O presidente do grupo parlamentar da UNITA, Adalberto da Costa Júnior, criticou hoje os “novos latifúndios” que limitam o acesso das populações à terra e à água, e destacou que o desrespeito pelos povos autóctones é agora maior do que nos tempos coloniais. As verdades, para além de duras como punhais, são eternas…

Falando aos jornalistas no último dia de visita dos deputados da UNITA à província da Huíla, no âmbito das VIII Jornadas Parlamentares do partido do “Galo Negro”, Adalberto da Costa Júnior salientou a importância de se “encontrar respostas que vêm da experiência local” e lamentou o desrespeito pelas populações.

“Ficou-nos a indicação de que, no tempo colonial, apesar de ter sido no tempo colonial, houve um respeito pelas populações autóctones. Este respeito praticamente desapareceu hoje”, afirmou Adalberto da Costa Júnior, responsabilizando “os novos latifúndios” pelo desrespeito dos “donos da terra” e das comunidades locais, por limitarem o acesso às águas e às suas fontes de sobrevivência.

O dirigente da bancada da UNITA, maior partido da oposição que o MPLA (ainda) permte, criticou a “sobreposição” entre actividades empresariais e políticas e “entre o latifúndio e o governante”, e reiterou a necessidade de declarar a situação de emergência humanitária nas províncias do sul de Angola devido à seca.

Adalberto da Costa Júnior pediu ao Governo para “fazer mais do que está a fazer”, salientando que das 35 mil toneladas de bens que seriam necessários por mês para acudir à população apenas mil estão a chegar, pelo que as respostas do executivo “não são as que as pessoas precisam”.

Do contacto dos deputados com a população e dirigentes locais registaram-se, também, preocupações com a saúde, desemprego e educação.

O líder parlamentar da UNITA não poupou críticas ao governador da Huíla, Luís da Fonseca Nunes, que não recebeu a delegação, fazendo-se representar pela vice-governadora, Maria João Chipalavela.

“Parece-me que aqui na Huíla o senhor governador não tem o hábito de receber os partidos políticos da oposição. É mau”, vincou, acrescentando que “o diálogo entre instituições é absolutamente necessário para uma boa gestão de responsabilidades”.

O governador da Huíla voltou a ser visado, depois de o dirigente da UNITA ser questionado sobre as obras que estão a ser feitas no Lubango, alegadamente a cargo de uma empresa pertencente ao próprio governador.

“Estamos a ver uma cidade com várias ruas interrompidas, mas não sabemos que tipo de obra é aquela, como é normal no âmbito da legalidade”, comentou o deputado.

“Isto preocupa-nos bastante. Não basta haver obras, é preciso que sejam feitas no espaço rigoroso da legalidade”, sublinhou Adalberto da Costa Júnior, dizendo que “ficam algumas interrogações” sobre os trabalhos, depois de os deputados terem recebido “indicações de que o decisor e o beneficiário possam ser a mesma pessoa”.

Os quatro dias de visita serviram também para reforçar a convicção de que é necessária a realização em simultâneo em todas as autarquias das eleições municipais.

Angola prepara as suas primeiras eleições autárquicas para 2020, mas está ainda em aberto se o processo será gradual ou feito em simultâneo em todos os municípios.

No âmbito das jornadas, os deputados transportaram 40 toneladas de alimentos, incluindo farinha, milho e sal, das quais 15 foram entregues no município dos Gambos, na Huíla, e outras 55 toneladas seguirão viagem até ao Cunene.

Adalberto da Costa Júnior admite que os donativos não são “a solução para o problema” da seca, mas considerou que a ajuda humanitária “salva vidas”.

No comunicado final hoje aprovado, o grupo parlamentar da UNITA “deplorou a situação degradante das populações do interior das províncias da Huíla e Cunene, caracterizadas pela fome e seca profundas”, e anunciou que vai propor ao Governo a criação de um grupo de trabalho para estabelecer um “plano nacional de Fome Zero” e um plano de emergência alimentar para as populações afectadas.

A caravana da UNITA segue na sexta-feira para o Cunene, outra província angolana fortemente atingida pela seca, na fronteira com a Namíbia.

Folha 8 com Lusa

Partilhe este artigo