A malária provocou, este ano, em Angola, 486 óbitos de um total de 490.354 casos da doença, a primeira causa de mortes no país, segundo dados do Ministério da Saúde. Problema sem importância, comentará com certeza o auto-intitulado “estadista” Marcelo Rebelo de Sousa. Importante são outros dados, acrescentará. Quais? A manutenção do “status quo” dos seus amigos do MPLA.

Os dados constam do relatório diário da Comissão Interministerial de Combate às Endemias do Ministério da Saúde angolano. Já o Boletim Semanal das Doenças Potencialmente Epidémicas, referente à quinta semana epidemiológica do país, no período entre 28 de Janeiro e 3 de Fevereiro, dá conta que foram notificados 119.966 casos, com 166 óbitos.

Deste total, também a província do Uíge lidera a lista de casos com 20.566 do total, bem como a de óbitos, com 52 mortes.

Os números indicam um aumento significativo de casos, comparativamente à semana anterior, período em que foram registados 59.994 ocorrências. Em 2018, as autoridades sanitárias angolanas registaram 4,4 milhões de casos, dos quais 9.599 resultaram em óbitos.

Sessenta crianças morreram de má nutrição severa e aguda moderada, de um total de 3.978 casos registados no decurso dos últimos nove meses de 2018 em diferentes unidades sanitárias da província do Cunene. Em linguagem simples: morreram de fome.

A informação foi prestada em Novembro do ano passado pelo supervisor provincial do Programa de má nutrição, Tiófilo Emílio, avançando que a maioria dos casos de má nutrição é proveniente das zonas rurais e deve-se ao desmame precoce, às condições alimentares precárias e abandono das crianças pelas mães, bem como o surgimento de doenças diarreicas.

Tiófilo Emílio aconselhou as mães a amamentarem os filhos pelo menos até aos dois anos de idade, para que possam crescer de forma saudável, assim como a realizarem consultas de planeamento familiar, para evitar gravidez não planificada.

Outra medalha de mérito conseguida pelo MPLA (o único partido no poder há 43 anos) refere-se à malária que causou até 29 de Outubro 6.656 mortes, de um total de 2.594.709 casos daquela que é a principal causa de morte por doença em Angola, segundo dados do Ministério da Saúde.

Mesmo não tendo cartão de militante do partido, a malária continua satisfeita, tal como Marcelo Rebelo de Sousa que por cá anda a despacho, com a governação do MPLA. Saiu José Eduardo dos Santos e entrou João Lourenço e, ao fim de quase um ano e meio de actividade do novo Presidente, a doença continua no primeiro lugar do pódio.

No dia 8 de Fevereiro de 2017, o então ministro da Saúde, Luís Gomes Sambo, dizia que a malária era “um drama para o país”. Um drama que ontem, como hoje e certamente amanhã, atinge sobretudo os 20 milhões de angolanos pobres. Mas os donos do reino continuam a sorrir…

Angola e Moçambique estão entre os oito países com mais mortes por malária no mundo, representando juntos 7% do peso global da doença, revelou um relatório da Organização Mundial de Saúde sobre o paludismo. Nada de anormal, portanto.

O país com maior peso nas mortes por malária é a Nigéria, que reúne 26% do total de mortes, seguido da República Democrática do Congo, com 10%.

A Índia, com 6%, o Mali com 5%, a Tanzânia e Moçambique com 4% cada, o Burquina Faso, Angola, Costa do Marfim, Gana, Uganda e Quénia (3% cada), e o Níger, são os restantes 11 países.

Malária em vias de uma extinção… marcelista!

Uma equipa de investigadores do reino do “estadista” Marcelo descobriu que o parasita malária e a bactéria ‘E.coli’ evitam a sua destruição através da modulação de proteínas receptoras da célula hospedeira.

Num artigo agora publicado na revista científica “Scientific Reports”, os investigadores explicam que até agora sabia-se que várias bactérias e parasitas se servem da maquinaria da célula hospedeira para seu proveito, evitando a sua própria destruição, ou fagocitose, sem que em muitos dos casos se saiba exactamente como e que agora foi descoberto o mecanismo pelo qual estes microrganismos subvertem a fagocitose da célula hospedeira.

“O sistema imunitário tem como função defender as células de agentes patogénicos externos ao organismo. A primeira linha de defesa é operada por células como os macrófagos, os neutrófilos e as células dendríticas, cuja função é fagocitar (“fagos” = comer e “citos” = célula), ou, por outras palavras, internalizar e destruir os agentes patogénicos” adiantam a equipa de investigadores do Centro de Estudos de Doenças Crónicas (CEDOC-NMS|FCM) da Universidade Nova de Lisboa e do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), liderada por Duarte Barral (CEDOC-NMS|FCM).

