Jornalistas angolanos queixaram-se do tratamento “antipedagógico e arrogante” de alguns agentes da polícia, em Luanda, quando se dirigiam hoje, quarto dia do estado de emergência devido à Covid-19, para os locais de trabalho, num dia em que a polícia diz “apertar mais o cerco”.

Por Orlando Castro (*)

Segundo relatam hoje, as dezenas barreiras colocadas, desde as primeiras horas desta segunda-feira, pelas forças de ordem e segurança, com intuito de interditar a circulação de pessoas, também foi extensiva aos profissionais da comunicação.

Os jornalistas angolanos relataram cenas de “desrespeito” e de “arrogância” protagonizados por “agentes da polícia”, quando tentavam justificar a sua presença na via pública.

“Foram logo quatro barreiras e a na quarta a indicação é que ninguém deveria passar, era muita arrogância, nem sequer davam ouvido às pessoas, era apenas chegar e eles (agentes da polícia) diziam que devem regressar à casa”, contou à Lusa o jornalista Isidro Chiteculo.

O profissional da Rádio Ecclesia – Emissora Católica de Angola – que saía do município de Viana, em direcção ao centro de Luanda referiu que a sua credencial para os efectivos da polícia não tinha qualquer relevância. Compreende-se. Desde logo não há garantias mínimas de que os polícias sabem ler, conhecem a lei e sabem distinguir um jornalista de um jornaleiro. E quando assim é, o melhor é deixar o agente continuar a pensar que é a mesma coisa dormir com o José Maria ou com a Maria José.

E como solução, adiantou o jornalista, “tivemos de regressar usar outra via” porque “eles (agentes da polícia) nem permitiam diálogo”. Pois não permitem. Eles foram formatados para pensarem que diálogo e monólogo é a mesma coisa. E então quando isso acontece sob a protecção de uma farda e de uma pistola…

“Era muita arrogância o que mostra que muitos agentes estão pouco esclarecidos. Há vários colegas que também passaram por isso e não sei como será amanhã”, atirou.

O país vive desde sexta-feira o estado de emergência prorrogável, que se estende até 11 de Abril, com a interdições de pessoas e viaturas na via pública, nos aglomerados e horário específico para venda de bens alimentares, entre as medidas.

O decreto presidencial n.º 82/20, de 26 de Março, que define as medidas de excepção em vigor durante o estado de emergência para conter a propagação da Covid-19 refere que os órgãos de comunicação social públicos e privados “mantêm-se em funcionamento” e podem adoptar medida de diminuição do efectivo laboral presencial.

E então haverá alguma forma melhor, para manter a comunicação social a funcionar, do que impedir os jornalistas de estarem onde devem estar – onde as coisas se passam? Claro que não. Por alguma coisa o MPLA, partido que é dono disto tudo desde 1975, tem um gabinete de peritos em comunicação social que dá pelo nome de Departamento de Informação e Propaganda que, só por si, tem uma infalível linha de produção de notícias que trabalha 24 horas por dia.

Recorde-se que se o jornalista não procura saber o que se passa é um imbecil, e que se consegue saber o que se passa mas se cala é um criminoso.

Reagindo às inquietações dos jornalistas angolanos, Waldemar José, director do gabinete de comunicação Institucional e Imprensa do Ministério do Interior, descalçou-se para ter a certeza de que conseguiria contar até 12 e afirmou que além da credencial os jornalistas “devem certificar” que estejam escalados para actividade.

Waldemar José, no âmbito da sua superior e catedrática formação em “Educação Patriótica”, entende que – tal como os seus camaradas da Polícia – a obra-prima do Mestre e a prima do mestre de obras são a mesma coisa. Daí desconhecer que um Jornalista que se preze está de serviço 24 horas por dia, mesmo sem estar escalado.

Em mensagem divulgada hoje pelas redes sociais, o responsável observou que apenas o passe ou credencial “não chega” recomendando as administrações dos órgãos de informação à emissão de uma “escala que certifique que o profissional deve sair à rua”. Ou, de forma mais simplificada, aos jornalistas basta apresentar o cartão de militante do MPLA.

“Recomendamos escalas como prova que está escalado para trabalhar naquela hora ou dia e, assim sendo, vai ser autorizado a circular. Devem compreender que a situação começa a apertar cada vez mais e se houver a possibilidade de casos comunitários vamos apertar cada vez mais”, notou Waldemar José.

Então, acrescentou, “estamos a fazer o filtro a nível das vias principais” e os que não conseguirem provar que estão a caminho do serviço “não vão passar, nos próximos dias será pior”. E quem contestar, seja jornalista ou terrorista (o MPLA não os distingue), sujeita-se a levar um tiro. Simples.

“Além do passe, devem exibir a escala de trabalho, devidamente, assinado para exibir às autoridades policiais”, rematou Waldemar José. Se a credencial, para além do número de filiado do MPLA, estiver assinada pelo Presidente da ERCA e pelo general António Egídio Santos “Disciplina”, melhor ainda. Se necessário, em vez da assinatura a “escala de trabalho” pode apenas ter a impressão digital destes altos dignitários do regime.

(*) Com Lusa

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