A deputada do MPLA ‘Tchizé’ dos Santos, filha do ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos, disse desconhecer qualquer processo disciplinar que lhe tenha sido movido pelo partido, falando de “jogada política”, e disse estar a ser ameaçada. O MPLA é mesmo isto. Pouco mais do que uma seita (grupo organizado que tem ideias ou causas em comum).

Na quarta-feira, o órgão oficial do MPLA, Jornal de Angola, noticiou que a Comissão de Mandatos, Ética e Decoro Parlamentar da Assembleia Nacional agendou, para o início do mês de Setembro, uma audição sobre a ausência prolongada da deputada do MPLA nas reuniões plenárias e trabalhos do Parlamento.

Em declarações ao jornal, o presidente da comissão, Justino Pinto de Andrade, confirmou haver, internamente, um processo disciplinar contra ‘Tchizé’, devido às ausências reiteradas e prolongadas, garantindo nada ter a ver (obviamente!) com as posições críticas e pessoais da deputada… “fraccionista”.

Em Maio, ‘Tchizé’ acusou o actual Presidente do MPLA, João Lourenço, de estar a fazer um “golpe de Estado às instituições” em Angola, pedindo a sua destituição.

Na mesma ocasião, afirmou que estava “involuntariamente” fora do país devido à doença da filha e que há vários meses estaria a ser “intimidada” por dirigentes do partido no poder desde 1975. Intimidada? Alguém acredita que o MPLA que protagonizou o 27 de Maio de 1977 é capaz de tal barbaridade? Ninguém acredita.

Questionada agora pela Lusa, a deputada disse que, a confirmar-se a notícia do processo disciplinar, irá recorrer a um advogado e ao Tribunal Constitucional (sucursal do MPLA) “se necessário” para contestar a decisão.

“Aproveitam-se do período de férias parlamentares, que vai de 15 de Agosto a 15 de Outubro, no qual pode deliberar apenas uma comissão permanente para tentarem fazer passar isto”, criticou, tendo em conta a redução do número de deputados. No fundo, “é uma jogada política que será julgada por todos os angolanos”, continuou.

A parlamentar considerou o que está a acontecer em Angola como “uma pouca-vergonha”, sobretudo numa altura em que o país “tem, pela primeira vez, um Presidente da República eleito em período de paz, com uma Constituição aprovada e num clima de democracia”.

Salientando que o segundo Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, foi “um Presidente de transição da ditadura formalmente dita [de Agostinho Neto, primeiro Presidente] para um Estado de direito e de economia de mercado” e que “fez evoluir o país”, ‘Tchizé’ dos Santos não poupou críticas ao herdeiro do seu “legado” João Lourenço.

“Vai para o Japão propalar que está a construir, a edificar, a fortalecer o verdadeiro Estado democrático de direito quando dentro de Angola faz o contrário, manipulando instituições, mandando no parlamento, o que é um total e tremendo abuso de poder”, salientou a deputada.

‘Tchizé’ afirmou ainda que a sua geração “exige a democracia e a materialização da mesma”, e “se a geração dos mais velhos não consegue adaptar-se deve sair e não concorrer às próximas eleições”.

A parlamentar garantiu que vai pedir “apoio a todos os deputados para que haja uma comissão parlamentar de inquérito” sobre as suas alegações de perseguição.

‘Tchizé’ dos Santos afirmou ter sido ameaçada de morte, no plenário, por um colega de partido, por não ter votado da forma que “ele entendia” e que lhe disseram “para ter cuidado porque podia ser envenenada”, uma situação que a afecta a si e à sua família.

Segundo o Jornal de Angola, a Assembleia Nacional já tem a notificação para a deputada, mas ainda não conseguiu localizá-la.

O ataque é sempre (ou quase) a melhor defesa

“T chizé” dos Santos afirmou noutra altura que a transição no poder não é a que Angola esperava, defendendo que o Presidente da República deve deixar de ser o “único” que pode “brilhar”.

Será que ela ainda se lembra de, em plena Assembleia Nacional, alguém do MPLA lhe ter perguntado: “Sabes quantas pessoas foram assassinadas no 27 de Maio de 1977?”

Numa altura em que comentava apenas os primeiros meses de governação de João Lourenço (que sucedeu ao pai, de quem foi vice-presidente no MPLA e ministro da Defesa), e que estava na altura no auge da caça aos membros do clã Dos Santos, numa acção que se analisada a óptica da sua racionalidade económica se revela mais como um acerto de contas pessoais, “Tchizé” dos Santos afirmou: “Eu não posso afirmar isso [caça às bruxas], porque se afirmar isso se calhar saio daqui e sou processada pelo Presidente da República por difamação”.