A fagocitose é o englobamento e digestão de partículas sólidas e micro-organismos por células, processo que nos humanos está ligado directamente ao processo imunológico.

Duarte Barral explica num comunicado que o estudo representa “um valioso contributo para o crescente conhecimento não só das estratégias usadas por estes microrganismos, mas também dos mecanismos de defesa das nossas células contra eles”.

“Futuramente, este conhecimento poderá ter importância no desenvolvimento de novas estratégias para combater infecções provocadas por este tipo de microrganismos”, adianta.

Num estudo anterior, os investigadores tinham já demonstrado que o parasita da malária ‘Plasmodium berghei’, e a bactéria ‘E. coli’, ao infectarem as células do hospedeiro levam ao aumento da expressão de proteínas da célula hospedeira, cuja consequência é a inibição da fagocitose e consequentemente da destruição dos parasitas.

Duarte Barral, salienta que “é interessante que uma bactéria e um parasita tenham evoluído independentemente estratégias semelhantes de escapar à sua destruição, provavelmente por ser a forma mais eficiente de o conseguir; isto revela um conhecimento profundo dos mecanismos celulares por parte dos microrganismos, resultado de milhões de anos de co-evolução”.

A malária segundo o Jornal de Angola

Em Abril de 2012, o Jornal de Angola (esse órgão de referência mundial, cuja leitura é obrigatória por parte de “estadistas” do gabarito de Marcelo) escrevia que as autoridades sanitárias angolanas previam iniciar, a partir de 2015, o processo de pré-eliminação da malária, a doença tropical que mais óbitos provoca no país. Em manchete escrevia: “Malária em Angola em vias de extinção”.

O coordenador do Programa de Luta contra a Malária explicava que a probabilidade de Angola iniciar o processo de pré-eliminação da doença residia na contínua redução de casos da doença. Notável. Nem mesmo Marcelo Rebelo de Sousa conseguiria ser mais assertivo.

Filomeno Fortes, que falava à margem da reunião extraordinária da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) sobre saúde, frisou que as autoridades angolanas e os seus parceiros estavam empenhados em baixar, cada vez mais, o índice de mortalidade por malária no país.

“A manter-se este nível de redução, a partir de 2015 podemos pensar na possibilidade da pré-eliminação da doença no país”, sublinhou Filomeno Fortes.

O médico disse que, há dez anos, o país registava 20 mil óbitos por ano, mas actualmente o número baixou para uma média de seis mil, devido ao esforço desenvolvido pelo Executivo (como acontece desde 1975) no sector da saúde, que estabelece a redução de casos de paludismo entre as populações.

Filomeno Fortes disse acreditar que, em 2013, iria haver uma diminuição da mortalidade por malária, cuja cifra deve fixar-se em cerca de quatro mil óbitos por ano.

O médico revelou haver falsos diagnósticos de malária devido à existência de certos vírus que provocam sintomas semelhantes aos causados pelo paludismo.

“Realizámos estudos que comprovam a existência de alguns vírus que provocam quadros clínicos parecidos com os da malária, como febres, dores de cabeça e articulares”, acentuou Filomeno Fortes. Sobre este assunto, salientou que, por não haver capacidade para a realização de um diagnóstico diferencial, certos técnicos de saúde continuam a diagnosticar falsamente esses casos como malária.

O presidente da reunião de peritos da SADC, Augusto Rosa Neto, disse que foi aprovada a assinatura de um memorando de entendimento para a criação de laboratórios supranacionais de referência, em centros regionais de excelência.

“Neste momento, existem laboratórios na África do Sul, Zimbabwe e Botswana, que vão atender os casos de malária, tuberculose e VIH/Sida dos países membros da SADC”, informou.

Os laboratórios nacionais vão continuar a funcionar normalmente, mas os que não têm condições para realizar exames podem enviar para os países membros que dispõem de capacidade.

O Lesoto, as Ilhas Maurícias e as Seychelles são os três países da SADC que já não registam casos de malária, enquanto Moçambique é aquele que regista o maior índice de casos. Na altura, a directora nacional adjunta de Saúde Pública de Moçambique, Rosa Marlene, apontou como causas principais a situação epidemiológica e as questões ecológicas resultantes do clima.

“Melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”, afirma o MPLA numa máxima que poderá ser adoptada em Portugal, já que – por especial cortesia para com Marcelo Rebelo de Sousa – João Lourenço abdica dos direitos de autor. Não havendo nada para melhorar, quando chegará a vez de corrigir o que está mal e que é (quase) tudo?

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