O Governo angolano do MPLA disponibiliza a partir de hoje uma conta bancária para recolha de contribuições dos cidadãos e entidades colectivas com vista a “mitigar a carência” da população mais vulnerável devido à pandemia da Covid-19. Um país rico que tem um governo falido e incompetente não tem alternativa.

“A juda-nos a ajudar. Todos juntos na luta contra a Covid-19. Podes fazer a tua parte contribuindo em kwanzas para o IBAN AO06 005 0000 5197 1631 1019 7 – do Ministério das Finanças – Tesouro Nacional, Governo de Angola”, lê-se na mensagem enviada hoje aos utilizadores de telemóvel.

Uma fonte disse à Lusa que a iniciativa se enquadra na Campanha de Solidariedade Juntos por Angola, lançada na sexta-feira passada, com vista a acudir (diz o Governo) os mais carenciados, sobretudo no decurso do período de estado de emergência, que entra hoje para o quarto dia.

Em campanhas publicitárias difundidas em alguns órgãos de comunicação, as autoridades apelam à solidariedade dos angolanos “neste momento difícil para a humanidade”. Ou seja, pede aos pobres para ajudarem os ricos que, só por si, têm dinheiro mais do que suficiente (muito dele roubado ao erário público, ao Povo) para evitar campanhas deste género.

Angola regista já duas mortes de pessoas infectadas pela Covid-19 num total de cinco casos positivos, conforme anunciou, do domingo, a ministra da Saúde angolana, Sílvia Lutucuta.

O país vive desde sexta-feira em estado de emergência prorrogável, que se estende até 11 de Abril, com a interdições de pessoas e viaturas na via pública, nos aglomerados e horário específico para venda de bens alimentares, entre as medidas.

Em Angola estão em quarentena institucional 1.089 pessoas e algumas dezenas cumprem quarenta domiciliar.

Uma pandemia longa, antiga e mortal

Mesmo antes, muito antes, desta pandemia do Coronavírus, os mais atentos defendiam a criação de políticas de protecção social aos cidadãos a par de incentivos reais ao empreendedorismo.

Angola enfrenta desde finais de 2014 uma crise económica e financeira, devido à baixa do preço do petróleo, principal fonte de receitas da economia do país, no mercado internacional, e à criminosa incompetência dos sucessivos governos, esta bem mais antiga. Já dura há 45 anos…

Como estadista de elevada craveira, segundo os seus sipaios, João Lourenço vai paulatinamente reforçando aquela que foi a emblemática política colonial imortalizada no poema Monangambé de António Jacinto e cimentada na anterior gestão de 38 anos de Poder absoluto de José Eduardo dos Santos: fuba podre, peixe podre, panos ruins, cinquenta angolares e porrada se refilares.

O problema está, contudo, em que a fuba (mesmo que podre) e o peixe (mesmo que podre) não chegam à barriga dos nossos 20 milhões de pobres. A única coisa que aumentou nem foi os 50 angolares. Foi tão só a porrada.

E, pelo sim e pelo não, João Lourenço vai permitindo que os seus servis acólitos, nomeadamente da Polícia e agora dos militares, avisem os angolanos que o regime não permitirá o direito à indignação aos que pensam que podem incendiar as ruas, trazer tumultos, rebeliões ou atentar contra o “querido líder, versão JLo”. Antigamente os angolanos comiam e calavam. Hoje só calam porque comida… nem vê-la. E, se querem comer, sujeitam-se a que a Polícia, para além de roubar os seus bens os eduquem literalmente à lei da bala.

Por deficiência congénita e ancestral, os angolanos são de uma forma geral um povo sereno e de brandos costumes que, quase sempre, defende a tese de que mais vale um prato de fuba hoje do que um suposto bife depois do estado de emergência.

Há, contudo, alguns sinais de sentido contrário, mas ainda são ténues e compráveis com um qualquer prato de fuba, farelo ou peixe… mesmo que podre. E é pena. No entanto, a força que se usa no dedo do gatilho costuma ser a última a finar-se…

Mas, quem sabe?, talvez um dia acordemos com a barriga de tal modo vazia a ponto de mostrarmos que estamos fartos de quem em vez de nos servir… nos lixa e nem sequer paga, pelo contrário.

João Lourenço, tal como o seu “pai” José Eduardo dos Santos, acredita que consegue pela repressão (primeiro via “Operação Resgate” e agora pelo estado de emergência) criar as condições para que as contestações abrandem ou sejam até anuladas. Esquece-se que a base da pirâmide demográfica é dominada por jovens, o que pressupõe uma especial propensão para haver um aumento da contestação.

É certo que em Angola aumenta o número dos que pensam que a crise (da maioria, de quase sempre os mesmos) só se revolve a tiro. O rastilho mantém-se aceso porque isso corresponde à estratégia do regime. Nada melhor para manter o poder cleptocrático vivo do que ter o cenário de ”guerra” pronto a entrar em combate.

De uma coisa os angolanos não podem, contudo, esquecer-se. Como dizia Platão: “O castigo por não participares na política é acabares por ser governado por quem te é inferior.” E se, mesmo participando, deu no que deu… o melhor é cortar o mal pela raiz.

E, convenhamos, se o valor dos angolanos se medisse pelo nível dos actuais políticos do regime (mas também da oposição), estariam certamente abaixo do último lugar do “ranking” mundial.

João Lourenço sabe que Angola apresenta um elevado risco político com a possibilidade de motins e de comoção civil. Sabe mas não se preocupa. Esse é um risco calculado que visa, repita-se, a manutenção do regime e que – graças a essa estratégia – terá a cobertura da comunidade internacional.

Embora, segundo os analistas internacionais, Angola esteja ainda num patamar de risco baixo, há indícios crescentes de que a sociedade começa a estar farta da cleptocracia e do nepotismo.

O ostracizado legado colonial, a crise do petróleo e agora a pandemia da Covid-19 não chegam, pelo contrário, para justificar ou explicar a política seguida pelo regime e que, em síntese, mostra que poucos (quase todos ligados aos dirigentes do MPLA) têm cada vez mais milhões, ao passo que cada vez mais milhões têm pouco ou nada.

Em certas áreas urbanas das grandes cidades, nomeadamente nas periferias de Luanda, as probabilidades de revolta são grandes, e não é só por uma questão de austeridade, dificuldade do mercado de trabalho e do emprego, porque já não é possível justificar tudo com o colonialismo, com a guerra, com Jonas Savimbi, com a família Dos Santos ou com a pandemia da Covid-19.

A isso acresce a existência de largo escalão de jovens altamente qualificados e que, por isso, demonstram ter coluna vertebral e pensar pela própria cabeça, mesmo sabendo que dessa forma estão a cometer um atentado contra a segurança do Estado.

Seja como for, começa mesmo a ser altura de os angolanos porem os seus políticos a pão e água ou, talvez, a farelo. Sim, porque como dizia Kundi Paihama, os porcos também comem farelo e não morrem.