Isaías Samakuva vai mesmo recandidatar-se à liderança da UNITA, no XIII Congresso do partido, que se realiza entre os dias 13 e 15 de Novembro deste ano. E assim vai a oposição política e partidária que o MPLA permite, e agradece, que exista em Angola.

A 13 de Março de 1966 um grupo de nacionalistas liderado por Jonas Malheiro Savimbi, começou a escrever uma importante parte da história de Angola. Será que a UNITA não enterrou, depois da morte de Savimbi, o espírito que deu corpo ao que se decidiu no Muangai? Enterrou mesmo. E ao recandidatar-se a novo mandato, Samakuva aproveita para pôr mais umas toneladas de terra sobre a campa.

Pouco, ou nada, adianta hoje continuar a defender que a UNITA deve ser salva pela crítica e não assassinada pelo elogio. Apesar disso, alguns (cada vez menos) simpatizantes do Galo Negro ainda têm um compromisso moral com o que Jonas Savimbi disse, em 1975, no Huambo: “a UNITA, tal como Angola, não se define – sente-se”.

A UNITA, sob o comando de Isaías Samakuva, mostrou que estava mais perto da democracia do que o MPLA. Mas até essa guerra está a perder. Ao contrário do que se pensava, a democracia (soberania do povo) parece ter sido adoptada pelo Galo Negro apenas transitoriamente, tal é o apego ao Poder que o Presidente demonstra.

Quando se diz – e nós dissemo-lo várias vezes – que a UNITA adoptou definitivamente a democracia, tanto para o país como para si própria, arriscamo-nos a confundir o corredor de fundo com o fundo do corredor. Se o poder corrompe, o poder (temporalmente) absoluto corrompe ainda mais, mesmo quando está legitimado por alguma espécie de democracia eleitoral. Samakuva está, no contexto da UNITA, agarrado ao poder, não compreendendo inclusive (presume-se) que com isso está a fazer o jogo do seu principal adversário, o MPLA.

Isaías Samakuva mostrou ao mundo que as democracias ocidentais estão a sustentar um regime corrupto e um partido que quer perpetuar-se no poder. Mostrou. Mas, afinal, também lhe faltou acrescentar: “olhai para o que eu digo e não para o que eu faço”.

Depois de sucessivas hecatombes eleitorais, depois de ser feliz por ser o primeiro dos… últimos, Samakuva alterou os jogadores, a forma de jogar e prometeu, continua a prometer, melhores resultados. O líder da UNITA conseguiu juntar alguns bons jogadores mas esqueceu-se que não bastam bons jogadores para fazer uma boa equipa.

Muitos desses craques, ao que parece seguindo a estratégia do próprio presidente, não conseguem olhar para além do umbigo, do próprio umbigo, e passaram muito do seu tempo a bloquear iniciativas válidas só porque partiam de outras pessoas. Ou seja, olharam para o mensageiro e não para a mensagem. Habituaram- se à lagosta e esqueceram a mandioca.

Isaías Samakuva vai, obviamente, ganhar as próximas eleições internas e manter-se no Poder. Terá não só o apoio dos militantes como do próprio MPLA e até de países e de partidos ditos amigos. Para estes (e pelos vistos também para Samakuva) basta uma UNITA com 10 ou 20% dos votos para dar um ar democrático à ditadura do MPLA. Aliás, por alguma razão o Ocidente não reagiu às vigarices, às fraudes protagonizadas pelo MPLA. E não reagiu porque não lhe interessa que a democracia funcione em Angola. É sempre mais fácil negociar com as ditaduras.

A UNITA ainda considera que a paz em Angola continua “a ser apenas a paz militar”, continuando por passar à prática os princípios constitucionais das liberdades fundamentais?

E se fossem apenas os princípios constitucionais das liberdades fundamentais… Se calhar, com 70% de pobres, falta muito mais. É claro que nesses 70% está a maioria do povo que acreditou nos princípios do Muangai, os tais que falavam na defesa da igualdade de todos os angolanos na Pátria do seu nascimento; a busca de soluções económicas, priorização do campo para beneficiar a cidade; na liberdade, na democracia, na justiça social, na solidariedade e na ética na condução da política.

