A violência doméstica é um fenómeno humilhante, mas, infelizmente, muitas pessoas, ainda, são vítimas dela em pleno século XXI. Este crime macabro e hediondo é traumatizante para quem o sofre na pele.

Por Pascoal Pedro Adão Neto

Milhares de mulheres vivem sofrendo, no mais absoluto silêncio, a dor de um matrimónio de amargura e tortuoso. Quiçá por medo ou vergonha, muitas mulheres preferem calar-se e não denunciar os seus agressores e continuam a prolongar, às vezes, a sua angústia. Quantas mulheres chegam às suas casas fatigadas, depois de um longo dia de trabalho árduo, olham para as pessoas que amam e com as quais construíram uma família, e quando se dirigem a elas, ao invés de recebê-las com um gesto de carinho, são recebidas com bofetadas, pontapés, gritos, queimaduras, tiros ou outros tipos de agressões psicológicas.

Na minha humilde opinião, a família, como núcleo social, deve constituir o ponto de equilíbrio, ou dito de um outro modo, o alicerce tanto psíquico e emocional e não deve limitar-se, somente, aos laços de sangue, matrimonial, relação sexual (ou troca sexual (?!)), ou adopção.

A verdade é que é muito mais do que isto, porque qualquer grupo cujas ligações sejam baseadas na confiança e no apoio mútuo, com um destino comum, deve também ser visto como família.

Actualmente, na nossa sociedade, está a registar-se uma onda de várias formas de agressões, no seio familiar e não só, e elas que vão de físicas, psicológicas ou emocionais, passando pelas sexuais, crimes com requintes macabros, repugnantes e nojentos. Infelizmente, a maioria das vítimas destas agressões gratuitas são mulheres, não obstante haver também homens a sofrerem estes tipos de agressões.

As cifras de crimes de agressão contra as mulheres tem crescido vertiginosamente; são espantosas e assustadoras, porque cada dia aumenta o número de mulheres e crianças que são vítimas de maus-tratos.

Recentemente, vimos, nos meios de comunicação social, uma menina de, apenas, nove anos que foi maltratada, durante meses a fio, física e psicologicamente por uma inspectora da nossa Polícia Nacional. Um crime bárbaro e nojento que chocou a nossa sociedade. Desculpem-me pela franqueza, por mim, a tal dita inspectora criminosa deveria ser expulsa, sem mais delongas, da corporação e enfrentar as barras do tribunal. Se Angola fosse um país sério, onde a justiça não escolhesse classes sociais, embora não seja apologista da violência, acho que a tal inspectora deveria ser tratada da mesma maneira que tratou a criança: olho por olho, dente por dente.

A violência doméstica não se produz somente entre as famílias com baixo poder económico. Campeia também entre as famílias das classes média e alta. A diferença é que as pessoas com menor poder económico, ou seja, a chamada classe baixa: operários, camponeses, empregadas domésticas e zungueiras (mulheres guerreiras, é assim que eu considero as minhas bravas irmãs angolanas), e não os marimbondo (ou kissondes?!), tentam, às vezes, recorrer às autoridades para denunciar o seu “carrasco”, porque estão cansadas, fartas de aturar tanto sofrimento. As pessoas das classes média e alta procuram, a todo custo, não expor os seus familiares, tentam, como diz o adágio popular, tapar o sol com a peneira. Cabe à mulher, a vítima, ou se for o caso, o homem maltratado resolver esta situação, pois só ela ou ele é que pode pôr fim às ameaças e à violência que sofre.

