“Nós os africanos, de uma forma geral, beneficiamos de há longa data da solidariedade do povo russo durante o período das lutas de libertação contra as potências coloniais até ao alcance das nossas independências”, afirmou João Lourenço na cimeira Rússia-África que decorreu em Sochi. Na óptica de quem vai pedir fiado ou, quiçá, de um discurso politicamente correcto, não poderia dizer toda a verdade.

“A República de Angola é bem a expressão dessa solidariedade que nos permitiu vencer o colonialismo, manter a Independência e a Soberania Nacional e construirmos a nação solidária que soube interpretar os anseios de liberdade de outros povos e ajudá-los na sua luta vitoriosa pela autodeterminação”, acrescentou João Lourenço.

De facto, a então URSS ajudou uma parte dos angolanos a mudar de colonialismo, não a vencer o colonialismo. Saíram os portugueses e entraram russos, chineses, cubanos e mais uma série de outros. E só não transformam Angola numa sua colónia porque, até 2002, existiu uma organização chamada UNITA, liderada por alguém, Jonas Savimbi, que colocava os angolanos (todos os angolanos) em primeiro lugar, custasse o que custasse.

Disse João Lourenço que “a contribuição do povo russo na libertação de África pode, nos dias de hoje, ajudar a definir um modelo de cooperação que seja mutuamente vantajoso para África e para a Rússia”, admitindo implicitamente que África tem (e tem mesmo) uma dívida enorme que levará décadas a pagar. Ou seja, os russos (neste caso) não ajudaram a libertar, apenas fizeram um negócio que se chamou “libertação” mas que, é claro, poderia chamar-se “troca de donos”.

“Temos preocupações comuns sobre as questões relacionadas com a sustentabilidade ambiental, a paz e a segurança mundial e, nestes domínios, há uma grande identidade de pontos de vista entre a Rússia e o continente africano, o que pode contribuir na busca de soluções dos problemas candentes que existem no planeta”, afirmou o presidente João Lourenço

As “preocupações comuns”, a “identidade de pontos de vista” por parte de África em geral e de Angola em particular nada mais são do que a aceitação submissa, obediente, de um maldito complexo de inferioridade perante os novos senhores coloniais que vêm os africanos como uma nova forma, embora mais maquilhada, de escravos.

Infelizmente, João Lourenço (tal como José Eduardo dos Santos) prefere ser escravo de barriga cheia do que livre com ela vazia. E esta é mais uma substancial diferença entre os dirigentes do MPLA e o falecido líder fundador da UNITA que, desde sempre, preferia ser livre, mesmo quando a mandioca escasseava.

João Lourenço salientou “que está em curso um plano de diversificação da economia angolana, que criou um vasto espaço de negócios e condições seguras para acolher investimento estrangeiro, no sector energético, no sector mineral, na agricultura e agro-indústria, na indústria de equipamentos agrícolas, no sector das telecomunicações e outros”. Esqueceu-se, convenientemente, de reconhecer que o seu partido está no Poder há 44 anos e que, também com a sua colaboração activa enquanto alto dirigente e ministro, não foi capaz de diversificar a economia, bastando para isso apenas dar continuidade ao que, antes da independência, faziam os “malditos” colonialistas portugueses.

“Tenho a salientar que há hoje uma nova visão dos líderes e dos principais actores da vida política, económica e social em África, que cansada da simples exploração e exportação de nossos recursos minerais em estado bruto, defende a necessidade da industrialização do continente como condição incontornável para o seu desenvolvimento”, referiu João Lourenço.

E se para russos ver foi uma boa afirmação, para os angolanos revelou que temos estado, que continuamos a estar, a ser governados por gente inapta, por políticos que não vivem para servir mas, apenas e só, para se servirem. Afinal de quem é a culpa de sermos matumbos, de aceitarmos dar um porco em troca de uma salsicha, de hipotecarmos o país a organismos internacionais (caso do Fundo Monetário Internacional) que apenas visam o lucro e que se estão nas tintas para os que raramente sabem o que é uma refeição?

João Lourenço diz que o seu governo “defende nas nossas relações uma cooperação que nos ajude a dar esse salto qualitativo de países exportadores de matérias-primas para países exportadores de produtos manufacturados e industrializados”.

Será que só agora o MPLA descobriu isso? Será que só agora o MPLA descobriu que numa banana o que se come é o caroço? Será que só agora o MPLA descobriu que o país está em cima de um tapete rolante que anda para trás e que, por isso, limitando-se a caminhar não sai do mesmo sítio? Será que só agora João Lourenço leu o que, a 13 de Março de 1966, a UNITA decidiu no Muangai, nomeadamente quando decidiu a “priorização do campo para beneficiar a cidade”?

“Temos consciência de que o êxito da estratégia de desenvolvimento de África deve ter como pilar estruturante a capacitação técnica dos jovens africanos, que representam o grosso da população do continente e merecem, por isso, uma atenção especial, para que se tornem nos grandes protagonistas de um futuro próspero para África”, afirmou João Lourenço. A ideia é, sempre foi, boa. Mas então porque é que, segundo o ADN do MPLA, entre um génio anónimo e apartidário e um néscio com cartão do MPLA, as instituições públicas (a começar pelo Governo) e as privadas (estas para não desagradarem ao soba) escolhem sempre o néscio?

“Neste aspecto particular, quero dar um grande destaque ao papel que a Rússia, num contexto diferente, desempenhou no capítulo da formação de quadros angolanos”, referiu João Lourenço, acrescentando que “o nosso apelo vai no sentido de esperar que continuem a contribuir na formação de jovens angolanos naquelas áreas do saber mais consentâneas com a necessidade de desenvolvimento económico e social dos nossos países”.

É a perspectiva de quem, perante o ataque de um mabeco, pede ajuda a um leão. Fica com a certeza que o leão vai devorar o mabeco. O problema, o verdadeiro problema, vem depois. É que a seguir o leão vai comer quem lhe pediu ajuda.

Partilhe este artigo