Embora reconheça que o 4 de Abril de 2002 representa “o início de uma nova etapa do processo político angolano”, a UNITA ainda lamenta que continuem por se cumprir “os objectivos políticos preconizados no âmbito da democratização e da reconciliação nacional”?

A UNITA ainda considera que as reformas previstas nos vários Acordos de Paz, para a criação de “um verdadeiro Estado de Direito Democrático em Angola e ao estabelecimento de um sistema de Governo realmente democrático, apenas conheceram passos muito tímidos”?

A UNITA ainda entende que “as liberdades fundamentais dos angolanos, constitucionalmente consagradas, continuam coarctadas com a intensificação com actos de intolerância política praticados em quase todo o país, de forma coordenada, por elementos afectos ao partido no poder que, perante o silêncio conivente das autoridades do país, destroem propriedades, símbolos partidários e causam desaparecimentos, ferimentos e perda de vidas humanas entre militantes e membros de partidos na oposição, sobretudo os da UNITA”?

Seja como for, a verdade é que os principais responsáveis da UNITA, que elaboram estratégias à volta de uma mesa cheia de lagostas enquanto o povo labuta nas lavras à procura de mandioca, não estão interessados em recordar o que foi estabelecido a 13 de Março de 1966, no Muangai.

Samakuva, Presidente do partido que, definitivamente, deveria deixar de se chamar UNITA porque nada tem a ver com a verdadeira UNITA fundada por Jonas Malheiro Savimbi, não descola da imagem de quem não é capaz de dar o “golpe de asa” (ao Galo Negro) para ajudar a mudar Angola.

Recorde-se que, no dia 30 de Março, por exemplo, Samakuva deverá ter recebido uma a ordem superior, baixada pelo seu homólogo do MPLA e, como obediente angolano, mostrou-se, no Luena, satisfeito com o empenho do Executivo de João Lourenço no combate à corrupção, nepotismo, impunidade e à bajulação, pelo facto desses males terem prejudicado bastante a sociedade.

Na sua análise, Samakuva ainda não percebeu (ou percebeu mas não está interessado em que se saiba que percebeu) que o Presidente do MPLA está – com rara e assinalável mestria – a fazer com que, de “motu próprio”, a UNITA se transforme numa espécie de FNLA.

“Não queremos esconder a nossa satisfação pelo facto de que esses males agora parecem terem sido identificados por todos”, disse o presidente da UNITA, bajulando a estratégia (que não existe) daquele que, para além de Presidente da República, é também Titular do Poder Executivo e Presidente do MPLA, para além de mentor, ideólogo e guru dessa organizaçãozinha que usurpou o nome da organização, essa sim grande, enorme, fundada por Jonas Savimbi.

Aliás, Samakuva e os seus acólitos da lagosta não se devem preocupar muito com as autárquicas, ou com quaisquer outras eleições. Basta negociar com o MPLA a percentagem que ele pensa atribuir à UNITA. Dependendo da disposição do Presidente do MPLA, até pode ser que consiga aguentar-se mais uns anos a esfregar banha no umbigo, a arrotar a marisco e a enganar o Povo repescando (devidamente autorizado pelo MPLA) teses de Savimbi.

No entanto, Samakuva manifestou o desejo de ver as eleições autárquicas a serem realizadas de uma forma pacífica, responsável e abrangente, sem que a maioria parlamentar utilize a sua força para impor as leis e prejudicar o processo que considerou de muito importante para a vida do país.

Não está mal. Depois da bajulação, curvando-se subtilmente perante a imagem do “querido líder” (João Lourenço) que transporta no subconsciente, Samakuva simulou ser líder da oposição, não fossem os angolanos atirar-lhe à chipala a vergonha que é a UNITA aceitar ser tapete (embora de luxo) do MPLA.

Tal como previsto (e autorizado, recorde-se), o presidente do maior partido da oposição que o MPLA (ainda) permite que exista, exigiu (vejam só o grau e a assertividade da exigência) que haja diálogo, aceleração e a tomada de mediadas consensuais para permitir aos cidadãos eleger os seus dirigentes livremente.

Partilhe este artigo