Em Angola ainda não há muito tempo em termos de liberdade de imprensa e de expressão, a situação era bastante diferente da actualmente vivida neste tirocínio de Lourenço. Mas o curioso é que a liberdade de imprensa não só pode ser castrada por motivos políticos (como era o caso de Angola), mas também, por motivações económicos, por pressões de patrocinadores e anunciantes, pressões sociais ou até pela subalternização ao politicamente correcto.

Por Brandão de Pinho

Há alguns dias o New York Times (NYT) – um alvo costumeiro de acusações de publicação de “Fake News” (FN) por parte Donald Trump e sua trupe, sempre que publicava uma notícia do desagrado destes e que não poderiam desmentir categoricamente – republicou um cartoon.

Mas antes de passarmos ao cartoon, debrucemo-nos um pouco na fenomenologia das FN e no seu grande problema, dado que na medida em que são tão comuns, qualquer um que – em especial biltres da categoria de Trump – não tendo maneira como se defender de uma noticia (verdadeira e legítima) imputam-lhe esse epíteto, ao ponto de algumas pessoas, especialmente as mais fanatizadas e incapazes de esgravatar outras formas de atingir a verdade e discernir as coisas, caírem nessa esparrela.

O cartoon em causa era do jornalista português de nome artístico António, colaborador do mais importante semanário luso – O Expresso; e retratava um Trump de óculos escuros típicos dos invisuais, com um kipá judeu a cobrir-lhe a rala cabeleira alaranjada e a segurar numa trela presa a uma coleira com uma Estrela de David apensa, circundando o cachaço de um longilíneo cachorro com as feições antropomorfizadas de Bibi (o primeiro-ministro israelita Netanyau).

Quando vi esse cartoon no sábado achei-o tudo menos anti-semita e até bastante ligeiro, sobretudo se tivermos em conta a polémica que este cartoonista causou há muitos anos quando retratou o então Papa João Paulo II com um preservativo no nariz. Na verdade achei que verdadeiramente aquela imagem valia as confuncianas mil palavras pois retratava a forma hábil e ardilosa, levemente e nada maquiavélica a forma como os israelitas (não confundir com os judeus) têm levado a sua política avante com a colaboração do ainda mais importante actor mundial como é o caso dos americanos.

Ora em relação a isto colocam-se me várias questões, algumas das quais não verdadeiramente escalpelizadas por quem deveria sobretudo o NYT e jornais portugueses, europeus e mundiais.

Sendo os EUA esses grandes arautos da liberdade mormente a de expressão, faz algum sentido que um cartoon bastante suave e comedido aliás – sobretudo se os compararmos com o que por esse mundo fora se faz e em Angola por exemplo já vi cartoons do Sérgio Piçarra bem mais acutilantes – tenha de ser removido da edição digital obrigando a humilhantes retratamentos culpando um editor estagiário à laia de bode expiatório?

Terão noção os americanos que a reprodução do kipá e da Estrela de David foi mais para os leitores portugueses (que ainda são um pouco ignorantes no que toca a política internacional) identificarem claramente Netanyau do que para difamar e blasfemar a simbologia sionista, como aliás o atónito António admitiu?

Faz algum sentido que uma minoria da população mundial e americana de etnia judia – que por mais abastada e influente que seja – tenha o direito de obrigar o uso do lápis azul por parte dos editores e administração do pasquim nova-iorquino?

E se tivermos em conta o que ocorreu há uns anitos, sobretudo aquando dos ataques ao folhetim satírico Charlie Hebdo, que num cartoon representando Alá melindrou os muçulmanos originando represálias destes – não só sobre a célebre revista como também numa mercearia koscer judia – e cuja reacção e pressão dos islâmicos tão ríspida e violentamente foram criticadas pelos judeus, pelo facto da liberdade de expressão ter ficado comprometida com tais bárbaros ataques, há alguma lógica e coerência?

Há alguma explicação racional para o pedido de desculpas às forças vivas sionistas pela publicação de um inócuo cartoon pejado de muito humor e não ter havido um mais veemente pedido de desculpas ao cartoonista António ou ao semanário Expresso que viram violados os seus direitos de autor e intelectuais pela reprodução sem autorização do tal cartoon?

Para concluir devemos reflectir muito bem em quem confiamos para nos dar a informação, opinião e análise pois os jornais são empresas como as demais vocacionadas para o lucro e como tal têm de honrar as suas despesas no final do mês pelo que pode ser uma tentação ir cedendo a pressões mais ou menos veladas por parte de quem as pode fazer.

Felizmente que o Folha 8 mantém – de há 25 anos a esta parte – um compromisso inviolável, quase sagrado, com os seus leitores de os informar com verdade, só a verdade e nada de muito mais do que a verdade, doa a quem doer.

Imagem: Criação de JFR para o Folha 8

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