Ao que parece, e acerca dos retornados que fugiram em debandada há cerca de 50 anos e que não tiveram hipótese de solicitar nacionalidade angolana, por motivos vários, terão agora a possibilidade de o fazer facilmente no consulado de Lisboa. Nada mais justo. Portugal está a fazer o mesmo aos judeus sefarditas expulsos há cerca 500 anos quando a Santa Inquisição se acercou pulando figurativamente a cerca que separava uma dada ideologia portuguesa da de Castela e onde o dedo católico e papal foi um dado adquirido.

Por Brandão de Pinho

Mas ao contrário do caso português – onde critérios genéticos e fenotípicos não são equacionáveis em detrimento da prova documental – em Angola volta-se a insistir no mesmo erro que em última instância levou o país ao desastre, pois ao que sei, só angolanos de um determinado escalão de melanina na face, ou um mínimo de “encarapinhamento” capilar, ou até um determinado tamanho das narinas ou por fim, um grau aceitável de espessura labial é que podem solicitar a nacionalidade e transmiti-la até aos netos.

Ou seja, os angolanos brancos que não puderam tratar da papelada por falta de meios são angolanos de segunda (pior, nem sequer angolanos são mesmo tendo nascido em Angola) enquanto angolanos pretos (e mulatos, mestiçados, caboclos, cabritos e de demais tonalidades, suponho) facilmente obterão a cidadania. Himmler fez algo semelhante na Alemanha e Polónia e estados eslavos para seleccionar crianças que tivessem características germânicas, das outras, cujo destino é conhecido.

Isso faz-me lembrar uma palestra há uns tempos na Faculdade de Economia do Porto onde estava o nosso Director Adjunto, Orlando Castro, em que um grupo de jovens palancas aproveitou para distribuir panfletos aos angolanos presentes na plateia… desde que não fossem brancos, o que o irritou profundamente. Adiante, porque Mandela parece que não conseguiu passar totalmente, de todo, a sua mensagem.

Com tantas coisas importantes para serem tratadas neste nosso Quadrado Austral por que carga de água se continua a insistir na cor da pele e no politicamente correcto e na criação e eternização de tabus?

Ao contrário de Lourenço – mas ainda mais gravemente – o primeiro-ministro canadiano que encara o estereótipo do líder moderno e politicamente correcto perdeu completamente a minha e a de muitos, consideração, ao pedir desculpa por num baile de máscaras nos tempos de estudante se ter disfarçado de Aladino e ter a cara pintada – exageradamente – de preto, como os afro-americanos faziam outrora, com graxa preta, em espectáculos na América racista profunda – e nesse caso havia um significado subjacente para esse exagero -.

Se Justin Trudeau tivesse pedido desculpa pela ignorância que demonstrou ao caracterizar-se numa personagem do médio-oriente com aquele tom de pele, ainda poderia compreender. Por outros motivos creio que é até uma falta de respeito e um insulto, como se estivesse a dizer que os pretos são uns coitadinhos e não se lhes pode dizer nada. Hipocrisia, atentado à liberdade de expressão e seguramente eleitoralismo.

Mesmo em bailes de máscaras a censura impera e aqui há uns tempos a própria Comissão Europeia chegou a discutir a proibição de símbolos nazis (já proibidos na Alemanha) depois do príncipe Harry ter causado polémica ao usar um uniforme das SS (não muito verosímil, enfim) de Himmler, tanto quanto me lembro, com uma suástica no braço, numa singela festa privada de máscaras.

Na UEFA, continuando nesta temática, está montado um tribunal inquisitorial que faz parecer Tomás de Torquemada um menino de coro. Qualquer burburinho do público ou sussurro de algum agente ligado ao jogo, remotamente parecido com um bramido de um símio, qualquer alusão a uma banana ou sequer a pronúncia de certos tons cromáticos, que ainda mais remotamente, esteja ligada a algum jogador que mesmo sendo quase branco, tenhas qualquer coisita, ainda muito mais remotamente de africano, dá direito a multas pesadas aos clubes. Para além de ser um atentado à liberdade de expressão estas medidas radicais acabar-se-ão por se tornar contraproducentes gerando um efeito contrário àquele que pretendem os europeus, tanto os da bola como os da política.

Morgan Freeman – um homem, de facto, livre de preconceitos e complexos – disse uma vez, quando questionado por um célebre jornalista (judeu por acaso) sobre a solução que preconizaria para se acabar com o racismo de que a comunidade negra americana se queixa (e talvez com razão): deixar de falar nisso; acabar com quotas e outras medidas afins; e, extinguir dias de orgulho raciais. De certa forma – ainda que não levando tais medidas tão à letra e tão imediatamente – tinha razão.

