Para a agência financeira Moody’s, o “perfil de crédito de Angola reflecte uma “baixa força económica” com “perspectivas económicas modestas”, acrescentando os peritos (que, é claro, se esqueceram de ouvir os seus homólogos do… MPLA) que a solidez financeira é “muito baixa”. Tudo normal e na santa paz (e sabedoria) de quem nos “governa” desde 1975.

Assim, a Moody’s (que agora resolveu azucrinar a intocável competência “tripartida” do Presidente do MPLA, do Titular do Poder Executivo e do Presidente da República) considerou que o “rating” atribuído a Angola (B3) é adequado devido à forte subida do endividamento durante a queda dos preços do petróleo e às “modestas” perspectivas de evolução da economia.

O perfil de crédito de Angola reflecte uma “baixa” força económica, com perspectivas económicas modestas a médio prazo e níveis relativamente baixos de riqueza numa economia petrolífera caracterizada pelos baixos níveis de diversificação e competitividade”, lê-se numa nota da Moody’s.

Na análise, que pretende averiguar se os “ratings” atribuídos a vários países e bancos africanos está adequada não só aos pares, mas também às condições da economia, os peritos da Moody’s lembram que a solidez financeira é “muito baixa’, “em parte devido ao rápido crescimento da dívida durante o choque petrolífero, excedendo 75% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2018″.

A força institucional “muito baixa’, afirmam, “é indicativa da fraca capacidade das autoridades no que diz respeito à eficácia do governo e à capacidade para implementar políticas”.

Essa não! Fraca capacidade das autoridades? Será que os peritos da Moody’s não levaram em linha de conta a análise, recentíssima, do Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa?

A permeabilidade a um evento de risco, por seu turno, é “moderada”, essencialmente devido aos riscos de falta de liquidez, que foram “potenciados pelo alto nível de endividamento” nos últimos anos.

A Moody’s divulgou esta segunda-feira um conjunto de análises aos principais países do continente africano, incluindo Angola, Moçambique, Nigéria, Egipto, Ilhas Maurícias, Arábia Saudita, Omã e África do Sul, entre outros.

Segundo a mesma informação, a agência de “rating” refere que conduz estas análises periódicas “através da revisão do portefólio, nas quais a Moody’s reavalia a adequação de cada “rating no contexto da metodologia, desenvolvimentos recentes e uma comparação do perfil financeiro e operativo dos pares, que também são avaliados”.

Onde estão as diferenças… se é que existem

Estávamos em Dezembro de 2015. Um estudo da Moody’s dizia que o sistema financeiro angolano era (era?) o mais vulnerável em África, considerando 32 países analisados.

No estudo ao sistema financeiro de Angola, a Moody’s considerava que o cenário em cinco das seis alíneas analisadas iria degradar-se em 2016: o ambiente das operações, o risco dos activos, o lucro, o financiamento e a liquidez, e o apoio do Governo.

A única alínea que não deveria piorar no próximo era a que analisava o capital, que a Moody’s previa que se manteria estável em 2016.

“Os crescentes riscos de crédito vão ser equilibrados contra lucros resilientes, almofadas de capital sólidas e financiamento baseado nos depósitos”, escreveu a agência de notação financeira no relatório ‘Banking – Africa 2016’.

“Os sistemas bancários mais vulneráveis são Angola, Nigéria e o Gana”, acrescentava o documento, onde se lia que, numa perspectiva global, “o abrandamento do crescimento económico, a depreciação da moeda e a saída de capitais – mais aguda nos bancos em países exportadores de matérias-primas; a gestão de risco e a capacidade de supervisão ainda em desenvolvimento; e a cobertura modesta das perdas num contexto de enquadramento legal fraco” são as principais razões para a subida dos riscos na qualidade dos activos.

No relatório que elegeu Marrocos e o Egipto como os países com o sistema financeiro mais resistente, os peritos da Moody’s afirmavam esperar um aumento dos depósitos entre 10 a 12%, no geral, mas sublinham que “o crescimento do crédito na Nigéria e Angola vai desacelerar significativamente, para baixo do crescimento do Produto Interno Bruto”.

