O secretário de Estado da Comunicação Social de Angola, Celso Malovoloneke, considerou hoje ser possível levar o combate à corrupção no país “muito mais além”, admitindo que há forças do passado que estão a reorganizar-se para minar o processo. E nessas forças do passado, “marimbondos” segundo a qualificação do Grande Líder, cabem todos os que pensam de maneira diferente. Já se fizeram, em Angola e pela mão do MPLA, grandes purgas por muito menos.

Em declarações à agência Lusa, no final da sessão de abertura do 7.º Congresso do MPLA, que decorre hoje em Luanda, Celso Malovoloneke sublinhou que essas forças estão a minar o combate à corrupção “de uma forma visivelmente sistemática”. E a solução se calhar passa por aquela máxima do MPLA utlizada no 27 de Maio de 1977: “Amarrem-nos onde forem encontrados”. Os fuzilamentos virão depois…

“Sim, é possível levar o combate que já foi começado muito mais além, embora, realisticamente falando, isso é sempre um processo. Há países e sociedades que não passaram pelas vicissitudes históricas como as nossas que ainda estão nesse processo. Agora as forças que beneficiaram o ‘status quo’ passado estão a reorganizar-se e, de certa maneira, de uma forma visivelmente sistemática, estão a minar esse processo, algumas vezes combatendo frontalmente”, disse Celso Malovoloneke, sabendo que com estas declarações agrada ao seu chefe directo, o “nosso” Paul Joseph Goebbels (o ministro João Melo), bem como ao “Líder Supremo”, João Manuel Gonçalves Lourenço.

“Mas não era nada com que não se estivesse a contar. O que o Presidente [do MPLA, também da República – não eleito nominalmente – e também Titular do Poder Executivo e Angola, João Lourenço] disse é a realidade e expressou a determinação em levar por diante esse combate para credibilizar o país e restabelecer a esperança dos cidadãos num futuro melhor para todos”, acrescentou Celso Malovoloneke.

Hoje, na intervenção de abertura do conclave, João Lourenço falou do combate à corrupção, considerando que a dívida externa do país atingiu um nível “tão alto” devido a investimentos de reconstrução do país após 27 anos de guerra civil, mas também por financiar “o enriquecimento ilícito de uma elite restrita”.

E quem constituía essa “elite restrita”? entre outros, o cabo Zé Moribundo da Costa ou o general João Lourenço?

“Estes níveis estão altos, comparando ao que realmente se investiu nas infra-estruturas, porque [a dívida] serviu também para financiar o enriquecimento ilícito de uma elite restrita, muito bem seleccionada, na base do parentesco, do amiguismo e do compadrio, que constituíram aglomerados empresariais com esses dinheiros públicos”, frisou João Lourenço, na qualidade de líder do MPLA, sem explicar – obviamente – como é que o seu partido é milionário até dizer chega, sendo o mais rico de África, ou que ele próprio se tornou milionário.

No entender de Celso Malovoloneke, tratou-se de uma “abordagem programática, mais virada para o futuro, para a segunda metade do mandato, do que propriamente para o passado”.

“As fundações estão lançadas. Mal ou bem, são as fundações possíveis, é o contexto possível, são os dados que existem agora para o ‘sprint’ final, para a consecução das promessas eleitorais. Não só as eleitorais, mas também as para a resolução dos graves problemas que a sociedade enfrenta diariamente”, acrescentou o nosso cândido e celestial Celsinho.

Para Celso Malovoloneke, na intervenção, João Lourenço “satisfez as expectativas ao lançar as bases para este impulso”, que se torna “necessário para que a governação possa ir ao encontro das necessidades dos cidadãos”.

Marcolino Moco e a corda-bamba

O antigo primeiro-ministro Marcolino Moco defendeu hoje, em Luanda, que o actual chefe de Estado de Angola “tem de começar a ser ele próprio” e “não um homem virado para o que se fez antes”. Para o que de fez antes? Não seria mais correcto dizer: Para o que ele também ajudou a fazer antes?

Em declarações à agência Lusa, Marcolino Moco, chefe do Governo (quando esse cargo ainda existia) entre Dezembro de 1992 e Junho de 1996, comentava também o discurso de abertura do Grande Líder no 7º Congresso Extraordinário do MPLA.

“Foi uma intervenção à sua imagem, um pouco mais consentânea com um novo rumo que ele tem de dar ao Estado, depois daquele momento inicial de transição do seu antecessor [o ex-Presidente de Angola e do MPLA José Eduardo dos Santos] para ele próprio”, sublinhou.

Para Marcolino Moco, que foi também o primeiro secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) entre 1996 e 2000, o combate à corrupção preconizado por João Lourenço desde que assumiu a Presidência angolana, em Setembro de 2017, deve ser mantido.

“No meu conceito, João Lourenço tem de começar a ser ele próprio e não um homem virado para o que se fez antes. Mesmo nessa ideia virada para o combate à corrupção eu começo a dizer que é suficiente, mas é preciso tocar o país para frente. A Procuradoria-Geral da República está a dar um tratamento mais pragmático aos problemas de Angola, sobretudo no crime económico”, explicitou.

“Espero que este novo voo se prolongue e que também permita terminar essa imagem do que foi decidido entre o antigo e o novo Presidente”, acrescentou.

Marcolino Moco, advogado galardoado por João Lourenço (pela submissão e bajulação que lhe demonstrou) com o prémio de administrador não executivo da petrolífera estatal Sonangol, voltou a assumir que o seu passado “crítico” à governação de Eduardo dos Santos (1979/2017) nada tem a ver com o presente, pelo que se torna necessário “consolidar a passagem” do poder, que deve continuar a “ser tranquila, virada para o futuro e não para o passado”.

Na intervenção, João Lourenço começou por manifestar o “imenso” desejo de ter no conclave a presença do antigo líder do partido, José Eduardo dos Santos, que “ao longo de 39 anos conduziu o MPLA nos momentos bons e maus”, sendo hoje o presidente emérito do partido.

Questionado sobre se a referência a Eduardo dos Santos foi uma mera “cortesia” de João Lourenço, Marcolino Moco considerou-a antes “ambígua”.

“Foi ambígua. Gostaria que o Presidente fosse mais clarificador. O presidente emérito não está no congresso. E depois? Por estar doente? Por ter recusado? Acho que um dos problemas que o MPLA sofre é os seus líderes não serem expressos. Em política temos de ser expressos, esclarecer as coisas”, respondeu Marcolino Moco, que afirmou não conhecer nenhum dos 134 novos membros do Comité Central (que passou a contar com 497 integrantes), sinal do rejuvenescimento do partido.

Folha 8 com Lusa

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