Este início de semana foi tão fértil em assuntos para abordar e tão importantes para a nossa jovem democracia – que se quer cívica, participativa, plural e livre – que mais vale deixar a escribas mais prendados e de pena mais ligeira a sua abordagem. Por tal irei debruçar-me apenas e tão somente nos contornos associados à tentativa de roubo do busto da Rainha Nzinga Mbande no Cuanza Norte e curiosamente situado no largo homónimo da província.

Por Brandão de Pinho

Imagino a complexa logística e requisitos técnicos para levar a cabo tamanha empreitada, já para não falar de todos os outros factores relacionados com este tipo específico de -chamemos-lhe assim – negócio como sejam arranjar cliente, comprador ou – na gíria policial – receptador, para o bronze ou obra de arte; contratar pessoal especializado para cada uma das funções; planear a melhor e altura para a execução do trabalho; reunir os recursos financeiros para pagar aos prestadores dos vários serviços, que certamente não iriam esperar que a transacção se efectuasse para receberem o seu kumbu (já agora esta palavra é uma adaptação de “ukumbu” que na língua kimbundu por mais estranho e curioso que seja significa “vaidade”); e todas as demais etapas que qualquer negócio legítimo tem de passar para a consumação da sua actividade.

Foi veiculado pelas autoridades locais parte deste interessantíssimo enredo – e que estas teimam em apelidar de crime ao invés de trabalho especializado – que tinha como estratégia de remoção do busto, numa primeira fase, o derrube da pedestal que o suporta.

De acordo com as forças policiais, encontra-se cativo um dos meliantes – mais uma vez recorrendo ao léxico policial – de uma extensa, elaborada e complexa quadrilha que diligentemente o teria escolhido para tal função tão presumivelmente especializada, meliante esse agora aprisionado no cativeiro policial.

As autoridades policiais assumem igualmente que o objectivo da organização não seria propriamente a recolha da base do busto mas sim a escultura em si feita nessa liga magnífica de cobre e estanho, augurando que o destino seria a sua fundição para fins que não pormenorizaram.

Relativamente à Rainha Nzinga Mbande, convém relembrar os leitores que o seu título real – e mais uma vez volto a aludir o Kimbundu – era “Ngola” cuja palavra foi apropriada pelos portugueses para denominar aquela região sudoeste e por acréscimo, mais tarde, todo o território do nosso país que por isso hoje se chama Angola.

É curioso como as palavras vão evoluindo em tão pouco tempo. Num caso um sentimento – não muito bem considerado sejamos honestos – como a vaidade deu origem a um sinónimo de dinheiro, no outro um título real indígena de uma pequena região deu um nome a todo um país.

Depois de muitos anos de invasões lusitanas para capturar escravos, que verdadeiramente, naqueles tempos era o principal – se não único – negócio e actividade económica que os portugueses levavam a cabo, apesar de lá no seu íntimo não reconhecerem essa actividade nestes termos tão crus, mas enfim, o angolano sabe perdoar, e, entre batalhas intermitentes, a Rainha Nzinga negociou um tratado de igual para igual com o governador português, convertendo-se ao cristianismo – mais para robustecer o tratado e menos, suponho, por motivações espirituais – adoptando o nome português “Ana de Sousa”, ou “Dona Ana de Souza” para ser mais rigoroso.

Por esse motivo – e acreditando nas próprias palavras – um certo deputado da UNITA com o portuguesíssimo apelido “Mendes” embora de nome próprio de âmbito mais alargado e judaico-europeu do que própria e especificamente lusitano, por esse motivo dizia eu, esse parlamentar não a considerava verdadeiramente angolana. Ou melhor, se calhar considera-a angolana mas não angolense de gema.

Para terminar este assunto da Rainha Nzinga devo relembrar que após este tratado não cumprido pelos portugueses ela rebelou-se, reuniu várias tribos para lutar contra os invasores, renunciou ao cristianismo e tornou-se numa verdadeira líder. Ou melhor, num verdadeiro líder no masculino, pois de acordo com algumas fontes e talvez para ter mais respeito, ela exigia na sua língua nativa kimbundu ser tratada por “Rei” e não por “Rainha”.

Mais tarde, capuchinhos em missão por aquelas bandas, de nacionalidade dizem, italiana (apesar da Itália só vir a ser criada séculos mais tarde) convenceram-na a reconsiderar a renuncia à religião cristã e a converter-se ao catolicismo o que é curioso pois já havia uma cisão entre católicos e protestantes como era o caso dos holandeses, ou neerlandeses como eram conhecidos ao tempo (a exemplo da Itália a Holanda só mais tarde foi formada), que tentaram tomar as posições portuguesas no mundo inteiro, sobretudo a belíssima e muito antiga São Paulo de Luanda pelo que o então governador de Angola, também ele um “Sousa” ou “Souza” como a nossa intrépida rainha, entregou-lhe a irmã, que por cautela os portugueses mantinham presa e bem tratada.

Assim sendo, dona Ana morreu tranquila e sossegadamente, já bem idosa, como uma figura muitíssimo admirada e respeitada por Portugal com quem veio a assinar um novo tratado de paz, tendo desempenhado posteriormente um papel muito importante e meritório na reinserção de antigos escravos, conseguindo estabelecer uma verdadeira e pujante economia sem recurso à escravatura, ao contrário do que se passava e ainda por muitos anos se iria passar, no resto do continente negro – quer por europeus quer por africanos – pelo que já nesse tempo era uma utopista e visionária, e na minha modesta opinião pessoal, é a figura mais importante do movimento anti-esclavagista mundial e a mais importante figura histórica de Angola, pois poucas actividades mais desumanas existirão do que o tráfico de escravos – independentemente da época que se trate – e por mais que se alegue a hermenêutica e outras tretas (perdão pelo calão) históricas e filosóficas.

Bem…por hoje é tudo.

Foto: Imagem relativa ao filme “Nzinga, Rainha de Angola”, realizado por Sérgio Graciano e escrito por Joana Jorge.