Há dias li numa página da internet sobre Angola, que o senhor tenente-general angolano Leopoldino Fragoso do Nascimento, anteriormente mui digno Consultor do Ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, cargo do qual tinha sido exonerado por Decreto Presidencial (angolano) n.º 170/18, tinha solicitado e consequentemente recebido a nacionalidade portuguesa.

Por Carlos Pinho (*)

C ontinuando a citar a mesma página (Club K) constatei o que lá referiam, concretamente que “depois de cumprir com todos os requisitos legais, a conservatória dos registos centrais de Lisboa, emitiu aos 27 de Dezembro de 2018, o assento de nascimento (Nº 71527) que certifica “Dino” do Nascimento como cidadão português”. (Emitiu e não imitiu, como está na tal notícia)

E a referida página estende-se ainda por mais alguns comentários, referindo que outras figuras gradas do regime, vieram, tal como o supracitado “General Dino”, pedir arrego à antiga potência colonial, mormente, “o venerando juiz do Tribunal Constitucional, Rui Constantino Ferreira, o antigo ministro João Melo, o antigo PCA do Jornal de Angola, António José Ribeiro”. E mais não escreveram porque talvez não lhes fizesse jeito ir mais além. Mas a mim faz, nem que seja em considerações gerais.

Objectivamente não me interessa saber se este general e as outras eminências como aquelas igualmente citadas acima, têm avós minhotos, gaibéus ou marnotos. Isso é lá com eles, com os advogados que os assistem e com as repartições portuguesas que lhes dão os tão solicitados avais. É, contudo, muito interessante que pessoas importantes ou pseudo-importantes, sei lá eu, do regime vigente em Angola, se venham alegremente recolher à sombra da bandeira das quinas. Que aqueles que foram expulsos, não aceites, perseguidos ou rejeitados, o tenham feito, compreendo. Foi a única opção lógica de tantos angolanos enjeitados. Agora figuras do regime, que ao longo dos anos, a prática demonstrou cabalmente terem fechado os olhos ou se calado a abusos e arbitrariedades, ou que até mesmo tenham feito artigos jornalísticos a dizer ámen ao regime, também o façam, parece-me o cúmulo da desfaçatez.

Isto até parece um jogo de crianças, tal como quando em putos andávamos às caçadas e numa altura de cansaço ou de perigo de sermos apanhados, berrávamos que íamos para o coito ou estávamos offside (nós, na nossa santa ignorância dizíamos, obsides). Porém o que actualmente se passa não é um jogo de crianças, é coisa muito séria.

É coisa muito séria porque esta mesma gente que se vem acoitar à sombra da bandeira das quinas é a mesma que, ou apoiou, ou fez orelhas moucas, à vergonhosa lei da nacionalidade angolana, a qual foi concebida claramente para tramar os angopulas, os brancos filhos de portugueses, dificultando ou impedindo estes que tivessem os papéis de cidadãos angolanos.

Afinal, tal como o General Dino, esses angopulas eram filhos de estrangeiros, precisamente como ele, nascido em Luanda aos 5 de Junho de 1963, mas todos naturais de Angola, se bem que de cores de pele e de bases culturais diferentes. EU ESTAVA LÁ NAQUELA ALTURA! Não adianta contarem-me fadinhos. E naquela data os pais do senhor tenente-general eram portugueses, mesmo que o fossem de segunda ou de terceira. Mas eram, mesmo a contragosto. Ou seja, este senhor não devia ter sido angolano porque afinal era português de gema. Por outra palavras, agora é que se fez justiça e lhe foi atribuída a nacionalidade genuína. Ora vão lá dar banho ao cágado!

Acontece que para os angopulas serem angolanos têm de cantar loas ao partido dominante e ao regime, mesmo que tenham um avô ambaquista ou camundongo. Só assim conseguem (compram) a nacionalidade. Ao menos no Muene Puto, na casa da antiga potência colonial dominante, os critérios são bem mais prosaicos, e a meu ver muitíssimo mais honestos. Como se diz no norte de Portugal, é uma questão de graveto.

Mas a rapaziada do MPLA, lá na Assembleia Nacional de Angola, impante de importância, petulância e vaidade, promulga uma lei fascista e racista, convencida de que fez uma grande coisa, isto para o povo ver. Depois à socapa lá vai à terra dos pulas vergar-se ao pedido de nacionalidade. Cambada de hipócritas!

Está por demais visto que a rapaziada do binómio (povo-MPLA, MPLA-povo) tem como sonho secreto e supremo, a nacionalidade da antiga potência colonial, querendo ao mesmo tempo manter a sua coutada africana. Parecem aqueles shampoos dois em um!

Já Marcelo Caetano, quando questionado sobre a independência das províncias ultramarinas de Portugal (era assim que ele designava as colónias e que posteriormente passaram a estados, lá pelo estertor final do regime), dizia seraficamente não poder conceder tal independência, porque os povos das ditas regiões iriam querer todos viver em Portugal Continental (a Metrópole de então), devido à péssima qualidade dos governos que se iriam instalar nesses novos países.

Foi por isso, caros senhores, Leopoldino Fragoso do Nascimento, Rui Constantino Ferreira, João Melo e António José Ribeiro (só citando os referidos pelo Club K), devido à porcaria que têm sido estas quase cinco décadas de governação do binómio, que foram pedir arrego à velha terrinha? Não foi? Ora digam lá com sinceridade! Vós na terra dos tugas pulas podeis exprimir-vos com total liberdade. Aproveitem!

(*) Professor da FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

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