Envolto em polémica passou em Veneza um filme sobre o caso Dreyfus que abalou a França no fim do século XIX. Émile Zola (que admiro sobretudo por ser a inspiração do meu escritor realista preferido – Eça) endereçou ao então Presidente da República, Félix Faure uma carta aberta publicada num jornal literário promovendo um inflamado debate público sobre o caso Dreyfus, que mobilizará a França por muitos anos.

Por Brandão de Pinho

Esse havia sido condenado ao desterro perpétuo na Ilha do Diabo, na Costa da Guiana Francesa. Só por ser judeu e para que algum marimbondo não arcasse com as culpas. Era um patriota francês mas a sua raça e cultura foram suficientes para discriminá-lo. Em Angola não é diferente. Há racismo até entre diferentes tribos e etnias de que os sulanos e cabindas são as principais vítimas. Para não falar de estrangeiros de países vizinhos.

Excelentíssimo Senhor Presidente da República Dr. João Lourenço,

Permita-me, em gratidão à generosa liberdade de expressão com que nunca me impediu de discorrer – mesmo quando algumas vezes passei das marcas -, apelar para a sua justa glória e dizer que a sua estrela, tão honrada até aqui (sobretudo pela opinião que de V. Ex.ª têm os estrangeiros), está ameaçada pela maior das vergonhas, a mais indelével das manchas. O senhor livrou-se, são e salvo, das maiores calúnias de marimbodismo e outros pecadilhos tão comuns na pátria, tendo conquistado os corações dos angolanos; saiu apoteótica e radiosamente desta festa patriótica que foi para Angola as prisões e exonerações arbitrárias como circo para o povo e pretensas alianças com potências mundiais, e prepara-se para presidir ao triunfo de uma mudança de paradigma radical que coroará este início de século e milénio cheio de trabalho, verdade e liberdade.

Mas é enorme a mancha sob o seu nome – eu iria dizer sob seu governo – que é esse abominável genocídio que ocorre no país! Uma corte – real ou virtual – marcial por ter recebido ordens nesse sentido, de ousar absolver os marimbondos, supremo golpe em qualquer verdade, em qualquer justiça. E está feito: a vergonha está estampada no rosto de Angola e a história registrará que foi sob a sua presidência que tamanho crime social foi cometido.

E como foram ousados, serei da minha parte ousado também. Vou falar a verdade, pois prometi resguardá-la, já que a justiça, conspurcada diversas vezes, não faz isso, plena e inteiramente. Tenho o dever de falar, eu não quero ser cúmplice. As minhas noites seriam assombradas pelo espectro de inocentes que morrem, mergulhados nas mais dolorosas torturas, por crime que não cometeram, pelos pais desesperados que não podem amparar os filhos (sabe eu sou pai de uma menina de 2 anos). E será a sua Excelência, senhor Presidente, que dirigirei os meus clamores, a verdade, com toda força da minha revolta de homem franco. Conheço a sua honra e, por isso, sei que (não) ignora a verdade. A quem mais eu poderia denunciar a turba malfeitora dos verdadeiros culpados, que não à Sua Eminente Excelência, o primeiro magistrado do país? A verdade, para começar, sobre o processo de genocídio que ocorre em Angola. Pior só no Iémen.

Sejamos honestos intelectualmente. Angola é uma desgraça, um desastre, um desaire, um desvario e todas as coisas más começadas por “d”. De cabinda ao Cunene e do litoral ao mar ao leste. E por falar em Cabinda será que o amigo leitor tem consciência do estado de sítio e guerra civil no “exclave”? Será que de uma vez por todas não estará na hora de pelo menos dar autonomia aos cabindas? Deixá-los gerir o seu dinheiro e os seus investimentos – não deixando de ser obviamente – solidária com o resto do quadrado austral.

Tenho muitas noites de insónias e por vezes penso em e sobre Angola. Em momentos mais depressivos saber que patriotas cabindas são vítimas de genocídio por parte do MPLA só por desejarem algo a que historicamente têm direito e não fora a cobardia de Portugal dominado ao tempo por comunistas pró-soviéticos tudo seria diferente. Cabinda seria um estado independente. Os angolanos brancos viveriam em Angola ajudando a torna-la no maior e melhor país de África e ter-se-iam evitado ingerências americanas, cubanas, sul-africanas, já então chinesas e soviéticas que redundaram numa guerra fratricida e destruição das cadeias de valor que asfixiaram irreversivelmente a economia e moldaram negativamente a psique do povo. Por isto Sr. Presidente e a si, “j’accuse”.

