Mais de 160 crianças morreram em 2018, na província do Bié, centro de Angola, devido a má nutrição severa (fome em português entendível), segundo dados divulgados hoje pela responsável do Centro Nutricional Terapêutico local, Dulce Cufa.

Tal como o anterior presidente, João Lourenço deve ter sido informado destes dados depois de uma frugal refeição à base de trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e uma selecção de queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas, com cinco vinhos diferentes, entre os quais um Château-Grillet 2005…

Também hoje, certamente por mera coincidência, ficou a saber-se que o Estado/MPLA vai investir 111 milhões de euros na construção de um novo complexo hospitalar, para as Forças Armadas Angolanas, obra aprovada por despacho do Presidente da República, João Lourenço.

Dulce Cufa, citada pela Angop, avançou que no ano passado foram diagnosticadas com a doença e tratadas 1.022 crianças, maioritariamente de famílias com menos condições sociais.

O desmame precoce, a carência alimentar e patologias prolongadas são os principais factores no surgimento da doença, indicou a responsável, salientando que palestras sobre prevenção e combate à má nutrição têm sido realizadas nas comunidades.

Em 2018, dados governamentais davam conta que Angola tinha uma taxa de desnutrição crónica na ordem dos 38 por cento, com metade das províncias do país em situação de “extrema gravidade de desnutrição”, onde se destacava o Bié, com 51%.

As províncias do Bié com 51%, Cuanza Sul com 49%, Cuanza Norte com 45% e o Huambo com 44% foram apontadas, na altura, pela chefe do Programa Nacional de Nutrição, Maria Futi Tati, como as que apresentavam maiores indicadores de desnutrição.

“São cerca de nove províncias que estão em situação de extrema gravidade de desnutrição, sete províncias em situação de prevalência elevada e duas províncias em situação de prevalência média”, apontou Maria Futi Tati, em Junho de 2018.

O presidente do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), Akinwumi Adesina, diz que o mundo não está a ganhar a guerra contra a fome a nível global e relativizou os dados que mostram que há menos pessoas na pobreza. África conhece bem esta realidade. Angola também. Os dirigentes angolanos também… não.

O mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) indicava que, em Angola, 23,9% da população passa fome. No relatório de 2018, a FAO refere que cerca de 821 milhões de pessoas no mundo passam fome, o que se traduz num aumento quando comparado com os dados de há dez anos.

Em Angola, segundo a FAO, “23,9% da população passa fome”, o que equivale a que “6,9 milhões de angolanos não tenham acesso mínimo a alimentos”. Reparou Presidente João Lourenço? 6,9 milhões?

“Não nos podemos deixar levar; não estamos a ganhar a luta contra a fome global”, disse Akinwumi Adesina durante a sua intervenção numa conferência sobre agricultura na Universidade Purdue, em Indianapolis.

As declarações de Akinwumi Adesina surgiram poucos dias depois da divulgação de dados sobre a descida do número de pessoas que vivem com menos de 2 dólares por dia, mas o presidente do BAD vincou que os números das Nações Unidas, que mostra uma subida das pessoas com fome, de 777 milhões em 2015 para mais de 820 milhões em 2017.

Perante uma plateia de investigadores, líderes empresariais, decisores políticos e doadores, o banqueiro defendeu mais ajuda desta comunidade e lembrou o compromisso de investir 24 mil milhões de dólares na agricultura africana nos próximos 10 anos, o maior esforço de sempre.

Cerca de 821 milhões de pessoas no mundo passam fome, revelou a ONU, traduzindo um aumento para níveis de há dez anos que se sente mais na América do Sul e na maior parte de África, disse a FAO no relatório sobre o estado da segurança alimentar e nutrição de 2018, em que se confirma a tendência para o aumento da fome no mundo pelo terceiro ano consecutivo, passando de 804 milhões em 2016 para 821 milhões em 2017.

Angola, Moçambique e Guiné-Bissau estão entre os países africanos onde os choques climáticos – mas não só – foram uma das causas de crises alimentares em 2017, segundo a avaliação global sobre segurança alimentar e nutricional (SOFI 2018), elaborada por cinco agências da ONU, incluindo a Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

A avaliação é pessimista, realçando que os objectivos de erradicação da fome em 2030 estão em risco, face ao crescimento da situação de fome, que atingiu 821 milhões de pessoas em 2017, ou seja, um em cada nove habitantes do mundo.

Gozar com a nossa chipala

Recordemos que a Directora Adjunta da FAO, Maria Helena Semedo, enalteceu em 6 de Novembro de 2014, em Luanda, o contributo de Angola nas acções que visam o combate à fome e erradicação da pobreza. Viu-se. Já temos 20 milhões de pobres.