Todos os dias escutamos relatos de mulheres que são brutalmente violentadas pelos seus maridos ou namorados. Como é o caso da jovem advogada que foi brutalmente assassinada pelo seu próprio marido. Um homem frio e calculista. Prisão perpetua ou pena de morte, deveria ser o seu castigo máximo, e não, apenas vinte três ou vinte quatros anos de prisão. Quem tira a vida de outrem propositadamente, deveria apodrecer na cadeia. Nada de perdão, por boa conduta. A pergunta que não se quer calar é: o que é que pode levar alguns covardes – este é o termo que uso para classificar os homens que batem nas suas mulheres, porque homem que se diz homem nunca espanca a sua esposa, companheira, namorada ou noiva. Só os covardes o fazem, razão pela qual deveriam ser tratados de igual modo, sem dó nem piedade. O que causa a violência será fruto de crise entre os casais, problemas financeiros, ciúmes ou problemas psíquicos do agressor?! Sejam quais forem as causas, nada justifica que um homem ou uma mulher agrida física ou psicologicamente o seu companheiro ou uma criança inocente. Será que da prazer agredir alguém?! Será que as vítimas de agressão continuam amando o seu esposo, companheiro, namorado, progenitor ou o seu guardião?! Será que alguém que é maltratado física, psíquica e sexualmente conseguirá manter a serenidade psicológica?! Posso afirmar taxativamente que não. Sou de opinião que, por nenhuma razão, um agressor deve justificar a sua atitude, visto que causar danos psicológica ou físicos a alguém é um acto desumano. Ademais, numa relação entre duas pessoas que se amam deve habitar o espírito de confiança, amor, fidelidade e de amizade; por isso não faz sentido houver violência entre ambos. Em caso onde existem crianças, estas são os que mais sofrem psicologicamente.

Segundo eruditos na matéria dizem que as causas que motivam a violência doméstica são diversas: o alcoolismo, as frustrações, o stress, os problemas financeiros, os problemas afectivos e os problemas familiares graves.

Os peritos afirmam ainda que algumas situações violentas são provocadas por mal-estar psíquico. Porém, o álcool e as drogas pesadas ocupam o primeiro lugar das causas da violência no mundo, o que tem levado à mutilação e ceifado a vida de muitas mulheres e crianças.

A violência no seio familiar tem provocado cada vez mais perdas de vidas humanas. Estas evidências trágicas têm abalado a nossa sociedade.

As políticas que promovem o bem-estar das famílias são brutalmente confrontadas com os actos de violência gratuita, que se tem expandido na nossa sociedade. Para transformar este quadro negro, que ganha cada vez mais força, penso que é imperioso criar centros de acolhimento especializado para aconselhamento de casais, para que, desta maneira, possamos travar este horrífico flagelo que tem causado imensa dor e pranto em muitos lares. Estes espaços seriam de vital importância, porque seriam os lugares ideais para as vítimas de violência doméstica acederem, com a finalidade de discutirem e fazerem profundas reflexões sobre a febre viral da violência doméstica no seio familiar, eventualmente, desde uma perspectiva psicanalítica, sociológica e intercultural.

O alastramento alarmante da violência no seio familiar está a desconfigurar os padrões sociais e culturais da nossa terra. A exteriorização de condutas anómalas, para além dos aspectos do misticismo que muitos abraçam como mecanismo de defesa, é, também, secundada pela escapatória do consumo de bebidas alcoólicas, abuso de confiança, falsificação de informação e autoritarismo.

A vida é um complemento de coisas boas, sobretudo quando na dimensão conjugal se capitalizam comportamentos universalmente aceitáveis na família e na sociedade.

A verdade é que sempre que deixarmos que os covardes exerçam actos violentos contras as mulheres e crianças, estamos a ser todos psicopatas. A sociedade, como reserva dos mais elevados e nobres valores morais, éticos e cívicos, deve compartilhar actos conducentes a mitigar o trauma. E, isto passa por construir centros de aconselhamento para a prevenção de actos atípicos na convivência familiar, integrando em todos os distritos, bairros, municípios e províncias núcleos de especialistas que se prestem ao trabalho de voluntarismo.

Os centros de acolhimento familiar deverão ter especialistas de diferentes áreas da ciência: psicólogos, psiquiatras, criminalistas, antropólogos e ginecologistas, que além de avaliar e analisar os fenómenos deverão promover sessões sustentáveis, visando a educação nos padrões universalmente aceitáveis em matéria de relações interpessoais de convivência conjugal e não apenas no resgate dos valores cívicos e morais que fundam a sociedade.

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