Tanto quanto parece, Vladimir Putin não só encostou João Lourenço à parede como o chantageou. No epicentro da estratégia do Presidente da Rússia estará a “rainha”, também russa mas igualmente angolana, Isabel dos Santos. Neste xadrez, terá o Presidente do MPLA capacidade para responder ou, apenas, tentará jogar para uma derrota condigna, eventualmente um empate?

Por Orlando Castro

Ao juntar Isabel dos Santos e João Lourenço no mesmo evento, a Cimeira Rússia-África, e depois de ter dado a ribalta mediática à empresária no Fórum Económico Internacional de São Petersburgo, Vladimir Putin terá dado um ultimato ao Presidente do MPLA.

Assim, ou João Lourenço faz tudo o que Putin quer, nomeadamente no sentido de tornar a Rússia o primeiro parceiro económico de Angola, ou o “Kremlin” patrocinará um golpe dentro do MPLA para depor o actual presidente. E para esta decisão o líder russo conta com os “fiéis” de José Eduardo dos Santos, também eles já fartos de dois anos de governo de João Lourenço.

No caso de avançar com este golpe, Putin conta ainda com os resultados da mediática lavagem que Moscovo está a fazer da imagem de Isabel dos Santos, cujo protagonismo de estadista e empresária de sucesso “made in Rússia”, poderá beneficiar da equidistância e neutralidade do velho inimigo chinês, admitindo-se que o plano possa já ter sido discutido com o próprio Xi Jinping e até com alguns líderes africanos.

Como alternativa mais moderada e airosa, João Lourenço poderá manter-se no cargo embora garantindo que no fim do actual mandato não se recandidatará, “por razões de saúde”, sendo aí que Isabel dos Santos aparecerá como natural candidata à liderança do MPLA e, por inerência, a Presidente da República.

Relembre-se que Isabel dos Santos, mostrando um apurado sentido de oportunidade, tem criticado a falta de atractividade externa de Angola, apelando à Rússia que invista em força em África em geral e em Angola em particular, coincidindo com as teses de Moscovo.

“Qual é o investidor que vai entrar se não dão autorização aos actuais investidores estrangeiros para levarem os lucros em dólares?”, perguntou Isabel dos Santos referindo-se às dificuldades que as empresas e investidores enfrentam, nos últimos anos, para repatriar lucros e dividendos, devido à escassez de divisas em Angola.

Desde que foi exonerada da Sonangol, por decisão mais política do que técnica, Isabel dos Santos tem sido visada regularmente por várias notícias sobre alegadas irregularidades nos 17 meses de administração na petrolífera.

No entanto, Isabel dos Santos não leva desaforo para casa e a 11 de Dezembro, por exemplo, referiu-se à situação na Sonangol, acusando a administração liderada por Carlos Saturnino, de “despedimentos em massa”, nomeadamente de colaboradores que lhe eram próximos. Verdade ou mentira? Certo é que Saturnino não chegou a aquecer o lugar.

Isabel denunciou mesmo que estavam a ser “conduzidos interrogatórios à porta fechada, com gravadores em cima da mesa, alegando um falso inquérito do Estado e um falso inquérito do Ministério do Interior, intimidando as pessoas para coercivamente responderem às questões”.

“Este procedimento é ilegal. Só as autoridades judiciais ou policiais podem fazer interrogatórios. É preciso respeitar o direito dos trabalhadores”, escreveu Isabel dos Santos, acrescentando, sobre os colaboradores que estavam a ser despedidos, que muitos “recentemente largaram outros empregos para integrarem a Sonangol, porque acreditaram no país e queriam ajudar Angola a crescer”.

Dirigindo-se num almoço a um “grupo representativo da classe empresarial belga”, João Lourenço deu conta do “quadro de medidas que o executivo angolano vem tomando no sentido de atrair o investimento privado estrangeiro em Angola nos mais diversos sectores da economia”, e salientou várias iniciativas legislativas para garantir que a corrupção e a impunidade “têm os dias contados”.