Tendo na altura presente o momento de tensão entre o actual Presidente, João Lourenço, que acusou José Eduardo dos Santos de ter deixado os cofres públicos “vazios”, prontamente refutadas pelo ex-chefe de Estado, a deputada confessou a sua surpresa.

“Eu falo como angolana, não era a transição que nenhum dos angolanos esperava. Para mim, a transição era uma festa, um momento ímpar e havia ali uma transição extremamente pacífica e sem contradições. Entretanto, pelas declarações do ex-Presidente e do actual Presidente, há uma contradição pública, não é desejável para nenhum partido político”, no caso o MPLA (partido no Poder desde 1975), afirmou.

Além deste momento, a transição ficou marcada também mas não só pela prisão de um dos filhos de José Eduardo dos Santos, José Filomeno dos Santos, investigado pela gestão do Fundo Soberano de Angola.

“Nós não queremos novos heróis, não queremos novos presos políticos e gostava de pedir que todos se abstivessem da tentação de manipular, ou tentar manipular, os órgãos do Estado, usando qualquer tipo de influência”, criticou.

Por isso, enfatizou “Tchizé”, Angola arrisca actualmente “perder uma grande oportunidade de fazer um ‘restart’ [recomeço]”, na actual liderança de João Lourenço.

“Mas ‘restart’ não quer dizer que se vai perdoar incondicionalmente os erros todos que acontecerem para trás e as pessoas que cometeram uma série de erros que afectaram todos”, disse.

Nesse sentido, a deputada do MPLA (escolhida para estas funções antes da liderança partidária de João Lourenço) defende que o governo deve “apenas priorizar o que é de facto importante. Há mais angolanos a passar fome do que há um ano atrás, há dois anos atrás, há três anos atrás, vamo-nos focar nestas pessoas”.

Recorrendo ao lema “Melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”, adoptado pelo MPLA partido pelo qual é deputada há três mandatos além de membro do Comité Central, desde 2017, ainda com José Eduardo dos Santos, “Tchizé” dos Santos reclamou por uma mudança.

“O corrigir o que está mal também passa por deixarmos de vivermos num Estado em que o única que pode ter opinião é o Presidente da República, que a única pessoa que pode aparecer, brilhar e ser aplaudida é o Presidente da República. Numa democracia, num país, há vários actores, em várias áreas”, criticou. Isto, é claro, se Angola fosse uma democracia…

“Tem que haver uma nova geração de políticos e alguns mais-velhos, que existem e que são ponderados e que são pela conciliação, que diga ‘desculpem, mas não foi esta a Angola que todos sonhamos’. A Angola que todos sonhamos, que José Eduardo dos Santos, apesar de ser odiado por muitos, mas que é amado por muitos mais, construiu connosco é uma Angola do diálogo, da conciliação, do perdão e da reflexão e da projecção do futuro”, afirmou.

Para “Tchizé” dos Santos, ao não ter avançado com a recandidatura a Presidente da República nas eleições de 2017, tendo então avançado João Lourenço, José Eduardo dos Santos fê-lo “justamente para que pudesse ser lembrado como um bom patriota e democrata”.

“Não se volta a candidatar, faz uma transição no poder, porque queria em vida ver a consolidação e a consagração dessa democracia que hoje em dia é irrefutável”, apontou a empresária e política angolana, afirmando que o pai “não teve vida própria dos 37 anos de idade até hoje” por causa de Angola.

“Está na hora de os angolanos entenderem que os José Eduardo dos Santos fez questão que a democracia angolana fosse irreversível ao dar o passo que deu e todos nós devemos saber honrar, tal como honramos a paz efectiva, o calar das armas, acho que devemos saber honrar esse exemplo, único em África (…) Então, agora vamos aceitar que por conveniência politica — porque política é conveniência — por bajulação, por adoração, por incompreensão dos tempos ou incapacidade de leitura da História se continuem a cometer os mesmos erros?” – questionou ainda.

Diz “Tchizé” dos Santos sobre o seu pai: “Em 1979 [quando sucedeu ao primeiro Presidente angolano, António Agostinho Neto], o Presidente tinha poder discricionário, a primeira coisa que ele fez foi ter querido deixar de ter poder discricionário para mandar matar as pessoas. Aboliu a pena de morte”.

Folha 8 com Lusa

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