A democracia não é um sistema de governo perfeito mas até ver não há melhor. Este aforismo, diz que da autoria de Churchill, está tão batido que já dá náuseas e por isso nunca o proferi verbalmente e jamais pensei escrever tamanho lugar-comum e frase tão “cliché” e por isso para me penitenciar vou eu próprio forjar um axioma que pode ser que fique nos anais profundos, pardacentos e penetrantes da história e seja lapidado em estelas imponentes. Aliás eu não gosto de Churchill e não apenas por ser um racista imperialista. Ou por ter-se borrifado para aliança luso-inglesa. Adiante.

Por Brandão de Pinho

Ei-lo então: O capitalismo liberal não é uma corrente filosófica e económica perfeita, mas até ver nenhum outra resulta tão bem.

Bastando todavia ter cuidado com os cocainómanos à frente dos bancos, corretoras e das bolsas, enfim das organizações que sem produzir lidam com o dinheiro dos outros e ganham mais dinheiro, ou seja, em especulações virtualmente impalpáveis e que quando fazem asneiras – ia escrever “fazem merda” que expressaria melhor a minha ideia mas de facto os palavrões são desnecessários, ainda que “merda” seja só um semi-palavrão mas lá está, tal como não devemos descriminar seres humanos não o podemos fazer com as sagradas palavras da última flor do Lácio – há sempre uma mão que os ampara (e neste caso não invisível), governos ou não, à custa, claro, do dinheiro dos contribuintes. Dessa forma esses abutres especuladores e jogadores vão ao casino mas nunca perdem.

Muito despretensiosamente, querer falar de privatizações, propriedade privada e economia de mercado sem se aludir a Adam Smith e John Locke é para além de um erro e uma injustiça históricos tão ou mais grave do que dissertar sobre o 27 de Maio e não citar o seu mentor Assassino Neto. Por acaso ainda a semana falada em conversa com um – dizia ele -licenciado em economia numa boa faculdade pública portuguesa ouvi-lhe com estas orelhas que a terra há-de comer ou o crematório pulverizar, que nunca tinha ouvido falar de Smith e Locke, se bem que do primeiro ainda indagou se não seria de nome próprio Robert (reportava-se ao vocalista dos Cure e resolvi dar por terminado esse tema).

A filosofia política de inglês Locke fundamenta-se na noção de governo consentido pelos governados, da autoridade constituída e o respeito ao direito natural do ser humano à vida, à liberdade e à propriedade, sendo a base teórica para as modernas revoluções liberais inglesa, americana e francesa. Teorizou os princípios do estado liberal e propriedade privada atribuindo a obrigação ao estado de fomentar a protecção desses direitos. O britânico foi igualmente o mentor do empirismo, o qual afirma que todo conhecimento e aprendizagem decorre da experiência expondo uma crítica às ideias inatas através da teoria da “tabula rasa” que afirma que o ser humano nasce como uma “folha em branco” e é moldado pelas experiências, tentativas e erros. Todos. Sem excepção. Um génio apesar de Loock ter uns pecadilhos no que diz respeito ao esclavagismo que agora não vêm ao caso.

Já Adam Smith procurou demonstrar que a riqueza das nações resultava da actuação de indivíduos que, movidos também mas não apenas pelo seu próprio interesse (“self-interest”), promoviam o crescimento económico e a inovação tecnológica.

Adam Smith ilustrou bem seu pensamento numa historieta que amiúde contava, sobretudo se acompanhado por uma enorme caneca de madeira cheia de cerveja artesanal (também não havia outra ao tempo) ao afirmar não ser a benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que proporciona um bom jantar, mas sim o empenho deles em promover seu auto-interesse. Assim afiançava que a iniciativa privada deveria agir livremente, com pouca ou nenhuma intervenção governamental, sendo defensor do “free banking”. A concorrência livre entre os diversos fornecedores levaria não só à caída do preço das mercadorias, mas também a permanentes inovações tecnológicas, no frenesi de baixar os custos de produção e acabrunhar os competidores e concorrentes.

Ele analisou a divisão do trabalho como um factor evolucionário poderoso para a economia. Uma frase de Adam Smith ficou famosa: O mercador ou comerciante, movidos apenas pelo seu próprio interesse “self-interest”, são levados por uma “mão invisível” no sentido de promover algo que nunca fez parte do interesse deles: o bem-estar da sociedade. Como resultado da actuação dessa “mão invisível”, o preço das mercadorias descerá e os salários tenderão a subir. Se bem que não será bem assim.

Só depois de se perceber Smith e Loock é que se pode analisar Marx ou Keynes e falar de economia. E política. Se bem que políticas keynesianas em situações catastróficas possam ser úteis e justificativas para o estado através da sua mão pesada controlar e revigorar a economia: acontece que o Tesouro de Angola não tem dinheiro nem para mandar cantar um cego e os credores dão-no mas a conta-gotas, para que nunca seja suficiente e obrigue a nação a pedinchar mais e mais vezes. Uma vergonha dos países que se dizem civilizados e continuam a explorar África descaradamente.

