Um dos grandes problemas de Angola, o maior porventura, mais pernicioso do que a gasosa e a corrupção endémica, é a cultura instalada da bajulação. Os bajuladores – mestres da adulação e subserviência – também denominados na gíria de lambe-botas, lambe-cus, graxistas, manteigueiros, cães-de-fila ou puxa-sacos, estão em toda parte: na política, no jornalismo, no desporto, nas empresas e, possivelmente, também no lugar onde o meu caro leitor trabalha ou estuda.

Por Brandão de Pinho

Criaturas de carreiras longas, e às vezes, bem sucedidas. Muitas vezes são quem mais se insurge contra outros bajuladores ou até contra a “fina e nobilíssima arte da bajulação”.

Sei de fonte segura que no seio do MPLA, como forma de fazerem carreira política, muitos jovens visceralmente anti-comunistas, vêm-se na contingência de relevar e esbater o 27 de Maio de 1977, que mais não foi do que uma purga, um progon bolchevique tropical, apesar de condenarem com todas as suas forças os assassinatos em massa na União Soviética de Estaline, na China de Mao ou sobretudo no Camboja de Pol Pot, onde um terço – segundo algumas versões – da população foi dizimada por fome, exaustão ou doença para além de mortes selectivas -muitas vezes com picaretas para poupar balas, naquele que foi o regime socialista mais insano de toda a história da humanidade e onde o simples facto de se usar óculos, ter alguma instrução ou comer umas bagas silvestres sem autorização era motivo para a aplicação da pena capital.

Foi talvez o mais patognomático exemplo de engenharia social e extremismo da ideologia do socialismo, onde as pessoas da cidade eram forçada a ir para o campo, onde a medicina ocidental e as escolas e todas as instituições foram banidas e onde o país achava que poderia ser auto-suficiente. Por ironia do destino Pol Pot usava óculos, tinha instrução obtida em França e era bem pançudo como a elite angolana por norma também é, ao contrário da população e isto apesar de uma pseudo-sociedade científica de endocrinologia angolana “ter concluído” que metade da população sofre de obesidade.

Se os próprios médicos são bajuladores insolentes ao ponto de sonegarem a fome extrema do país, pergunto-me, em que diabo de classe se pode confiar em Angola. Depois de JLo ter dito na RTP que não havia fome, apenas uma ligeira má-nutrição pontual, os endocrinologistas ainda foram mais longe e transformaram os esqueléticos angolanos em obesos diabéticos.

Diariamente, muitos angolanos esbanjam oportunidades profissionais, políticas e económicas devido à inaptidão para a bajulação e ao asco que têm de engraxar um chefe ou um líder, que não poucas vezes se vão transformando em bajulados exigentes e insaciáveis, o que pode ser muito frustrante para esses homens íntegros, críticos, depreciadores das coisas erradas, exegetas, abalizadores militantes ou analistas repreensores e corajosos – chamemos-lhe a essas pessoas, sobretudo a estas novas gerações, recorrendo a um inocente neologismo, de “desbajuladores” – porque não se enquadram na cultura bajuladora que predomina em certas instituições e organizações angolanas e deixam de atingir certas metas por oposição aos aduladores natos que por norma se tornam poderosos, abastados e importantes de uma maneira assaz terrífica, transformando-se em animais ferozes e implacáveis para o comum angolano, fazendo da exclusão, do nepotismo, da corrupção, da fúria verbal e da ameaça directa, com o poder que lhes foi divinamente conferido directa ou indirectamente pelo Deus-Sol Lourenço, as suas armas de eleição nessa demanda de amesquinhamento dos seus concidadãos. As maiores vítimas são as populações honradas, contra quem se insurgem, em nome do bajulado – sua adorada divindade.

Ou seja, o bajulador é por natureza um oportunista. Um oportunista que usa o nome do bajulado para usufruir vantagens em benefício próprio num fenómeno que na natureza poderia ser, um misto de parasitismo, camuflagem e mimetismo, e por vezes são a fiel reprodução de sorrisos, trejeitos e tiques de quem puxam o saco, e é verdadeiramente notável – reconheça-se-lhes esse mérito a esses invertebrados – tal requinte nessa capacidade que tem tanto de inata como de aprendida e cultivada.

O indivíduo confessamente desprendido e genuinamente leal ao seu patrono – o “desbajulador” – defende as melhores ideias e actos do seu líder em prol da nação, ou do partido ou do jornal, ou o que quer que seja, ao contrário dos bajuladores – contra os quais os angolanos devem encetar uma luta decididamente assertiva – e que cinicamente vão colhendo frutos pessoais e cargos de destaque, sem que para isso tenham quaisquer aptidões, socorrendo-se do elogio descarado e demais ardis para irem dando graxa a quem lhes possa aduzir vantagem de que natureza for.

Se a prostituição é a mais antiga das profissões, o graxismo talvez tenha nascido ainda antes da primeira meretriz e há-de vir o dia em que um antropólogo concluirá, que há mais ou menos um milhão de anos, quando os debutantes hominídeos em África descobriram o fogo, ao seu lado já havia outros, menos habilidosos nessas tecnologias, a engrandecer o brilho e o calor emanados da resplandecente e crepitante fogueira, que observavam, num misto de inveja e admiração, só para usufruir apenas, um pouquinho quer fosse, desse fenómeno, ao tempo inédito.