E nesse sentido e reforçando a ideia de Freeman dou um exemplo muito simples mais ou menos similar. Em Portugal a população é substancialmente de perfil mediterrâneo devido à influência fenícia, grega, latina, berbere, judaica, árabe e norte-africana mas absolutamente miscigenada com outras etnias mais setentrionais. Tal não significa que não existam pessoas que correspondam a um perfil capilar e dermatológico mais celta, nórdico ou visigodo. E quando aparece alguém demasiado loiro, demasiado ruivo, demasiado branco ou demasiado escuro, inevitavel e circunstancialmente são chamados de “russos”, “cenouras” e “cabeças vermelhas”, “branquelas”, “farruscos” e toda uma sorte interminável de alcunhas.

Num jogo de futebol se houver algum adversário que se destaque nestes parâmetros o normal será insultá-los (é para isso que serve o futebol) por essas características (ou chamá-los de cor*****, panel*****, e filhos da P***) pois certamente não se poderá apelidá-los (a não ser figurativamente) de gordos, cochos, manetas, cegos ou o que seja pois tal impedi-los-ia de jogar futebol a alto nível, contrariamente ao que se passa na sociedade e mundo real, em que por exemplo alcunhas e insultos como “hipopótamo”, “maneta”, “magricela”, “gago”, “corcunda”, “pé-de-chumbo” e nomes relacionados com toda e qualquer característica física que fuja da norma (e por pouco que fuja da norma) são comuns. Todavia se não levados muito a peito são inofensivos.

Tenho ouvido também uma certa descriminação para com a garota sueca abstencionista (à escola) e pseudo-climatologista quer pelo perfil escandinavo quer pelo problema neuro-cognitivo e não me parece que isso a preocupe sobremaneira, até por que tem mais do que fazer do que entrar em estados de autocomiseração.

Por falar na menina sueca recordemos que em Setembro a ONU entra em efervescência e quando o assunto é o clima (que tem sempre um simpósio dedicado) os ânimos exaltam-se e jorram propostas e promessas, apesar do ser humano já ter irreversivelmente arruinado o planeta.

JLo – provavelmente inspirado pela tal miúda nórdica de tranças, que com cara de má, disse que os adultos viviam num conto de fadas – pintou a nação como se fosse o verdadeiro paraíso na terra e também ele aludiu ao conto de fadas que segundo ele, Angola é, e, não lhe chegando os clichés comuns que estamos fartos de ouvir, anda agora todo excitado com o IVA (o que vai dar confusão) e com as privatizações (que dará ainda mais confusão e que beneficiará os mesmos do costume), com o facto de ser um mediador de conflitos africanos e promotor da paz e de se auto-entronizar como o representante dos grandes países que ainda não pertencem ao Conselho Permanente da ONU.

O papagaio-mor de Portugal – logo a seguir à intervenção de Lourenço – também conhecido como Celito palrou as mesmas banalidades de sempre. Justamente num dia em que uma escuta em Portugal revelava que alguém conhecido – justamente por esse epíteto de papagaio-mor – saberia do aparecimento e encenação relacionados com as armas no chamado “Caso Tancos” que certamente devem ter ouvido falar e que resumidamente serviu para a devolução de algum material roubado (e com bónus) para se abafar um assunto de estado muito grave na república portuguesa.

Já que estamos numa onda de lusofonia e da ONU, na qual vergonhosamente a língua mais falada no hemisfério sul não tem estatuto de língua oficial da mesma forma em que não há representantes dessa semiesfera no seu Conselho Permanente como disse, e muito bem, João Lourenço, não podemos esquecer as intervenções de Guterres e Bolsonaro.

Mas antes disso permita-me amigo leitor que vos faça uma pergunta. Não acham que aqueles mosaicos verdes, italianos (que revestem a tribuna onde tomam assento Presidente e membros da Comissão que preside à Assembleia Geral da ONU) estão assentados (ou melhor assentes pois o verbo estar pede um particípio passado irregular) de forma casual não representando a estrutura da pedra que deu origem a esses ladrilhos? A mim mete-me confusão, sinceramente, e duvido que numa casa particular os donos permitissem tal devaneio e falta de brio pelo assentamento aleatório de pedras tão caras.

Guterres bateu nas mesmas teclas do costume exprimindo-se sonolentamente no seu precário inglês, francês e espanhol.

Todavia, Bolsonaro – tido por muitos como uma réplica de Trump, inclusivamente até na ignorância, capacidade intelectual, misoginia, considerações raciais e sociais e chauvinismo – fez um discurso de improviso, coerente e em português. E mais do que isso, abordou assuntos politicamente incorrectos, que nos podem dar uma perspectiva diferente das coisas, pois quer queiramos quer não, cada um de nós não faz a mais pequena ideia do que é o mundo ou do que o que é real ou “fake” ou em quem acreditar ou até a que ponto somos influenciados e condicionados para termos determinada visão do mundo.

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