Em Outubro do mesmo ano, a Moody’s tinha afirmado esperar um crescimento de 4% este ano e uma aceleração para 4,7% em 2016: “Angola está a lidar com um choque petrolífero na sua economia dependente do petróleo”, diziam os analistas, notando que o país “está mais bem preparado do que estava em 2009, e as suas respostas políticas foram mais rápidas e abrangentes num esforço para prevenir as almofadas orçamentais de que dispõe e preveniu uma perda de competitividade”.

Ainda assim, “a posição externa deteriorou-se significativamente, e a posição fiscal e as perspectivas de crescimento pioraram a curto prazo”, disse a Moody’s em Outubro.

Moody´s, regime, jovens

Em Novembro de 2015, a analista da Moody’s que seguia a economia de Angola considerou que o país tem “todos os ingredientes” para ver os jovens forçarem mudanças no regime e dizia que a evolução política depende da economia.

Questionada sobre se o país pode viver uma espécie de ‘Primavera Angolana’, Rita Babihuga respondeu que “nunca se sabe o que pode ser o gatilho ou a fagulha que desencadeia um movimento desses”, mas sublinha que esse foi um cenário considerado na agência de ‘rating’.

“Os ingredientes estão todos lá – alto nível de desemprego, população jovem, mais envolvida do que há 10 ou 20 anos, e mais desperta para o que se passa no exterior”, disse Rita Babihuga.

A analista argumentou que a chave para o futuro político de Angola estava na economia: “O que acontece na economia é muito importante para determinar se a população fica mais reivindicativa ou não”, desde logo pela disponibilidade de verbas para investimentos que garantam emprego aos jovens.

“Angola tem um ambiente externo desafiante, e talvez não agora, que ainda tem a situação controlada, mas num cenário de contínua degradação do ambiente externo e sem os recursos petrolíferos para continuar a garantir a expansão económica que manteve o descontentamento controlado, então mais lá para a frente os impactos do desemprego muito alto podem ser motivo de preocupação”, disse.

Se o futuro é incerto, não só pela previsível manutenção dos preços baixos do petróleo, mas também pelo abrandamento da economia chinesa, um dos principais parceiros e investidores em Angola, o passado oferece optimismo, a avaliar pelo muito que foi conseguido desde a independência, mas principalmente desde o fim da guerra civil, considerou.

“Angola ganhou a reputação na última década de uma economia em rapidíssimo crescimento, e isso é um feito em si próprio, o facto de a economia mostrar a capacidade de gerar elevadas taxas de crescimento durante um período largo, o que sustentou uma transformação económica num curto período de tempo”, disse a analista.

Numa década, apontou, “Angola passou de país de baixo rendimento com um rendimento “per capita” de 700 dólares, em 2003, para quase 5 mil, em 2014, o que é um feito extraordinário que diferencia o país de muitos outros em todos os níveis de desenvolvimento”.

Questionada sobre a capacidade do país para aproveitar essas altas taxas de crescimento e atacar os problemas sociais comuns nos países pós-guerra civil, Rita Babihuga disse que “em Angola ainda há muita desigualdade”, mas salienta que a situação “é comum a muitos outros países no seu nível de desenvolvimento”.

Se tivesse de escolher uma prioridade, a analista escolheria a diversificação económica como o “chapéu” mais alargado, sob o qual várias reformas precisam de ser lançadas.

“Uma das reformas-chave que gostamos de enfatizar é a diversificação da economia, até porque as receitas de um sector com o petróleo são mais difíceis de canalizar para outros”, disse a analista, concluindo que “o crescimento na agricultura é importante porque representa uma grande concentração de pessoas, e um crescimento sustentado em sectores onde a população rural está muito envolvida vai ajudar a aumentar os níveis de igualdade”.

Folha 8 com Lusa

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