Assinala-se hoje, 6 de Março, 26 anos sobre os «55 dias da Guerra do Huambo» que opôs as forças do Governo (FAPLA) às da UNITA (FALA) pela tomada da cidade capital do planalto central. Foi um dos capítulos mais sangrentos na guerra urbana angolana que se seguiu às eleições de 1992, na qual morreram milhares de pessoas, outros tantas ficaram feridas e a cidade ficou quase que reduzida aos escombros.

Muitas vítimas sucumbiram como resultado dos tiroteios, dos bombardeamentos da artilharia, aviação, à fome, de doenças, ou vítimas das perseguições políticas. A «Guerra dos 55 dias», como ficou célebre e tristemente conhecida teve a cobertura para a SIC do director do Folha 8, William Tonet.

Na guerra do Huambo, após as primeiras eleições gerais em Angola, William Tonet esteve enquanto Jornalista na frente de combate acompanhando as FAPLA. Perante a derrota destas e consequente recuo, foi baleado e andou cerca de um mês a pé com os comandantes das FAPLA, até Benguela, onde seriam resgatados. Totalmente fragilizado e com uma bala cravada na perna, o Jornalista foi evacuado pelas autoridades portuguesas para Lisboa, onde seriam exibidos os primeiros vídeos da derrota, o que acabou por irritar as autoridades angolanas, que até hoje não lho perdoam.

No hospital foi-lhe detectada uma úlcera no estômago, por ter ficado semanas sem comer, úlcera que até hoje é responsável pelo seu estado de saúde.

Importa igualmente recordar que quando o MPLA, nos finais dos anos 80, forçou o nosso Director, William Tonet, a abandonar o país, Emídio Rangel foi o primeiro que, depois de ouvir a sua experiência numa pequena rádio pirata, que tinha na Pontinha, a estender-lhe a mão e levá-lo para o seu projecto pioneiro na TSF. Quanto orgulho, ainda hoje embaciado pelas lágrimas da dor da partida do Emídio (13 de Agosto de 2014), Tonet tem por ter sido um dos quadros de uma rádio que é um marco. Aliás, por alguma razão, em Portugal e em matéria radiofónica, existem dois períodos: o antes e o depois da TSF.

Também não nos esquecemos, caro Emídio Rangel, que quando Pinto Balsemão te convidou para seres o Pai, a Mãe e tudo o resto do projecto SIC, escancaraste as portas para que o William entrasse de corpo e alma no canal. Foi, aliás, um dos primeiros pretos com relevância a surgir nas telas lusas.

“O seu humanismo e sentido de dever e de líder marcou-me ainda de tal forma, que em 1993, durante a guerra do Huambo, quando consegui sair da província, o Emídio Rangel logo enviou para Luanda o Paulo Camacho, com sete (7) bilhetes para mim e para a minha família, que estava em Angola, para me fazerem companhia, durante a recuperação, pois ele imaginava-me em estado muito critico, ao ponto de ter, negociado com a Sabena, para atrasar o voo, até que eu chegasse de Benguela e pudesse embarcar no mesmo dia. Em Lisboa um grande aparato médico esperava-me na pista do aeroporto, para me transportar para uma das melhores unidades de saúde onde fui submetido a todos os testes”, recorda William Tonet.

Diz ainda o nosso Director que “foi um gesto de grande nobreza. Ademais, durante todo o tempo que estive em palcos internacionais de guerra, Emídio Rangel sempre fez questão que os meus salários chegassem à minha família. Foi um grande chefe. Um grande líder. Um enorme amigo. Um compatriota. Um grande profissional da lusofonia”.

“Eu sou fiel aos meus ideais e compromissos. Na altura, a minha entidade empregadora era a SIC, tanto que estava acreditado em Angola, pelo Centro de Imprensa Aníbal de Melo, como correspondente internacional, portanto nunca traí ninguém, fui apenas fiel aos meus princípios e tudo o resto é diversão e calúnia de gente bajuladora e desinformada. No entanto um dia a verdadeira história sobre quem resistiu, quem comandou a resistência e quem fez o quê para que houvesse uma das maiores colunas de recuo organizado, virá a lume, e aí muita água irá correr por debaixo da ponte”, afirma William Tonet.

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