Ao estilo dos grandes generais das FAPLA que combateram na Batalha do Cuito Cuanavale, e que o que melhor sabiam fazer era fugir, o general presidente do MPLA, partido no poder há 44 anos, acusou hoje supostos militantes (sem nome) do partido de estarem por detrás de uma campanha que visa a intoxicação e desestabilização do país.

“S ão esses mesmos que estavam embrulhados na corrupção, os mesmos que desviaram os recursos do país para fora do país, apenas para eles, são os que estão a utilizar esses mesmos recursos que são de Angola para financiarem a campanha de desestabilização, de intoxicação, que estão a fazer contra Angola”, afirmou João Lourenço.

É claro que, no seio dos congressistas da JMPLA, são poucos os que pensam com a cabeça certa e que não têm de se descalçar para contar até 12, pelo que a esmagadora maioria nem sabe que João Lourenço sempre foi um destacado militante e dirigente do grupo que agora acusa, tendo mesmo sido ministro da Defesa de José Eduardo dos Santos que, aliás, foi quem o premiou com o lugar de cabeça-de-lista do MPLA e, por essa via, com o cargo de Presidente da República.

O também chefe de Estado discursou na abertura do congresso da JMPLA, órgão juvenil do partido, tendo depois solicitado permissão aos delegados para fazer um segundo discurso, pequeno, sem ler, para dizer o que lhe ia “na alma”.

A segunda intervenção de João Lourenço teve a ver com uma forte campanha que se verifica nos últimos dias nas redes sociais, com determinadas (pelos vistos todas se chamam “determinadas”) figuras da sociedade civil angolana, num apelo para amanhã, sexta-feira, as pessoas não irem trabalhar em protesto com a situação social e económica do país.

Para João Lourenço, esta campanha não é contra si, mas contra o país, considerando “o mais triste” que ela “não vem sendo movida, nem por forças estrangeiras, nem por forças da oposição”. Quem diria? Desta vez a culpa, diz o Presidente, não é de Jonas Savimbi nem sequer dos colonialistas portugueses.

“Ela vem sendo movida por nacionais, aparentemente do MPLA, e digo aparentemente porque não se portam como tal, e que ainda têm o descaramento de falar em nome do povo”, frisou João Lourenço mostrando que, afinal, no seu partido todos têm de fazer o que ele fazia no tempo de Eduardo dos Santos. Ou seja, estar caladinhos, com o rabo entre as pernas mas sempre com as mandíbulas na gamela.

O líder do partido no poder em Angola desde 1975 questionou ainda se “os mesmos que estavam embrulhados na corrupção”, quando “desviaram os recursos do país” repartiram com o povo ou com os jovens. Claro que não. O Presidente tem razão. Mas é caso para perguntar: E o que fez João Lourenço?

“E então, como é que agora vêm falar em defesa do povo, dos jovens. Coitado do povo que está a passar mal, coitada da juventude que não tem emprego, e eu levanto esta questão aqui, porque os cabos que estão a ser pagos para levar a cabo esta campanha lamentavelmente são jovens, portanto, nada melhor do que levantar esta questão no seio dos jovens”, disse.

João Lourenço questionou ainda o carácter destes jovens “que alinharam na campanha”. Mais uma vez tem razão. Por ser um velho militante e dirigente do MPLA, João Lourenço sabe que o carácter no seio do seu partido é tão raro como termos no país jacarés vegetarianos.

“São bons jovens? São exemplares? Pensamos que não. Estão a fazer por quaisquer 100 euros, se calhar nem isso, porque aqueles avarentos também não lhes vão pagar muito mais”, apontou, acobardando-se numa acusação vil por não ter provas. Se as tem, então a sua postura é ainda mais cobarde e criminosa por não mandar prender quem está, a ser verdade, a atentar contra a segurança do Estado.

O líder do partido no poder em Angola desde a independência, em 1975, reiterou o combate à corrupção, um tema que foi colocado com grande ênfase pela direcção do partido entre 2016 e 2017, no período de preparação do congresso e das eleições, e que diz-se determinado a cumprir.

“Houve a promessa em oportunidades distintas de se iniciar com essa cruzada, falou-se com relação à corrupção, tolerância zero, mas o que verificamos é que esta tolerância zero não surgiu”, lembrou. E a culpa é de quem? Quem é o Presidente da República?

Para João Lourenço, o caminho continua por percorrer: “Deram-nos essa incumbência e nós como não gostamos de fingir que fazemos as coisas, não gostamos de enganar o eleitorado, não gostamos, porque consideramos errado, consideramos injusto utilizar os eleitores só para votarem em nós, prometendo coisas para fazer de conta, nós estamos a procurar cumprir com essa incumbência que o partido nos deu mesmo antes de sermos chefes de Estado”.

O também Presidente de Angola admitiu que já esperavam essa reacção, referindo-se ao que se vem assistindo nos últimos dias. De acordo com o chefe de Estado o combate à corrupção é importante para garantir investimentos privado nacional e estrangeiro no país, com vista à criação de emprego para o povo angolano e, em particular, da juventude.

João Lourenço explicou aos escravos que fez a sua declaração de bens e rendimentos na Procuradoria-Geral da República, conforme manda a lei, e que o conteúdo do documento, só poderá ser tornado público “caso venha a ter algum problema e a justiça seja obrigada a violar, digamos, o lacre do envelope que entreguei”.

Assim é fácil. Difícil, mas ético, moral, digno e honroso seria mandar o seu PGR partir o lacre e mostrar ao país a sua declaração de rendimentos. Quem não deve, não teme.

Folha 8 com Lusa

Partilhe este artigo