O coronavírus veio destapar muitas debilidades governativas, sendo a mais importante a de não ter aprendido nem com os (muitos) erros, nem com as (muitas) situações anteriores de dificuldades ou fenómenos de epidemias temporárias, que o país viveu e enfrentou, em algumas, com sucesso e galhardia do pessoal da saúde, que contou com a solidariedade da sociedade.

Por William Tonet

Num momento delicado que exige a união de todas as forças e segmentos da sociedade no combate sem tréguas a um inimigo, invisível internacional, é hora de perguntar onde está a experiência acumulada das crises que o país conheceu de epidemias severas, como: febre amarela, do vírus arburg, malária, febre tifóide, ébola, conjuntivite, etc…

O que foi construído? O que temos preservado de laboratórios, recursos humanos e investigação científica?

Se tivermos de começar do zero, tem de se reforçar ainda mais a necessidade do país se unir e não do MPLA tentar, mais uma vez, fazer tudo sozinho e recorrer a paliativos, mesmo cônscio de não ter capacidade para hercúlea tarefa.

Chega de vaidades umbilicais. É hora de humildade!

A acção coordenada tem de contribuir para alguma coisa, uma delas é de, no final, não haver um vencedor, mas sermos todos vencedores.

Que fábricas internas podem produzir ventiladores ou verem desviadas linhas de produção para o efeito?

Como transformar a Textang II e outras indústrias têxteis em centros de produção, em massa, de roupas de cama, batas e outros produtos indispensáveis para, nesta e outras horas, estar em prontidão (esta sim combativa e elevada)?

Que planos tem o Titular do Poder Executivo de orientar ou facilitar uma parceria público-privada para a Biocom produzir grande parte do álcool que os hospitais carecem?

A hora é essa pois o coronavírus poderá dar uma carona a muitos projectos produtivos havendo inteligência, que há, para desafiar o engenho criativo de todos angolanos.

Os poucos recursos devem estar ao serviço do bem e não de outras engenharias, apanhando carona, apenas capaz de reforçar, voluntária ou involuntariamente, o autoritarismo e a implantação sub-reptícia de ditaduras.

Oxalá que os tanques de guerra e demais material bélico que estão nas ruas, não sejam o prenúncio de algo pior… Deus queira que eles apenas tenham saído dos quartéis para ameaçar o coronavírus, visto pelos canhões das FAA.

Muitos regimes aprimoraram a sua acção governativa com as crises, veja-se o exemplo do regime fascista e colonial português de António de Oliveira Salazar, que no início da luta armada dos angolanos, em 15 de Março de 1961, inaugurou a Macambira para fazer sapatilhas, fardas, grandes oficinas de reparação de carros e meios de guerra e outras indústrias de apoio ao exército colonial.

No domínio das comunicações, Salazar montou um eficiente sistema de correios, uma irrepreensível logística militar que apoiava os familiares dos soldados que estivessem nas frentes de combate. Foi dada orientação de não importarem as cuecas e fardas dos militares. Infelizmente, mesmo tendo herdado muitas dessas indústrias, deu-se destino inverso ao seu objecto, para se comprar, vergonhosamente, cuecas, sapatilhas e botas militares do estrangeiro, todos estes anos.

Uma pergunta. Se eles conseguiram, todos os angolanos são incompetentes? Não! Não são! O regime sim, e hoje se percebe qual foi uma das estratégias, para tornar muitos dos generais em empresários…

Sejamos mais patriotas e, juntos, pensando no país, como a mãe de todos e para todos, acredito, conseguiremos, relançar as bases de desenvolvimento, que ele tanto carece.

Não desviemos o foco, para aproveitamentos políticos, nem é hora de imobilismo geral.

A oposição deve agir, deve fazer-se ouvir. Pode falar se não for diária, semanalmente, aos seus militantes e à sociedade, através de comunicados e conferências de imprensa, apresentando sugestões e soluções, junto das comunidades, como contribuições para o esforço geral, que só tem uma bandeira (devia) a de Angola.

