O Quénia começou hoje a administrar a primeira vacina contra a malária a crianças nas áreas rurais com elevadas taxas de transmissão, tornando-se o terceiro país em África a aplicar o medicamento. O ministro da Saúde queniano considerou, numa mensagem colocada no Twitter, que hoje é um “dia histórico” para este país, o terceiro a introduzir a aplicação da vacina em África, a seguir ao Maláui e ao Gana.

A malária é uma das principais causas de morte em África, tirando a vida de 435 mil pessoas todos os anos, a maioria das quais são crianças com menos de cinco anos.

Apesar de a vacina apenas proteger cerca de um terço das crianças que são imunizadas, aqueles que são vacinados têm uma probabilidade maior de ter casos menos severos de malária.

O objectivo da erradicação global da malária, uma das doenças mais antigas e mortais do mundo, pode ser alcançado até 2050, segundo um novo estudo publicado pela comissão para a malária da revista científica The Lancet.

“Um futuro livre de malária […] pode ser alcançado tão cedo como 2050”, revela o estudo, da autoria de 41 dos principais especialistas mundiais em malária, ciências biomédicas, economia e políticas de saúde.

O estudo sintetiza as evidências científicas, combinando-as com novas análises epidemiológicas e financeiras que demonstram que – com as ferramentas e estratégias certas e o financiamento adequado – a erradicação da doença é possível no espaço de uma geração.

Os especialistas identificam três medidas para inverter a curva da progressão da doença, acelerando o declínio dos casos de malária a nível mundial, incluindo um aumento anual de cerca de dois mil milhões de dólares (perto de 1,8 mil milhões de euros).

Melhorar a gestão e implementação dos actuais programas de controlo da malária e fazer um uso mais eficiente das actuais ferramentas, desenvolver ferramentas inovadoras que permitam ultrapassar os desafios biológicos da erradicação e disponibilização, por parte dos países onde a malária é endémica, de investimento financeiro adequado são as propostas dos especialistas.

“Por demasiado tempo, a erradicação da malária foi um sonho distante, mas agora temos provas de que a malária pode e deve ser erradicada até 2050”, disse Richard Feachem, co-presidente da Comissão Lancet para Erradicação da Malária e director do Grupo de Saúde Global da Universidade da Califórnia, San Francisco (UCSF).

“Este estudo diz que a erradicação da malária é possível no tempo de uma geração, mas para alcançar esta visão comum não podemos continuar com a abordagem actual. O mundo está num ponto crítico e devemos desafiar-nos com metas ambiciosas e comprometer-nos com as acções ousadas necessárias para as alcançar”, acrescentou.

Desde 2000, a incidência da malária e a taxa de mortalidade a nível global caíram 36 e 60 por cento, respectivamente, tendo-se registado igualmente um aumento do investimento na prevenção e tratamento da doença, que em 2016 ascendeu a 4,3 mil milhões de dólares (cerca de 3,9 mil milhões de euros).

Hoje, mais de metade dos países do mundo estão livres de malária.

Apesar dos progressos e dos esforços globais, mais de 200 milhões de casos de malária são registados em todo o mundo a cada ano, causando mais de meio milhão de mortes.

Os casos de malária aumentaram em 55 países em África, Ásia e América Latina e crescem as preocupações com a resistência dos mosquitos responsáveis pela transmissão (vectores) aos actuais insecticidas e medicamentos.

A maioria dos novos casos de malária surgem em apenas 29 países, que são responsáveis por 85% das mortes registadas em 2017. Entre os 29 países, apenas dois – Papua Nova Guiné e Ilhas Salomão – não estão localizados em África.

Apenas dois países africanos – Nigéria e República Democrática do Congo – são responsáveis por 36% dos casos de malária a nível mundial.

“Apesar dos progressos inéditos, a malária continua a privar comunidades em todo o mundo do seu potencial económico, particularmente em África, onde apenas cinco países carregam quase metade do peso global [da doença]”, adiantou Winnie Mpanju-Shumbusho, membro do RBM Partnership to End Malaria e co-presidente da comissão The Lancet para a erradicação da malária.

Num comentário ao estudo, o director geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, considerou a meta “ousada”, considerando que o objectivo não poderá ser alcançado “com as actuais ferramentas e abordagens”.

Por isso, apelou para “redobrados esforços” na investigação e desenvolvimento, maior e mais efectivo investimento e sistemas de saúde robustos baseados na saúde primária e na cobertura universal.

Nós por cá… siga o MPLA

O director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) de Portugal, Paulo Ferrinho, defende que a malária continua a ser um grande problema em todos os países africanos lusófonos e um desafio maior em matéria de doenças tropicais.

“A malária continua a ser um grande problema em todos os países lusófonos em África, sem excepção. Não podemos dizer que a situação está controlada e, em situações de crise, como a que temos agora em Moçambique, com cheias, esperamos um agravamento da situação”, disse Paulo Ferrinho, em entrevista à agência Lusa. “A malária continua realmente a ser o nosso grande desafio”, acrescentou.

Mais de 90% dos 219 milhões de casos de malária de 2017 e das 435.000 vítimas mortais registaram-se no continente africano, a maioria crianças com menos de cinco anos.

