Estávamos em Julho de 2017. A filha do primeiro Presidente de Angola, herói nacional do regime, Irene Neto, voltava a criticar a liderança do MPLA no arranque da campanha eleitoral e, embora dissesse não se assumir como líder de uma tendência renovadora e contestatária e interna do MPLA, denunciou o saque do erário público… por parte do… MPLA.

Em declarações à VOA, Irene Neto disse que a sua geração atingiu um patamar que permite aceitar ou não as opiniões de pessoas que fazem parte do sistema. Serviu a ingenuidade a quente e recebeu, em troca, a vingança bem gelada.

O então candidato do MPLA à Presidência da República, João Lourenço, denotou um visível embaraço protagonizado pela filha de Agostinho Neto, que exigiu a atribuição do nome do primeiro Presidente angolano ao aeroporto em construção por, alegadamente, estar a ser erguido na sua terra natal, Catete, a pouco menos de 60 quilómetros de Luanda.

Na altura, João Lourenço deslocou-se à aldeia de Caxicana, em Catete, para homenagear a figura do primeiro Presidente de Angola e venerado herói nacional um dia antes do início da campanha eleitoral.

Irene Neto exigiu também a reedição de toda a obra literária e os discursos políticos do pai, bem como a sua tradução nas línguas nacionais e algumas estrangeiras.

A então deputada do MPLA pediu também a criação de outras faculdades na Universidade Agostinho Neto e a dignificação do Fundação que tem o seu nome.

Depois de ter recusado integrar a lista dos candidatos do MPLA à seguinte Assembleia Nacional, Irene Neto foi a única dirigente do MPLA a contestar publicamente a atribuição do título de presidente Emérito ao então Chefe de Estado, José Eduardo dos Santos.

Em declarações à imprensa, Irene Neto denunciou que o saque do erário público em Angola começou logo após a morte do seu pai e sugeriu que a actual Constituição deve ser mudada.

Na mesma altura (Julho de2017) , lamentando o facto de o Executivo ser um órgão unipessoal, Irene Neto, em entrevista ao Novo Jornal, apontou o esvaziamento da Assembleia Nacional da sua função orgânica – fiscalizar o governo – como uma das razões para não continuar naquele órgão que devia ser independente. Actualmente o parlamento é uma instituição “passiva e subalternizada”, sem “iniciativa e autonomia”.

A filha de Agostinho Neto dizia então o que muitos diziam há muito tempo sobre a concentração e centralização de poderes numa pessoa, classificando o regime que apoia pela sua bancada parlamentar e militância partidária de ser um “presidencialismo quase imperial” que “asfixia a democracia e desmantela os contrapoderes”.

A tentativa de eternizar José Eduardo dos Santos como presidente mediante o título de “Presidente Emérito” também mereceu repúdio da deputada. Após a morte do pai, Irene nunca ouviu ser discutido especificamente uma lei para acomodar a “Primeira Família Presidencial”, e lembrou que a ex-primeira-dama nunca usufruiu dum gabinete e salário e que a família “não dispunha de recursos financeiros próprios para assegurar a sua sobrevivência”.

Sobre a sua família, Irene Neto afirmou que “a nossa família nunca esteve envolvida em práticas imorais ou ilegais”, mas o mesmo não poderá dizer a “Segunda Família Presidencial”. E o que dirá a partir de hoje, dia em que lhe foram congeladas contas e apreendidos bens pela “terceira família presidencial”?

Em Junho de 2019, uma filha da “segunda família presidencial”, a então deputada do MPLA Welwitschia dos Santos “Tchizé” acusou o Comité Central do partido no poder de golpe baixo e de estar a fazer tudo para afastá-la do congresso porque os dirigentes “têm medo” dela.

“Eu sou, talvez, a única militante com coragem para ir ao congresso e pôr em causa e impugnar isso que está a ser proposto e estão a fazer um golpe baixo para eu não ir ao congresso”, afirmou Tchizé, ao reagir à decisão tomada pelo Comité Central de a suspender do órgão e abrir um processo disciplinar.

Num áudio divulgado no Whastaap, a filha do antigo Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, acusa os dirigentes de violarem os estatutos do partido e a Constituição.

“Estão com medo de que eu vá ao congresso dizer umas poucas verdades, mostrar os estatutos e mostrar que todas essas propostas que estão a ser feitas para o congresso são irregulares e violam os estatuídos do MPLA e até a Constituição”, acrescentou Tchizé, que se considera “a política mais influente do país a seguir ao Presidente da República”.

“A decisão torna-me a política mais influente do país, a seguir ao Presidente da República, muito obrigado ao padrinho João Lourenço pela projecção que está a dar-me e quando for grande, e eventualmente estiver algures a tomar posse num importante cargo dentro ou fora de Angola, dentro ou fora da política, irei citar o seu nome e agradecer a sua projecção pela oportunidade que me está a dar para mostrar o que valho porque se não fossem os desafios que a sua liderança está a impor à minha pessoa e a exposição que me está a dar eu não teria pretexto para mostrar a minha capacidade política e aquilo que eu valho intelectualmente”, disse Tchizé, concluindo dizendo “muito obrigada, Presidente João Lourenço, muito obrigada, Angola”.

Antes, Welwitschia dos Santos questionara “MPLA quo vadis, Angola quo vadis”, fazendo duras críticas ao Comité Central e à liderança de João Lourenço, num partido em crise, segundo ela.

Depois de enumerar vários dirigentes, como o próprio João Lourenço, então secretário-geral, Lukoki, Marcolino Moco, Irene Neto, Mendes de Carvalho e Pepetela, que criticaram a liderança de José Eduardo dos Santos, sem que tenham sido suspensos ou alvo de processos disciplinares, Tchizé perguntou: “quem é ditador afinal, José Eduardo dos Santos ou o camarada João Lourenço?”.

Tchizé sublinhou ainda estar feliz “porque isso mostra que sou uma pessoa extremamente forte e de um capital político que nunca sonhei ter, nem durante o mandato de Eduardo dos Santos”.

Eventualmente, dentro de alguns anos, esta história poderá ter (ou não) um novo capítulo escrito por uma das filhas de João Lourenço, o patriarca – citando Irene Neto – da terceira Família Presidencial.