Para não irmos mais longe debrucemo-nos no fim da II Guerra Mundial há muito menos de 100 anos por conseguinte e onde não havia internet, nem aparelhos de fax (quanto mais telemóveis), nem as fábricas tinham robots, ou o comércio fluía tão livremente ou o mundo era tão “global”.

Por Brandão de Pinho

Pela primeira vez na história da humanidade surgiram duas potências, supostamente figadais inimigas entre si, com tal desenvolvimento tecnológico militar que se uma delas iniciasse uma guerra a outra responderia e o mundo todo colapsaria como no grande dilúvio bíblico ou após a queda do meteorito que extinguiu os dinossauros.

Por um lado essas potências representavam duas ideologias completamente diferentes e de certa forma comportavam-se como religiões, cada uma a tentar evangelizar à força, primeiro domesticamente, os seus cidadãos e depois espalhá-la pelo resto do mundo como aliás determinavam os manuais do comunismo e estava subjacente ao capitalismo.

Por outro lado passadas poucas décadas, muitos dos países destruídos pela guerra tornaram-se nos mais desenvolvidos do mundo e proporcionaram ao seu povo níveis e qualidade de vidas como nunca antes nenhuma civilização humana assistira. Apesar de não serem regimes perfeitos. Que não os há.

Para isso contribuiu o aparecimento de uma classe média muito forte, educada e ampla conduzindo os governos num sentido em que as diferenças entre os muito ricos e os muito pobres fossem sendo esbatidas. Alguns desses países tornaram-se num moderno modelo social-democrata capitalista e liberal mas sem descurar os mais fracos e exaltando o Estado Social. Noutros desses países que irei falar os sistemas políticos tiveram que ser adaptados à sua cultura pois a democracia nem sempre é possível, ou sequer desejável, pelo menos numa primeira fase. A igualdade de oportunidades através da educação e demais mecanismos passou a ser um facto e a possibilidade de se subir na pirâmide social não era uma utópica miragem o que outorgava uma coisa muito importante aos seres humanos: – ESPERANÇA.

Um ser humano tem de ter esperança. Nem que seja para a imputar os benefícios dessa à sua velhice ou à geração seguinte. A evolução humana foi sendo condicionada também por esse desiderato. Só um sistema político e um governo competentes podem ter essa capacidade de instilar os seus cidadãos de confiança e esperança.

Vou dar então alguns exemplos de países outrora completamente destruídos ou inexistentes cujas recentes governações ou lideranças permitiram o seu desenvolvimento e bem-estar dos seus cidadãos em poucas décadas: Criação do estado de Israel e desenvolvimento tal, mesmo a nível militar, que quase parece que as profecias bíblicas têm natureza oracular; renascimento literal das cinzas, como Fénix, da Alemanha do pós-guerra depois das sucessivas derrotas e bombardeamentos massivos do seu território e tecido industrial; ressurgimento e reposicionamento da China Imperial como maior potência mundial fruto da cultura milenar confucionista do seu povo que nem o comunismo conseguiu destruir ou erradicar; o milagre japonês, só possível devido à sua cultura de disciplina e auto-sacrifício, que em poucos anos o transformou na segunda potência económica pese embora a limitação geográfica e de recursos; e por fim, ainda que não pelos melhores motivos, a emersão da Mãe Rússia, que após o colapso da CCCP, se viu mergulhada no mais absoluto caos e onde a corrupção e nepotismo eram tão magnificentes que faz parecer os nossos ridículos marimbondos inocentes meninos de coro, para além de que em termos de liberdade de imprensa JLo comparado com Putin é um modelo; por fim até poderia falar dos curdos que numa situação bem mais adversa que em Angola, em breve se tornarão numa referência regional ressuscitando a glória medo-persa de antanho. Os curdos têm uma reputação e colhem uma simpatia mundial elevada porque, entre outros factores são tenazes, corajosos, patriotas e ciosos da sua cultura milenar, e, mesmo sendo muçulmanos tratam bem as mulheres e os apóstatas e não deixam que religião e política se imiscuam.