Os intelectuais de esquerda ou do centro não se podem colocar na esquerda do canto esquerdo da sala de jantar, mas reunir na cozinha, para refogarem soluções viáveis, visando a salvaguarda de direitos dos mais vulneráveis; pobres, idosos, mulheres, crianças e sindicalistas.

Os sindicatos, cada vez mais envergonham os seus associados, não mugem nem tugem, numa altura em que os postos de trabalho estão em perigo e deles se exige luta e acutilância na defesa do emprego, apresentando soluções ao Titular do Poder Executivo e não esperar apenas determinações deste que, quando e se chegarem, apenas defenderem o patronato, como a actual Lei Geral do Trabalho, que bem se poderia chamar Lei Geral do Empregador.

Sem luta, não sereis digno de terem contribuído, para impedir a propagação dessa crise. Seria hora de denunciarem os patrões que estejam a pensar mais no lucro do que nas vidas humanas e dos trabalhadores em especial. Seria hora de dizerem haver capacidade de produção de medicamentos, fardas, luvas, álcool, seringas, nas fábricas X e Y, não havendo necessidade de importação.

Seria altura de mostrarem o que valem.

Os jornalistas devemos todos unirmo-nos, nesta hora, com sentido de dever, sim, mas com o sentido da profissão; escrutinar os poderes para estes, não fazerem das crises uma mordaça aos profissionais e uma avenida ao livre arbítrio com a nossa cúmplice, omissão e criminosa demissão. Temos um papel nobre, não vamos deixar de contribuir, nesta hora e contra mais este inimigo anti-pátria, que se junta a muitos outros, que diariamente nos infernizam, também, os sonhos de sermos cidadãos com equidade.

Não abraçar, em todo o mundo, a lógica dos autoritários e autoritarismo é uma ferramenta perfeita, para estancar as ditaduras e os ditadores, por isso sejamos, sempre, jornalistas.

É hora de cobrar as razões de os governantes não terem baixado os salários, por exemplo, em 15% ou mais, mas terem tido o topete de virem pedir ajuda ao cidadão, sem que alguma vez tenham feito contas com ele, sobre as receitas do petróleo, diamantes, impostos, etc..

Os deputados, particularmente os da oposição (os da situação, seguem a voz do dono), porque não fizeram diferente, abdicando de uma percentagem do salário ou ainda abdicando do motorista, guarda-costas, 4 empregadas domésticas, passando eles a custear estes trabalhadores, reduzindo a carga financeira do Estado (alguém disse estar a UNITA a cogitar prescindir de parte de salário dos seus deputados. Será?)?

Nestas alturas de crise, espera-se a devoção, a revelação dos eleitos.

Seria gratificante ouvir que o Presidente da República, por exemplo, abdicou de parte das suas poupanças, em euros e dólares, acumuladas antes do exercício de funções, para esta ingente tarefa de combater a crise, sendo cabeça de carroça.

Eu vou doar 10% da minha avença, na universidade, para apoiar, nessa fase e, depois durante o restante do ano, meninos carentes, que não tenham capacidade de pagar as propinas por desemprego dos pais, bem como ministrar uma ou duas cadeiras mais, sem qualquer tipo de remuneração.

Cabe agora, a universidade agilizar e cumprir essa manifestação de vontade, cativando na fonte, os montantes e encaminhá-los para os lugares mencionados, a partir de agora e com efeitos retroactivos.

Eu tenho palavra! Eu cumpro os compromissos, mesmo sem aposição de assinatura, por amor à educação que muitos não têm, infelizmente e deveriam como gestores públicos, saber que um território, sem educação no topo das prioridades, não é um país, mas apenas uma terra.

Unamo-nos contra o coronavírus, cumprindo as recomendações da OMS e do Titular do Poder Executivo.

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