, pelas negociatas. É por tudo isto que a luta continua. Tem de continuar. Até porque, mais cedo ou mais tarde a estátua vai ser derrubada. Tal como foi, por exemplo, a de Lenine em Kiev (capital da Ucrânia).

Enquanto os escravos que agora querem prender nos musseques ser direito a comida, não se revoltarem, os donos do país vão continuar a vestir Hugo Boss ou Ermenegildo Zegna e comprar relógios de ouro Patek Phillipe e Rolex. E eles vão subsistir com peixe podre, fuba podre, panos ruins…

Tal como o seu patrono José Eduardo dos Santos, João Lourenço parece acreditar que, como dizia Guerra Junqueiro em relação aos portugueses, somos “um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas”. Mas não somos.

Talvez acredite que somos “um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta”. Mas não somos.

Talvez acredite, e se calhar com razão, que em Angola “uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos”.

Talvez acredite, e com razão, que em Angola existe “um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do Presidente e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País”.

Entretanto, alguns angolanos (ainda não tantos quanto o necessário) sabem que – adaptando a tese de Guerra Junqueiro – Angola tem “um MPLA sem ideias, sem planos, sem convicções, incapaz, vivendo do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogo nas palavras, idêntico nos actos, igual ao outro do tempo de partido único como duas metades do mesmo zero”.

E é por tudo isto que são cada vez mais os cidadãos que não conseguem, ou não querem, comer gato por lebre e dizem que neste regime há cada vez mais criminosos a viver à custa dos imbecis dos angolanos.

No entanto, mesmo esqueléticos, famintos e doentes sempre podem ter força para fazer o que é necessário, nem que seja a última coisa feita em vida.