Todavia eu subscrevo a teoria que quanto mais evolui uma sociedade mais infeliz se torna e que de revolução em revolução o nível de vida vai subindo na proporção inversa dessa felicidade e realização pessoal dos indivíduos, e na minha opinião, a combinação de “smartphones” (na prática computadores de bolso qual apêndice do nosso corpo), redes sociais, perda de influência do jornalismo sério e profissional para veicular informação, e por fim, a inoculação de uma falsa ilusão que as pessoas têm de si próprias e dos seus pretensos méritos e capacidades (reflexo de uma alucinação colectiva irracional), são 4 ingredientes suficientes para provocar uma mixórdia explosiva, transferindo-se o ónus da base social da família e clã para o individuo narcisista e solitário o que acabará por demolir o sustentáculo psico-social das nações.

Claro que parece ridículo falar disto quando em Angola as pessoas não têm o que comer nem sequer o que beber e muito naturalmente transferem as suas prioridades e necessidades para um patamar mais baixo da Pirâmide de Maslow. Essas pessoas podem ser perfeitamente manipuladas por regimes vigentes desde que no período pré-eleitoral sub-repticiamente lhe sejam saciadas essas necessidades mais básicas. Por isso o MPLA tem já uma grande vantagem à partida.

Creio que a Revolução Tecnológica em que vivemos terá mais influência no caos a que estamos destinados do que a Revolução Industrial – cuja faceta mais sórdida foram as crianças enfermas e famintas dickensianas labutando 16 horas por dia em ambientes fabris sombrios – que verdadeiramente constituiu um marco e transformou a sociedade e os cidadãos, ou melhor aldeões ou vilões migrantes, mais ou menos livres, em escravos voluntários fugidos das pobres, julgavam eles, aldeolas e vilarejos da chuvosa, enevoada e cinzenta Velha Albion. Dez ou doze mil anos antes a Revolução Agrícola fizera estragos bem maiores na cultura das sociedades e o caos também não demorou muito a instalar-se através da hierarquização da sociedade, criação de religiões e formação de impérios. Passou a haver fome tal a dependência de cereais, peste pela promiscuidade e proximidade das habitações fixas e guerra para defenderem ou atacarem os preciosos silos. Só que neste caso os estragos começaram no actual Iraque e não na velhinha Europa Ocidental.

Na realidade não há grandes diferenças entre as primeiras cidades sumérias e uma grande urbe actual se pensarmos bem. Se o leitor verificar quanto tempo trabalha para pagar as suas dívidas mensais e quantas tarefas tem de realizar sem qualquer tipo de protecção social quase que desejaria ser escravo de um senhor que o tratasse bem pois este tenderia a mantê-lo feliz, forte e bem alimentado para que rendesse mais no trabalho. Somos escravos mas temos a ilusão que não.

Ainda poderemos ir mais além na história da humanidade e invocar estudos científicos, que incontestavelmente dizem que os caçadores e recolectores eram mais felizes, melhor alimentados, menos doentes e com mais tempo livre.

Quem é que se levanta ainda de noite para alimentar os filhos, deixar a mulher (que dantes não trabalhava e poderia cuidar da prole) num emprego onde não raras vezes é assediada e humilhada, para depois ir depressa para o trabalho, cumprir cada vez mais e mais tarefas e objectivos com telemóvel e mail sempre a torturá-lo para resolver problemas de imediato (humanamente impossíveis de resolução num horário de trabalho normal), sair à pressa do emprego – levando trabalho e desaforos para casa – para recolher mulher e filhos, para depois comer qualquer porcaria cheia de venenos aquecida no micro-ondas e uma salada com tomates e alfaces que viajaram meio mundo até lhe chegarem à mesa?