De acordo com a responsável, que falava depois da audiência com o então ministro da Agricultura, Afonso Pedro Canga, Angola foi dos primeiros países do continente que contribuiu com mil milhões de Kwanzas (USD 10 milhões), para o fundo Fiduciário Africano de Solidariedade, de apoio aos países africanos no combate à fome e à pobreza.

Maria Helena Semedo disse que o contributo de Angola e de outros países membros do continente tem permitido à FAO apoiar e desenvolver vários projectos de extrema importância a nível do continente africano.

O encontro, segundo Maria Helena Semedo, permitiu informar o ministro da necessidade de se trabalhar nas estatísticas agrícolas, para permitir uma tomada de decisão sustentada e reforço da estrutura de pesquisa e extensão rural.

Maria Helena Semedo informou o ministro que a FAO tinha então aprovado um projecto avaliado em dois bilhões de dólares para apoiar os países africanos que estavam seriamente afectados com o flagelo da Ébola, para a melhoria da segurança alimentar das suas populações.

“Este financiamento vai permitir melhorar a qualidade da segurança alimentar e nutricional dos países membros que têm sido afectados”, referiu.

Quanto aos programas do Executivo angolano que visam o combate à fome e pobreza, disse que o Estado/MPLA se tem empenhado para cumprir com as metas que visam a erradicação da má nutrição da população e conseguiu reduzir a taxa de desnutrição de 78% em 1990-92 para… 18% em 2014.

Gozar com a fome… dos outros

No dia 27 de Agosto de 2018, depois de um faustoso repasto, a comissária para a Economia Rural e Agricultura da União Africana (UA), a angolana Josefa Sacko, afirmou, em Luanda, que Angola progrediu na redução da fome, mas precisa de reforçar a estratégia para diminuir a pobreza, agravada com o desemprego entre jovens.

Josefa Sacko falava à imprensa à margem do encontro de lançamento do Processo de Reformulação do Plano Nacional de Investimento Agrícola de Angola (PNIA), que visa alinhar a agenda interna com as metas internacionais, quer a continental quer a global, respectivamente para 2030 e para 2063, para que possa reduzir a pobreza e acabar com a fome até 2025.

Recorde-se, apenas para contextualizar a temática, que Angola tem mais de 20 milhões de pobres, muitos dos quais nunca ouviram falar de uma coisa que tanto Josefa Sacko como o ministro da Agricultura e Florestas de Angola, Marcos Nhunga, conhecem bem: refeições.

“Houve muitos progressos para acabar com a fome, tendo na base os programas de segurança alimentar”, disse a angolana Josefa Sacko, sublinhando que, em termos de combate à pobreza, Angola precisa de “fazer mais esforços”.

“A extrema pobreza é condenada a nível mundial e temos a questão do desemprego dos jovens, que é um dos pontos que acentua a pobreza no nosso continente e não só. As nossas zonas rurais, onde se faz a agricultura, deve ser revista para podermos investir e operar aí uma transformação”, frisou.

Por sua vez, o ministro da Agricultura e Florestas, Marcos Nhunga, disse que a disponibilização dos recursos para o sector “continuam aquém do indicado” para o alcance dos objectivos do pacto.

Segundo o ministro, o Governo mostrou o seu empenho para alavancar o desenvolvimento da agricultura nacional, em particular, e africana em geral, ao aderir, em Junho de 2011, à plataforma continental integrada no Programa Detalhado para o Desenvolvimento da Agricultura em África (PDDAA), satisfazendo os ideais da Declaração dos chefes de Estado e do Governo da UA para 2033.

O governante acrescentou que o compromisso foi reforçado em Junho de 2014, com a assinatura da Declaração de Malabo (Guiné Equatorial), na 23ª Assembleia dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana.

Nas declarações à imprensa, Marcos Nhunga referiu que é preciso que Angola olhe para a forma como a agricultura se está a definir actualmente, vendo-a como “um sector fundamental para a redução da pobreza, garantindo a segurança alimentar e nutricional das populações”.

Marcos Nhunga destacou que a Declaração de Malabo previa que cada país contribua, no mínimo, com 10% dos seus orçamentos para o sector da agricultura, de forma a combater a pobreza e garantir a segurança alimentar e nutricional.

“É verdade que demos saltos qualitativos relativamente à diminuição da fome no nosso país, mas temos indicadores relativos à pobreza. O que se pretende aqui é fazer um alinhamento do Plano de Investimento da Agricultura, para que possamos cumprir com as agendas, não só nacional, como também africana e internacional”, avançou.

O titular da pasta da Agricultura e Florestas disse que o país saiu de um índice de mais de 60% da taxa de fome para menos de 30%, entre 2013 e 2015. E então se esse índice levar em conta os dados da realeza do MPLA, será certo avançar que a taxa de fome é zero.

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