Moçambique é o único país lusófono que no grupo de 11 países em que se registaram 70% de casos (151 milhões) e mortes (274 mil) em 2017 e, por isso, foi escolhido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para aplicar uma nova estratégia de combate à doença.

É o país com a terceira maior percentagem (5%) de casos de malária no mundo e o oitavo onde a doença mais mata (3% do total de vítimas), segundo o relatório anual sobre a doença divulgado pela OMS. Angola surge em 13.º lugar com 2% do total mundial de casos. A Guiné-Bissau registou cerca de 144 mil casos suspeitos de malária em 2017 e 296 mortes, segundo o relatório.

No polo oposto, entre os países próximos da erradicação da doença está Cabo Verde, que registou, no entanto, em 2017, um surto de paludismo, concentrado sobretudo na ilha de Santiago, com 423 casos – incluindo uma vítima mortal -, nove vezes mais do que os registados no ano anterior.

São Tomé e Príncipe está também próximo da erradicação da doença, com cerca de 2.240 casos suspeitos e sem registo de mortes.

Paulo Ferrinho alertou também para a existência nestes países de outras doenças transmitidas por mosquitos (vectores) “que vão ganhando terreno”.

“Em Angola, temos dengue, Zika, chikungunya, febre-amarela. São doenças que também estão presentes na Guiné-Bissau, mas algumas ainda não estão presentes em Moçambique, onde o grande problema é a malária em todo o território nacional, mas sobre o dengue só temos conhecimento em Nampula, no Norte”, disse.

Uma equipa de investigadores em Portugal descobriu que o parasita da malária e a bactéria ‘E.coli’ evitam a sua destruição através da modulação de proteínas receptoras da célula hospedeira.

Num artigo publicado na revista científica “Scientific Reports”, os investigadores explicam que até agora sabia-se que várias bactérias e parasitas se servem da maquinaria da célula hospedeira para seu proveito, evitando a sua própria destruição, ou fagocitose, sem que em muitos dos casos se saiba exactamente como e que agora foi descoberto o mecanismo pelo qual estes microrganismos subvertem a fagocitose da célula hospedeira.

“O sistema imunitário tem como função defender as células de agentes patogénicos externos ao organismo. A primeira linha de defesa é operada por células como os macrófagos, os neutrófilos e as células dendríticas, cuja função é fagocitar (“fagos” = comer e “citos” = célula), ou, por outras palavras, internalizar e destruir os agentes patogénicos” adiantam a equipa de investigadores do Centro de Estudos de Doenças Crónicas (CEDOC-NMS|FCM) da Universidade Nova de Lisboa e do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), liderada por Duarte Barral (CEDOC-NMS|FCM).

A fagocitose é o englobamento e digestão de partículas sólidas e micro-organismos por células, processo que nos humanos está ligado directamente ao processo imunológico.

Duarte Barral explicou num comunicado que o estudo representa “um valioso contributo para o crescente conhecimento não só das estratégias usadas por estes microrganismos, mas também dos mecanismos de defesa das nossas células contra eles”.

“Futuramente, este conhecimento poderá ter importância no desenvolvimento de novas estratégias para combater infecções provocadas por este tipo de microrganismos”, adiantou.

Num estudo anterior, os investigadores tinham já demonstrado que o parasita da malária ‘Plasmodium berghei’, e a bactéria ‘E. coli’, ao infectarem as células do hospedeiro levam ao aumento da expressão de proteínas da célula hospedeira, cuja consequência é a inibição da fagocitose e consequentemente da destruição dos parasitas.

Duarte Barral, salientou que “é interessante que uma bactéria e um parasita tenham evoluído independentemente estratégias semelhantes de escapar à sua destruição, provavelmente por ser a forma mais eficiente de o conseguir; isto revela um conhecimento profundo dos mecanismos celulares por parte dos microrganismos, resultado de milhões de anos de co-evolução”.

Angola registou só no primeiro trimestre de 2018 mais de 720 mil casos de malária, a principal causa de morte no país, que resultou em quase 2.100 óbitos, segundo dados das autoridades sanitárias.

De acordo com um relatório do Ministério da Saúde, no que diz respeito à situação epidemiológica do país sobre a malária foram registados de Janeiro até ao dia 2 de Abril de 2018, 720.086 casos, dos quais 2.096 pessoas morreram.

Os dados indicam como províncias mais afectadas Luanda, com 177.029 casos e 278 óbitos, Benguela (90.896 e 348 óbitos), Uíge (69.164 e 250 óbitos) e Bié (65.068 e 324 óbitos). Já as províncias com os menores números de casos e óbitos são Cabinda (2.061 e cinco óbitos), Namibe (5.355 e cinco óbitos) e Cunene (5.926 e 28 óbitos).

A província do Huambo, apesar do reduzido índice de casos (24.757), comparativamente às restantes regiões apresenta um elevado número de mortes, com um total de 122 óbitos, igual situação à do Cuanza Sul, com um registo de 40.990 casos e 141 mortes.

A malária, além de constituir a principal causa de morte em Angola, é também o principal motivo de internamentos hospitalares e de abstenção escolar e laboral.

Folha 8 com Lusa

Partilhe este artigo