Quem é que, desde que saiu de casa até que regressasse, passou mais de uma dúzia de horas fora do doce lar ou de um ambiente familiar e comunitário e mergulhou numa solidão opressiva transformando-se num autómato? Quem é que perdeu vínculos familiares e comunitários e sentido de solidariedade verdadeiro que permitiu ao homem destacar-se dos outros primatas? Quem é que vê, impotente, os filhos a caírem impiedosamente nos vales sombrios sem que possa fazer nada para melhorar essa situação? Quem é que foi perdendo o sentido de religiosidade e espiritualidade que por mais implausíveis e falaciosos que sejam, são essenciais para o equilíbrio dos seres humanos de tal forma que igrejas vigaristas evangélicas se aproveitam disso descaradamente? Quem é que caiu na teia do sedentarismo mais atroz porque o seu trabalho não exige esforço físico e não há tempo nem dinheiro para praticar actividades físicas?

Eu repondo. Os cidadãos da actualidade. De Luanda por exemplo. Dantes acordava-se quando havia luz, trabalhava-se arduamente, comia-se algo frugal e ia-se para casa quando escurecia. Havia tempo livre á lareira, eventualmente, para se criarem laços afectivos. Essa dieta e estilo de vida apesar de parecerem deficientes, curiosamente, servem de modelo aos ricos e classe média dos países desenvolvidos que os adoptaram e adaptaram, quer para emagrecer, quer para se manterem saudáveis, quer para recuperarem alguma sanidade mental.

Angola fez tudo mal desde a II Grande Guerra. O colono atrasou ao máximo a independência sem que proporcionasse educação e formação suficientes aos “nativos” muitos dos quais chegados ao território já depois de Diogo Cão, mas que permaneceram devido à cor da sua pele e à atitude racista de Agostinho Neto, MPLA e de alguns angolanos mais influenciáveis pois não obrigaram esses grupos de tribos invasoras recentes e estrangeiras a fugir, que se saiba, ao contrário do que fizeram aos brancos portugueses que tanto amavam Angola que tiveram de retornar nalguns casos para um país aonde nunca tinham ido. Quando é que JLo pedirá desculpa por esse erro histórico da Angola já independente? É que muitos já morreram e outros para lá caminham.

A influência perniciosa de USA e CCCP também se manifestou nesse fenómeno omnipresente de duas ideologias dominantes numa guerra fria na qual decorriam batalhas por procuração, manipulações descaradas aos “matumbos”, roubos institucionalizados e venda de ilusões. Até países secundários como Cuba e África do Sul meteram o bedelho em assuntos internos. Se em vez de um Agostinho Neto tivéssemos um Mandela, Angola seria diferente.

O carácter tribalista e a incapacidade de Portugal de fazer um país íntegro, uno e com identidade nacional como no caso do Brasil, logo após a independência, veio ao de cima e as guerras civis de que a Europa já se livrara (excepto na questão dos Balcãs e agora no leste da Ucrânia) deu a estocada final na economia e sociedade angolanas abrindo portas à corrupção e egoísmo primitivo de quem teve acesso ao poder, muitas vezes sem mérito, que canalizaram a riqueza para os seus bolsos ao invés de a canalizarem para a fazenda pública para ser aplicada na economia pátria, sobretudo na educação. Por isso, agora, Rússia e China e FMI fazem o que querem de JLo.

Pode ser que chova. Pode ser que o petróleo suba. Pode ser que as privatizações funcionem. Pode ser que os tribunais consigam recuperar o dinheiro roubado. Pode ser que ocorra um milagre ou um golpe de sorte.

Para terminar espero que a África do Sul ganhe ao ex-colono inglês, ou melhor invasor, na final do Mundial de Râguebi do Japão, sendo que os bóeres eram e são tão nativos – como afirmou Mandela e admitiu o seu corrupto sucessor no ANC – como os zulus, pelo que é o prestígio da África Austral que também está em jogo.

Que pena que em Portugal nos séculos XVI e XVII não houvesse correntes religiosas protestantes que obrigassem os seus membros a recomeçar a vida em Angola em solidariedade com os outros povos o que impediria o que quer de errado viesse a haver em Angola como há actualmente.

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