O problema está no facto de estes discursos serem iguais aos do anterior presidente, José Eduardo dos Santos, que garantiu durante décadas, acenando inclusive – em 2010 – com a Lei da Probidade Pública que constituiria, segundo seu articulado mais um passo para a boa governação, tendo em conta o reforço dos mecanismos de combate à cultura da corrupção. A grande (e talvez decisiva) diferença, na óptica de Moscovo, está no facto de Eduardo dos Santos ter estado sempre nas mãos da Rússia e João Lourenço ter laivos de quem quer afastar-se da protecção do “big brother” encarnado por Vladimir Putin.

Ainda agora, na Cimeira Rússia-África, em Sochi, Isabel dos Santos disse: “Como apaixonada pelo meu país e pelo meu continente sinto que é meu dever estar na linha da frente da nova era e realidade da economia mundial, defendendo o nosso lugar, tal como fiz neste momento, partilhando um painel de debate com Mikhail Bogdanov, Vice-Ministro das Relações Exteriores da Federação Russa. É uma honra para mim poder participar activamente no desenvolvimento do nosso país e continente, procurar novas parcerias e investimentos que nos vão conduzir ao progresso. O sector privado é o futuro para África. Um futuro que está nas nossas mãos, mas ainda há muito por fazer”.

Recorde-se que a empresária Isabel dos Santos declarou no passado dia 8 de Junho, no Fórum Económico Internacional de São Petersburgo (Rússia) que gostaria que houvesse mais investimento russo nos países africanos, ao falar no painel sobre relações entre África e Rússia.

Em Angola, alguns dos mais emblemáticos e actuais peritos dos peritos do regime, a começar no Presidente do MPLA e passando pelo Presidente da República e pelo Titular do Poder Executivo, tiveram uma indigestão…

Intervindo num fórum económico em que participaram (vejam só!) os Presidentes russo, Vladimir Putin, e chinês, Xi Jinping, Isabel dos Santos destacou as oportunidades de investimento que existem actualmente no sector privado em África, nomeadamente nos da Energia e Infra-estruturas. Desta forma esvaziou tudo quanto João Lourenço possa argumentar para pedir mais fiado.

Ressalvando que o investimento da Rússia em África situa-se nos 17 mil milhões de dólares, Isabel dos Santos lembrou que a China movimenta já 120 mil milhões de dólares e citou ainda o caso da Índia que, em apenas 10 anos, passou de um investimento de 7 mil milhões de dólares para 80 mil milhões de dólares, concluindo que “há, portanto, ainda muitas oportunidades de investimento em África”.

Uma das principais áreas de investimento apontadas pela empresária foi a das Infra-estruturas: “As trocas comerciais entre os países africanos são ainda muito difíceis devido às más ligações de vias de transporte. É essencial construir um bom mapa de rotas de comércio interno para libertar o potencial africano”.

Isabel dos Santos deixou ainda um alerta sobre o facto de África não poder ser vista como um único destino ou uma única região, ao afirmar: “África é uma rede de países muito diferentes entre si, temos de olhar para as diferenças, para as necessidades de cada país e criar projectos que vão desenvolver o continente a longo prazo.”

Depois da sua intervenção, Isabel dos Santos sublinhou que “o sector privado de África é o futuro e que a Rússia e a China entenderam claramente e estão prontas para se comprometerem em novas abordagens para parcerias e investimentos no continente”.

Frisou igualmente que “estas parcerias vão levar África pelo bom caminho, o caminho do desenvolvimento, do progresso e da estabilidade”, concluindo: “Temos um continente com um potencial sem igual. Está na hora de agir, por África”.

Isabel dos Santos participou também num jantar restrito com o Presidente Vladimir Putin e 50 líderes empresariais mundiais, onde foram discutidos assuntos prementes da agenda económica global e aspectos práticos das operações das empresas dos diversos países.

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