Posto isto é óbvio que o Estado não tem nada que ter participações em empresas a não ser nas estritamente fundamentais mas não pode acontecer em Angola o que sucedeu na Rússia pós-Ieltsin em que umas dezenas de oligarcas açambarcaram tudo. Por acaso – e por muitos defeitos que tenha Putin – por meios mais claros ou mais obscuros a existência de um homem forte e patriótico acabou por ir equilibrando a barafunda do processo nada claro de privatizações de que foram beneficiários oligarcas ligados ao poder e mafiosos da pior espécie (não estes marimbondos e mafiosos anjinhos de Angola).

Em Angola, creio, não será diferente por mais boa-vontade que tenha – se é que esta não será uma oportunidade de compensar marimbondos – Sua Alteza O Czar Lourenço.

Tentem explicar a uma zungueira que a mercadoria que ela adquiriu por determinado preço tem de ser vendida ao preço que alguém superiormente determine. Ou que a sua mercadoria tem que ir para uma cooperativa “de todos” para depois ser distribuída arbitrariamente, quer para quem trabalhe quer para quem passe o dia a embebedar-se. Diga-se-lhe que ela tem de comprar os seus produtos em determinados sítios ao preço que eles impuserem e vendê-los por um valor igualmente imposto. Alguém em seu perfeito juízo acha que a zungueira, no mínimo não os mandava ir para algum sítio bem desagradável? A ideologia que está na génese do MPLA é esta e por isso é que se andou a comprar tecidos a Cuba mais caros e sem qualidade, ou ferramentas de aço poroso à China de Mao e armamento obsoleto à Rússia ou CCCP em prol de uma “Irmandade Socialista Universalista”. É este partido que faz falta aos angolanos para governar e gerir bem a coisa pública? Claro que não. Mas os velhos esqueletos que alindam pululam e mandam nos MPLA pensam assim e não sei se a formação soviética de JLo não lhe tolherá o raciocínio também.

Os comunistas do MPLA (defensores de regimes medievais como o soviético, norte-coreano e cubano) perceberam que a economia não se compadece de planos quinquenais e que o ser humano, qualquer um que seja, não passa disso mesmo, de um ser humano, com as suas virtudes e defeitos, e que de uma maneira geral são todos iguais e só querem enriquecer à custa do seu esforço e sem injustiças que beneficiem bajuladores oportunistas. É então por isso mesmo que decidiram começar a privatizar e também para ver engordam a Fazenda Pública. Já vai tarde essa demanda pois muitas das empresas ou conglomerados por incompetência, nepotismo, falta de estímulos e roubalheira descarada a valerem alguma coisa é menos do que zero.

Anda toda a gente preocupada com o facto da aquisição de algumas dessas empresas poder ser usada para branquear dinheiro. Pois eu digo o contrário. Tomara que JLo arranje investidores para fazer regressar o dinheiro extraviado no estrangeiro nem que seja com a desculpa de participarem neste maciço e massivo programa de privatizações.

Às vezes fico boquiaberto pela forma como os angolanos defendem de forma tão exageradamente abnegada a justiça e o regular funcionamento das instituições de forma tão absoluta e radical exigindo ao Estado práticas límpidas e impolutas como se vivessem há séculos numa verdadeira democracia, quando na realidade ainda há pouco chafurdavam num pântano de corrupção se é que ainda não chafurdam.

Meus caros. Quando se trata de defender o superior interesse da nação às vezes é necessário fechar os olhos. Inglaterra, Alemanha, França, USA e Rússia (ainda que esta federação não seja grande exemplo, aliás se a Rússia é a Federação Russa, a União Soviética terá sido a Confederação Soviética, se me é permitido o devaneio humorístico para que não me acusem de falta, justamente, de humor) fizeram isso imensas vezes. E continuam a fazer. Como acham que a América fez Las Vegas e o estado do Nevada? Negociando com mafiosos e dando-lhes a oportunidade de começar de novo mas cumprindo o primado da lei a partir daí.

Como acham que Londres recebe todo o dinheiro sujo do mundo na sua “City” e vende as suas mansões, propriedades e clubes de futebol? Legislando e cerrando a vista para que toda a corja de bandidos e mafiosos por lá assente arraiais (parece que a última inquilina é a Isabegalinha).

Como acham que Portugal fez para sacar uns milhões à custa dos estrangeiros muitos deles escumalha?

Vende cartões de cidadão a meio milhão de euros e quando der conta servirá de plataforma mafiosa para negociatas muito escuras.

E os angolanos andam preocupados com lavagem de dinheiro para se privatizar empresas?

Algumas empresas se foram vendidas a 1 euro será um bom negócio para Angola. Tenho pena é que do rol não faça parte as Edições Novembro proprietária dentre outros do Jornal de Angola.

Parece que prenderam um ministro. Finalmente. Faltam mais. E que a UNITA já tem candidatos mais combativos a concorrer à liderança. De resto está tudo na mesma o que é bom para o MPLA pois dessa forma nem precisará de se socorrer de fraudes avulsas para ganhar eleições.

Todos sabemos o mal que o ANC fez à África do Sul também pelos resultados e percentagens estalinistas nas votações. Se Lourenço quiser fazer uma coisa verdadeiramente patriótica que desmantele o MPLA em pequenos partidos, afinal um cancro quanto mais pequeno for mais facilmente é erradicado e tratado.

O problema de Angola é o MPLA mas Angola ainda não é suficientemente problema para o MPLA.

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