O Governo angolano está a preparar um programa de distribuição da cesta básica alimentar às famílias mais carenciadas enquanto durar o estado de emergência, anunciou o coordenador da comissão interministerial de combate à covid-19, general Pedro Sebastião. A fazer fé no curriculum do MPLA, é provável que a este programa aconteça o mesmo que a muitos angolanos: quando estavam quase, quase mesmo, a saber viver sem comer… morreram.

Segundo o também ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, o Governo “tem gizado” um programa orientado para a cesta básica, no âmbito do qual estão agendadas um conjunto de visitas da comissão multissectorial às províncias que levarão parte dessa ajuda para os mais necessitados.

“Assim aconteceu já na província no Namibe, Cunene e seguramente vamos conhecer em outros pontos do nosso país onde a ajuda se mostre mais necessária”, disse o general.

Pedro Sebastião lembrou a este propósito que Angola esteve recentemente envolvida num programa de combate à seca no sul do país em que “o Governo foi chamado a um esforço tremendamente grande para acudir às populações” e poderá usar agora toda a linha logística montada nessa altura.

Questionado sobre a ajuda que o executivo poderá dar às empresas, o governante que, em 1973, integrou o exército português e frequentou curso na Escola de Aplicação Militar de Angola (EAMA), afirmou que está a ser usado “um conjunto de programas que estabeleceu previamente” e que visam o adiamento do pagamento de impostos e a regularização posterior de determinados actos “no sentido de facilitar a vida” às empresas.

No que diz respeito aos salários que considerou “o calcanhar de Aquiles” para os trabalhadores, Pedro Sebastião admitiu que a “não produção” durante o período em que decorre o estado de emergência vai criar dificuldades às empresas. Brilhante. Como tudo, aliás, que faz o ilustre general que na sua colecção pessoal ostenta a Medalha Comemorativa da Libertação de Mavinga, Defensores do Cuito Cuanavale e Mérito na Defesa da Pátria.

“O Governo está atento e está a criar todos os incentivos para acudir, não só para acudir às empresas”, mas também dar resposta “às preocupações que se colocam às populações”, frisou o general coordenador que, em 1992, foi nomeado vice-ministro para a Política de Defesa Nacional e posteriormente ministro da Defesa Nacional.

Ao longo de quase três horas de conferência de imprensa (coisa pouca para quem, de 1976 a 1978, frequentou a Academia Militar Vistrel – na antiga URSS) durante a qual foi feito um balanço da primeira semana do estado de emergência em Angola, Pedro Sebastião e os ministros da Saúde, dos Transportes, do Interior, do Comércio e da Comunicação Social e o governador provincial de Luanda reiteraram várias vezes o apelo à população, sem rebuçados nem chocolates – como diz o general e ministro do Interior, Eugénio Laborinho, para que fique em casa durante este período.

O estado de emergência na sequência da pandemia de Covid-19 foi declarado no dia 27 de Março e prolonga-se até 11 de Abril e inclui medidas que limitam a movimentação de pessoas, aglomerados de pessoas e funcionamento de estabelecimentos comerciais.

No entanto, verificaram-se ao longo de toda a semana, sobretudo em Luanda, alguns aglomerados, em particular junto de mercados, com muitos angolanos a queixarem-se de não ter alternativa senão continuar a sair para garantir a sua sobrevivência diária. O que, aliás, é uma situação estranha num país que só tem 20 milhões de… pobres.

A verdade que causa azia ao Governo

Embora o regime continue todos os dias, com ou sem Covid-19, a pôr os angolanos mais pobres, mais famintos, mais esqueléticos, mais perto da morte, os nossos dirigentes políticos continuam a dormir bem, a comer bem e a dar o que resta dos seus lautos repastos aos seus cães e não aos pobres.

Em Angola, para além dos milhões que legitimamente só se preocupam em encontrar alguma coisa para matar… a fome, nem que seja nos restos deixados pelos cães dos altos dignitários do MPLA, uma minoria privilegiada de familiares e acólitos dos dirigentes do MPLA só se preocupa em ter – com a preciosa ajuda da acocorada comunidade internacional – mais e mais, custe o que custar.

Quando alguém diz ou escreve isto corre o sério risco de que os donos do poder o mandem calar, se possível definitivamente. Não nos esquecemos, apesar de teimarmos em dar voz a quem a não tem (a esmagadora maioria do Povo), que um dia destes um jacaré pode saltar da uma viatura da Polícia e fazer de nós um soberbo manjar.

Mas, como dizia a outro propósito mas com uma actualidade divina Frei João Domingos, “não nos podemos calar mesmo que nos custe a vida”.

Que estamos quase a saber viver sem comer, isso é uma verdade que só deve regozijar os donos do reino que continua a ser esclavagista. Também por cá (é que esta gangrena tende a espalhar-se) o Povo pergunta (baixinho ou em silêncio) como é possível acreditar num regime cujo objectivo único é fazer com que os poucos que têm milhões tenham mais milhões, roubando e escravizando os milhões que têm pouco ou nada?

Tal como muitos dos ortodoxos do MPLA, que gravitam na bajulação ao “querido líder” seja ele qual for, o Presidente João Lourenço tem de deixar de pensar que Angola só pode ser o MPLA e que o MPLA é Angola.

Embora seja um exercício suicida, dos tais que alimentam os jacarés, importa aos vivos não se calarem, continuando a denunciar as injustiças, para que Angola possa novamente abolir o esclavagismo e, dessa forma, ser um dia um país diferente, eventualmente uma nação e quiçá até uma pátria de liberdade, equidade e progresso social.

O Povo sofre e passa fome. Hoje, graças à Covid-19 que pôs ainda mais a nu a incompetência do Governo, sofre mais e passa mais fome. Os países valem, deveriam valer, pelas pessoas e não pelos mercados, pelas finanças, pela corrupção, pelo compadrio, pelas negociatas, pelas operações resgate, transparência ou outras. É por tudo isto que a luta continua. Tem de continuar. Até porque, mais cedo ou mais tarde, a Primavera também vai iluminar as ruas de Luanda e chegar ao resto do país.

Como se vê, não é a pandemia da Covid-19 que evita que os donos do país continuem a vestir Hugo Boss ou Ermenegildo Zegna e comprar relógios de ouro Patek Phillipe e Rolex.

E é por tudo isto que são cada vez mais os cidadãos que não conseguem, ou não querem, comer gato por lebre e dizem que neste regime há cada vez mais criminosos a viver à custa dos imbecis dos angolanos.

Folha 8 com Lusa