A empresária angolana Isabel dos Santos destacou esta quinta-feira a importância da inovação no empreendedorismo, defendendo que para inovar nem sempre é preciso inventar, numa intervenção na Universidade de Cabo Verde, na Praia (Ler também o artigo “Isabel dos Santos patrocina dez bolsas de mérito universitário em Cabo Verde”).

“N em sempre é preciso uma coisa nova, não é preciso inventar, é preciso é encontrar uma solução inovadora dentro do que já existe num negócio, e é isso que nos dá a vantagem competitiva”, disse a empresária durante a sua intervenção na Conferência Empreendedorismo Jovem e Inovação, que decorreu esta manhã na Praia.

Durante cerca de 20 minutos, a empresária desfiou conselhos práticos, interagindo com a plateia composta maioritariamente por jovens universitários, e defendeu a necessidade de ter “uma ideia, um plano e uma equipa”, que são a chave para começar o empreendedorismo, aproveitando os recursos à disposição dos jovens empreendedores.

“O financiamento é difícil, os créditos bancários são difíceis, mas um grande empreendedor não nasceu com uma grande empresa, há que começar pequeno, não vale a pena construir um projecto maior do que nós”, defendeu, acrescentando: “Procurem pontos de apoio na família, nos amigos, mas antes é preciso ter uma ideia”.

Exemplificando que a cadeia McDonald’s começou apenas com um restaurante, Isabel dos Santos usou o exemplo da Uber para defender que “nem sempre é preciso uma coisa nova, a Uber apenas inovou na maneira de apanhar um táxi usando as tecnologias que já existem”.

A empresária Isabel dos Santos está em Cabo Verde, onde intervém na sexta-feira na conferência organizada pela agência Lusa para debater o futuro da economia cabo-verdiana.

Inovar para mudar o que está mal

Quando, no passado dia 23 de Setembro, Isabel dos Santos participou, em Lisboa, no Fórum Internacional sobre Mobilidade e Inovação, uma iniciativa da Federação das Mulheres Empresárias e Empreendedoras da CPLP, que contou com a presença de mais de 200 personalidades dos nove Estados membros da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e dos países observadores na organização, definiu-se como uma empresária que trabalha com capital de risco, e que fez a abertura de várias empresas e criou vários projectos, sendo por isso “uma investidora e sobretudo uma empreendedora”.

Isabel dos Santos acrescentou que “ser empreendedor hoje é procurar melhorias, e usar da melhor forma o conhecimento e a informação que já está disponível hoje. É ser profundo na análise e exigente no resultado”, e explicando que “inovar é querer ter as melhores soluções que respondem às necessidades não articuladas ou problemas no mercado existente”.

Segundo Isabel dos Santos “há dois tipos de empresas, aquelas que vivem e funcionam no “status quo”, fazem tudo como sempre se fez, e fazem disso o seu modelo de negócio e com sucesso”, e “há outras empresas e empreendedores que vêem lacunas no mundo que existe hoje, e vêem o mercado como não estando completo, e como se faltasse alguma coisa”.

A empresária explicou que “às vezes a inovação é confundida com a invenção. Mas não são a mesma coisa. A inovação passa por ter uma ideia ou identificar uma solução que é relevante, e conseguir transformar num produto possível de comercializar com sucesso”. Ou seja, “inovar é encontrar conexões inesperadas, ter ideias, ver possibilidades, e usar a imaginação”.

Diz Isabel dos Santos que “é preciso conseguir ver o que não está disponível, e ter a convicção de que a nossa visão é válida e necessária para o mundo avançar e o melhorar”. Aconselha que “devemos tentar ver aqueles pontos que são perdidos, ignorados ou esquecidos pelos outros”.

Assim, assinalou que “a postura da inovação é estar desconfortável com a maneira como as coisas são hoje” e encontrar “conexões inesperadas, ter ideias, ver possibilidades, e usar a imaginação”, procurando “ver o que não está disponível, e ter a convicção de que a nossa visão é válida e necessária para o mundo avançar, tornando-o melhorar”.

Isabel dos Santos considera que “o empreendedorismo impulsionado pela inovação parte do princípio de fazer algo relevante, único e com valor”, pelo que “ser inovador, no fundo, é ser alguém inconformado com as soluções que existem no mundo de hoje. Pensando, definindo, criando”. Daí o repto dirigido a todos: “Vão e mudem o mundo!”

Isabel dos Santos diz que “vivemos tempos promissores na tomada de consciência do papel da mulher na sociedade. Da família, ao mundo do trabalho, na política, entretenimento ou nas ciências, o contributo das mulheres, em todas as dimensões da vida, tem alcançado uma força sem igual. E esta força tem de ser promovida para o bem de uma sociedade mais justa, equilibrada e completa”.

“Acredito que todos nós, no espaço que ocupamos, temos que ser capazes de contribuir para esta mudança. É exactamente no meu papel de Mulher, Mãe e de Empresária que sinto a responsabilidade e estou profundamente comprometida com o papel das mulheres na sociedade”, afirma Isabel dos Santos, garantindo que “nesta caminhada há muito ainda a conquistar. Por exemplo, é pouco comum cruzar-me com mulheres em cargos de topo nas administrações de empresas. Muitas vezes sou a única numa sala de reuniões. Podemos mudar esta realidade? Sim, podemos. Temos de olhar para as nossas organizações e implementar medidas concretas que transformem mentalidades”.

Considera, por isso, que “é dever dos gestores encorajar e apoiar as mulheres a evoluírem nas suas carreiras, conquistando lugares de liderança. Como gestora, incentivo desde cedo o empowerment das mulheres, seja na contratação em igual número, na igualdade salarial ou na evolução das suas carreiras”.

“Apostar em equipas diversificadas, que unem o talento de homens e mulheres, traz uma outra vantagem ao mundo empresarial: a produtividade. Todas as organizações sonham com equipas produtivas, mas só a diversidade de género a pode garantir. Nestas equipas, os desafios são encarados com olhares diferentes por homens e mulheres, logo as soluções são mais ricas e completas”, afirma a empresária, advogando que “permitir que homens e mulheres tenham os mesmos direitos e oportunidades no mundo do trabalho não é apenas uma questão de justiça e de moral. Há também benefícios económicos para as organizações, para as comunidades e até para as economias dos países. Se o salário das mulheres fosse igual ao dos homens, a riqueza mundial aumentava 160 mil milhões de dólares, estimou o Banco Mundial num relatório muito recente”.

Folha 8 com Lusa

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