Da minha juventude em Luanda lembro-me de conversas à volta da mesa com os meus amigos, conversas essas entremeadas de discussões de índole política, da independência de Angola que sabíamos ser inevitável, embora as opiniões quanto ao modus operandi de tal processo fossem muito discutidas (antes do 25 de Abril de 1974), de “faits-diverts” e de narrações mais ou menos épicas de familiares de alguns deles que tinham, décadas atrás, calcorreado Angola a comerciar.

Por Carlos Pinho (*)

Uma das histórias recorrentes era sobre o ódio que o homem negro naquela região de África, indo até aos confins das terras da Lunda, tinha aos mercadores árabes, devido ao comércio de escravos que estes faziam. Tal ódio era superior àquele que tinham aos portugueses, segundo me contavam na altura. Estas histórias ficaram enterradas na minha memória e embora sempre me interessasse sobre o tema da escravatura dos povos africanos, muita da literatura não técnica disponível em língua portuguesa versava essencialmente sobre a escravatura levada a cabo pelos ocidentais.

Há cerca de dois meses, vagueando por uma livraria da região do Porto, vi-me perante o livro “O Genocídio Ocultado” editado pela Gradiva e da autoria de Tidiane N’Diaye, professor universitário e pesquisador de origem senegalesa e de confissão muçulmana.

E lá fui pelo livro afora, que li de supetão, surpreendido com a dimensão e crueldade do tráfico negreiro, árabo-muçulmano, levado a cabo desde o século VII até aos nossos dias. A castração dos homens, o uso sistemático das mulheres como escravas sexuais, o assassínio impiedoso e sistemático dos filhos mestiços destas escravas sexuais, as mortandades no longo percurso em direcção à costa ou ao Norte de África, ultrapassaram de longe as descrições do tráfico negreiro levado a cabo pelos ocidentais.

As justificações de textos ditos eruditos para desculpar estes procedimentos, foi o que mais me espantou, e passo a citar Tidiane N’Diaye que refere um texto de Al-Dimeshkri numa entrevista que deu ao DN português: “Nenhuma lei divina lhes foi revelada. Nenhum profeta foi mostrado em sua casa. Também são incapazes de conceber as noções de comando e de proibição, desejo e de abstinência. Têm uma mentalidade próxima da dos animais. A submissão dos povos do Sudão aos seus chefes e reis deve-se unicamente às leis e regulamentos que lhes são impostos da mesma maneira que aos animais.” (https://www.dn.pt/cultura/interior/foram-os-arabes-muculmanos-que-comecaram-o-trafico-de-escravos-em-grande-escala-10680721.html).

Em suma, e como diz Tidiane N’Diaye, o autor do livro, o homem negro continua a ser menosprezado pelos muçulmanos árabes, para quem negro é sinónimo de escravo.

E volto a citar o autor do livro nessa mesma entrevista: “Eu só falo de genocídio para descrever o comércio de escravos transaariano e oriental. O comércio transatlântico, praticado por ocidentais, não pode ser comparado ao genocídio. A vontade de exterminar um povo não foi provada. Porque um escravo, mesmo em condições extremamente más, tinha um valor de mercado para o dono que o desejava produtivo e com longevidade. Para 9 a 11 milhões de deportados durante essa época, existem hoje 70 milhões de descendentes. O comércio árabo-muçulmano de escravos deportou 17 milhões de pessoas que tiveram apenas 1 milhão de descendentes por causa da maciça castração praticada durante quase catorze séculos.”.

No entanto, parece haver um acordo tácito entre escravizados e escravizadores, para se ignorar esta realidade, e só se olhar para os ocidentais, como os grandes opressores do povo negro. É a “Síndrome de Estocolmo à africana”. E a preocupação de muitos políticos africanos, angolanos incluídos, é que os países ocidentais lhes peçam perdão pelas atrocidades praticadas no processo de escravatura e no período colonial. Quanto aos procedimentos passados e presentes dos árabo-muçulmanos, omissão completa. Toca a enterrar a cabeça na areia. Como nada se vê, nada se passa.

Mas toda a escravatura fosse ela controlada pelos árabo-muçulmanos ou pelos ocidentais, teve conivência dos africanos. E quanto a estes, o discurso é o mesmo. Enterra-se a cabeça na areia. A história da Rainha Ginja, que para afrontar a humilhação de um governador português que não lhe ofereceu uma cadeira para ela se sentar durante um encontro entre ambos, usou uma escrava que colocada a quatro serviu-lhe de cadeira, e depois lá foi abandonada pela rainha, é um exemplo típico do comportamento de uma escravocrata. A D.ª Ana Joaquina, é outro exemplo de que toda a gente tem as mãos sujas desse comércio nefando.

Não há logicamente escravatura boa ou escravatura má. Mas há, e as palavras não são minhas, mas de Tidiane N’Diaye, diferentes graus de tratamento das pessoas escravizadas. Por isso, antes de exigirem que os ocidentais peçam perdão pelos actos passados, que tal os africanos começaram por exigir aos árabo-muçulmanos que se retractem, quiçá indo de gatas e às arrecuas até Meca, de preferência cruzando o Deserto do Sara de ocidente para oriente.

Este livro, “O Genocídio Ocultado” da autoria de Tidiane N’Diaye, devia de ser de leitura obrigatória para todos os políticos angolanos.

Não é único, pelo contrário, é um bom ponto de partida para se avaliar a história de África numa perspectiva diferente daquela que é hoje considerada a politicamente correcta. Aí se aprenderá que muito antes do Novo Mundo ou do apartheid na África do Sul, o mundo árabe inventou uma segregação racial de exclusão dos negros, ao lado de quem nunca se andava na rua e que os cristãos também não estiveram isentos de críticas, pois segundo o autor a escravidão foi abençoada e legalizada por São Paulo e Santo Agostinho, e até, antes disso, por Aristóteles. Citando mais uma vez e para terminar o autor, Tidiane N’Diaye, “…cada um puxa a brasa à sua sardinha!…”.

Em suma, nenhum de nós fica bem na fotografia.

(*) Professor da FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

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