A consultora FocusEconomics reviu em baixa a previsão de crescimento de Angola para 02%, cortando 0,1 pontos percentuais à estimativa anterior, e prevendo (até nova e mais do que previsível em baixa) uma expansão económica de 1,5% do Produto Interno Bruto no próximo ano.

“A economia de Angola saiu da recessão no último trimestre de 2018, num contexto de reformas económicas e de apoio financeiro por parte do Fundo Monetário Internacional”, escrevem os analistas no relatório de Julho sobre as economias africanas.

No documento, enviado aos clientes, a FocusEconomics ressalva que “no início de 2019 uma deterioração adicional na indústria petrolífera parece ter abrandado o crescimento” e acrescenta que “a produção de petróleo cambaleou até maio e as exportações provavelmente perderam o ímpeto na segunda metade do segundo trimestre com a descida dos preços”.

Fora da indústria petrolífera, “os dados parecem mais animadores”, vincam os economistas, salientando a moderação na inflação, a descida das taxas de juro e a estabilidade política, que enquadraram os indicadores positivos do consumo privado e da actividade no investimento entre Janeiro e Maio.

“A crónica dependência do sector petrolífero vai continuar a limitar o crescimento geral este ano, num contexto de preços globais do crude voláteis e de fraca produção interna”, notam os economistas, salientando, ainda assim, que “a procura interna deve sustentar uma modesta recuperação, já que a inflação mais baixa e apolítica monetária menos restritiva propiciam a despesa privada e as reformas económicas levam a mais investimentos”.

A 2 de Maio a mesma consultora tinha revisto em baixa a previsão de crescimento da economia de Angola para este ano, reduzindo para cerca de metade a estimativa de expansão da economia, de 1,3% para 0,6%.

Do ponto de vista do único partido que governa Angola desde 1975, o MPLA, os marimbondos continuam a multiplicar-se e parecem ser já uma praga. Talvez, por isso, seja previsível o lançamento de uma nova iniciativa, a “Operação Pragas”.

“Os membros do painel da FocusEconomics projectam que o Produto Interno Bruto se expanda 0,6% em 2019, o que é 0,7 pontos percentuais abaixo da previsão do último mês, que apontava para 1,3%, e esperam um crescimento de 1,8% em 2020″, diziam.

No relatório, enviado na altura aos investidores, os analistas escreveram que “a economia angolana deve sair da recessão este ano, principalmente devido à melhoria da procura interna, mas a alta dependência da indústria do petróleo é o principal risco para estas previsões, já que as perturbações na produção e ou um preço mais baixo do barril de petróleo teriam um impacto adverso no orçamento e nas contas externas”.

Para a inflação, a FocusEconomics estima que fique nos 17,6% este ano e desça para 14% em 2020, depois de ter estado nos 17,8% em Fevereiro e de ter descido ligeiramente para 17,6% em Março.

A manutenção da taxa de juro de referência pelo banco central de Angola (BNA) nos 15,7% em Março, depois da queda de 75 pontos base em Janeiro é encarada como “o princípio do abrandamento da política monetária”, antecipando que a taxa de juro possa terminar este ano nos 15,2%, descendo ainda mais, para 14,05%, no próximo ano.

Os indicadores disponíveis “sugerem que a fraca dinâmica continuou no princípio deste ano, depois de a economia ter provavelmente contraído no último trimestre do ano passado”, acrescentam os analistas, salientando que “apesar de o índice que mede a actividade económica ter melhorado em Janeiro, reflectindo principalmente o declínio mais suave da indústria petrolífera, continua firmemente entrincheirado em território negativo”.

Marimbondos atacam em várias frentes

Também a consultora Economist Intelligence Unit (EIU) considera que a revisão da previsão de crescimento de Angola, para 0,4% este ano, mostra “as contínuas fraquezas na economia” e alerta para o tempo que as reformas demoram a surtir efeito.

“O relatório sobre a Estratégia de Endividamento de Médio Prazo (2019-2021) demonstra as contínuas fraquezas na economia”, escrevem os peritos da unidade de análise da revista britânica The Economist, num comentário às novas metas, enviado aos investidores.

O Governo “lançou reformas abrangentes para tornar Angola mais atractiva para os investidores privados internacionais, mas esses esforços demoram tempo até se transformarem num aumento dos fluxos de investimento”, alertam os analistas.

Para além de alertar para o elevado nível de dívida pública, a EIU lembra que, em Fevereiro, o Governo “indicou que estava a planear alterações ao orçamento, que tem um preço de referência do barril de petróleo nos 68 dólares”, enquanto os analistas da Economist estimam um valor de 66 dólares por barril este ano.

No princípio de Abril o Ministério das Finanças de Angola estimou que a actividade económica ia crescer cerca de 3% nos próximos dois anos e confirmou a recessão de 2016 a 2018 devido à descida da produção de petróleo e menos actividade não petrolífera.

“Até 2018, o ciclo real de negócios da economia apresentou um comportamento recessivo, tendo registado para os anos de 2016, 2017 e 2018, taxas de crescimento negativas na ordem de 2,6%, 0,1% e 1,1%, respectivamente”, lê-se no relatório sobre a Estratégia de Endividamento de Médio Prazo (2019-2021), aprovado no fim de Março em Conselho de Ministros e colocado no princípio de Abril no site do Ministério das Finanças.

“Tal comportamento deveu-se aos baixos níveis de produção de petróleo e pela menor actividade económica do sector não petrolífero (efeito ‘spillover’)”, acrescenta o texto, que dá conta de uma previsão de crescimento económico de 0,4% este ano e de 3,2% para 2020 e 2021.

A previsão de uma recessão de 1,1% no ano passado é uma melhoria face ao valor que tinha sido apresentado em Fevereiro pelo ministro da Economia e Planeamento, Pedro Luís da Fonseca, que tinha alertado que o país deve ter tido uma recessão de 1,7% no ano passado.

Relativamente ao crescimento económico, as previsões estão abaixo das estimativas do Fundo Monetário Internacional, que antecipava já para este ano uma expansão da economia angolana na ordem dos 2,5%.

“Para o cenário de base, prevê-se o crescimento da economia a médio-prazo em cerca de 3%, dentre os quais, o sector petrolífero poderá apresentar uma taxa de crescimento de cerca de 1,7%, suportada pelo projectado aumento da produção petrolífera e o sector não petrolífero em cerca de 3,5%, justificando-se principalmente pela melhoria do ambiente de negócios que fomentará o investimento do sector privado na economia”, argumenta-se no relatório.

A inflação, que tem vindo a descer nos últimos trimestres, “poderá, até 2021, atingir os níveis de 7,9%, e a conta corrente manter-se-á deficitária, resultante principalmente do aumento das importações na balança comercial e do crescimento do pagamento de juros externos”, antecipa o Governo.

O documento colocado no site do Ministério das Finanças de Angola explica que, no que diz respeito à gestão da dívida, “o executivo optou por uma estratégia de três anos que coincidirá com o programa de Apoio para a Consolidação Fiscal, EFF- Extended Fund Facility acordado com o FMI”.

Este programa “tem como objectivos reduzir as vulnerabilidades fiscais, fortalecer a sustentabilidade da dívida, reduzir a inflação, implementar um regime cambial flexível, assegurar a estabilidade do sector financeiro e fortalecer o quadro de combate ao branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo (CBC/FT)”.

Folha 8 com Lusa

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