No meu caso pessoal, só muito recentemente percebi que vivia rodeado de abutres, urubus e toda a sorte de aves de rapina, e seres necrófagos e saprófitas, cada um à espera de uma migalha e de um retorno, do degradante e decadente investimento nessa coisa da bajulação de que eu era vítima sem dar conta, da qual os próprios também se enojavam, mas canalizando esse nojo para mim, ao ponto de à primeira oportunidade me darem uma merecida – pela minha ingenuidade – facada nas costas.

Quando era criança, a minha avó contava-me uma narrativa popular em que um rei com 3 filhas, lhes perguntava o quanto elas o amavam. As duas mais velhas compararam o seu amor com as coisas mais belas, enquanto a mais nova disse que o amava tanto como o sal. Esse rei, certamente um viciado carente em bajulação, ante tal resposta deserdou e expulsou essa filha do palácio até que depois de muitas peripécias, uns tempos depois, num banquete qualquer surge a caçula, não sei como, que foi encarregue de cozinhar os pratos, não usando sal na comida. Está visto que o desfecho foi o rei perceber o quão importante era o sal para a comida e perceber o quão grande era o amor dessa filha renegada, reconhecendo também a bajulação fútil das irmãs.

Na verdade as irmãs bajuladoras eram como que umas parasitas. Na natureza existem vários tipos de relações entre diferentes seres-vivos, numas há vantagens mútuas, noutras um deles ganha enquanto o outro fica indiferente, enquanto que o parasitismo é um fenómeno em que existe uma relação de dependência na qual apenas um dos lados se beneficia enfraquecendo – por vezes fatalmente – o hospedeiro que neste caso seria o bajulado. Plantas podem causar a morte de outras quando as parasitam e não podemos esquecer que até mesmo o ser humano pode ser parasitado. Ora no caso dos bajulados, não raras vezes saem bastante prejudicados por tais práticas não diria contra-natura, no sentido estrito da palavra, mas pelo menos nada favoráveis.

O parasita ou bajulador, não deixa fugir a oportunidade que a natureza ou as circunstâncias lhe dão para se aproveitarem de um sentimento tipicamente humano que jamais deixará de existir: a vaidade. É nela que está o terreno fértil onde germinam os bajuladores. Como é óbvio, reis, imperadores, presidentes e outros governantes, altas esferas militares, CEO’s, patrões, chefes, enfim, alguém que detenha algum tipo de poder, que aprecie o culto da personalidade e se entenreça com a própria imagem e individualidade narcisista, atrairá os mais infames bajuladores em quantidades bíblicas.

JLo que é tudo isto ao mesmo tempo, vive rodeado de graxistas, por vezes mais papistas que o papa, ou seja, mais lourencistas que Lourenço, e já perdeu completamente o discernimento para avaliar essa pérfida ocorrência de que é vítima, e pior ainda, refém daqueles em quem depositou confiança e que o vêm traindo e aconselhando mal – mais a pensar nos seus interesses do que nos interesses de Angola – cada vez com mais desfaçatez e falta de vergonha na cara. Isto, até que acabe por levar várias facadas nas costas, de que as autárquicas poderão ser o primeiro indício. Tal é tão evidente – o rei-presidente vai nu e ninguém o avisa – que não percebo como é que uma pessoa tão inteligente e avisada como Lourenço, ainda não deu conta que, por exemplo para apenas abordar um vector, um jornal crítico ao seu governo – como será este que o amigo leitor tem nas mãos – lhe poderá ser mais útil e leal do que eventuais e oportunistas pasquins, mesmo que avençados. Penso que sabe onde quero chegar Senhor Presidente.

William Shakespeare, sobre a arte da bajulação, na sua obra-prima “O Rei Lear” – certamente influenciou o tal conto popular que a minha avó me narrava e decerto noutros países contos similares existirão, pois a humanidade vai-se copiando entre si, no espaço e no tempo, tal como romanos se basearam nos gregos que copiaram egípcios e estes plagiaram sumérios – escrito no início do século XVII, onde se retrata a decadência do Rei Lear da Bretanha que em fins de vida, com o discernimento comprometido (como JLo) reparte o reino pelas suas três filhas, mas recusando – numa porção considerável – em fazê-lo para a mais nova, Cordélia, justamente aquela que tinha amor sincero por ele, embora não fosse astuta, ou seja bajuladora, como suas outras irmãs na arte de lisonjear o ego do rei com as mais doces e convenientes palavras.

Nessa mesma obra há também um personagem, o submisso Edmundo, cujo poder vai aumentando na razão directa com que vai fingindo lealdade a todos que o cercam, acabando por os atraiçoar, um a um, até que suba na vida, mesmo que à custa dos outros. No fim, como moral da história tudo acaba em tragédia para o graxista.

Líderes que comandam pela tirania, assim como Rei Lear, têm grandes chances de ouvir falsos elogios para não serem contrariados ou ficarem demasiado furiosos.

Por isso, devido ao temor de perder o trabalho, serem reprimidos, levar uma admoestação ou pela chance de escalar a montanha das oportunidades, dificilmente alguém dirá uma verdade impertinente e inoportuna para esse tipo de dirigente, na maioria das vezes inseguro e oscilante, e em busca de aprovação a todo momento, como é o caso do General-Presidente. Não é raro um líder autoritário rodear-se de lambe-cus e acabar sozinho quando a primeira crise aparecer. A premência da confiança, a vaidade jactante e o pusilanimidade do terror são as três pernas onde pululam e medram os chupadores do sucesso alheio. Ou seja, os bajuladores de Angola por assim dizer, que é como quem diz os bajuladores do MPLA.

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