Mas não é só em Cabinda que o MPLA comete um genocídio. Os sulanos e não só os do Cunene, são – para todos os efeitos – as mais recentes vítimas por inanição, desnutrição, sede, ostracização e abandono. Quase um milhão e meio de angolanos. Nos Balcãs – geografia dos últimos genocídios na Europa – foram muito menos as vitimas e mesmo assim os perpetradores e responsáveis foram e estão a ser julgados. Por tudo isso a si JLo “j’accuse”.

O MPLA através das várias figuras com responsabilidade é um regime genocida, além-congo mata com balas e em províncias meridionais com fome e sede. Desviando toda a ajuda internacional, especificamente a destinada para esse fim e não tomando medidas atempadas de minorar a seca e falta de água com obras e soluções simples e baratas. O “M” sem gastar uma bala mata quase tanto como Pol Pot matou no Camboja e mais bósnios do que o sérvio Milosevic, que há-de ver os ossos a apodrecer nos calabouços. Tenha cuidado presidente, veja o que aconteceu a esses em judicaturas ortodoxas e a Kadhafi e Saddam por justiça mais popular. Como máximo representante do MPLA a si eu “j’accuse”.

Não era o Exonerador Implacável que queria potenciar o turismo e fazer uma Califórnia em Benguela? Pois agora arranjou outra forma de potenciar o turismo já que permitiu a dilatação do deserto do Namibe e do deserto de Kalahari, por todo o sul do país que será destino turístico para os amantes destas naturezas mais inóspitas ainda que o nicho potencial seja muito restrito. Mestre em História a si, “J’accuse”.

Tenha vergonha Sr. Presidente quando no estrangeiro ainda se vangloria que não há fome em angola “só uma ligeiríssima má-nutrição aqui ou ali” quando sacos de arroz produzidos em solo pátrio não saem do sítio condenados à putrefacção para que marimbondos do séquito de V. Ex.ª façam negociatas e veniagas com portugueses e outros que exportam o arroz para cá gerando avultados lucros e aviltada fome aos que não o podem comprar. Não se lembra dos silos de cereais escondidos, a abolorecer, quando o povo não tinha pão para que alguém pudesse mais tarde especular e aumentar os lucros? A Vós e só a Vós General, “j’accuse”.

Estará V. Ex.ª ao corrente dos pormenores da administração e gestão do país e de todas estas injustiças, má-práticas e regabofe que os seus lourecentes de carapinha “lourencetes” lambe-botas, e, marimbondos mais velhos vêm praticando enquanto de viagem em viagem V.Ex.ª se põe de cócoras ante estrangeiros, de joelhos ante investidores desonrando Angola e os angolanos, isto quando não se comporta como um reles macho-beta como no caso dos chimpanzés e vai catar os machos-alfa estrangeiros – chineses, russos ou árabes – para pedir fiado enquanto lhes espiolha os pulgões e lhes oferece as nádegas para ser sodomizado em jeito de submissão. Tem sido isto o que tem feito e sem resultados. Qualquer dia em vez do “petit nome” JLo vão começar a alcunhá-lo de GayLo. Por vezes lá fora – em Portugal é recorrente – usa de uma sedução imensa pelo que em vez de JLo deveria ser cognominado de Gigolô. Por essa vergonha qua causa ao povo, quer como GayLo quer como Gigolô, e, sobretudo pelo insucesso na captação de investimento eu a si, “j’accuse”.

Tenho esperança na administração local, provincial, municipal e comunal para gerir os dinheiros e estabelecer as estratégias (pois Luanda é um sorvedouro de capitais sem que resulta nada). Era assim nos gloriosos tempos dos portugueses e havia bem-estar e riqueza e ao invés de importarmos alimentos exportávamo-los. Pela nossa falta de autossuficiência alimentar eu a V. Ex.ª “j’accuse”.

Por tudo isso Sr. Presidente “je vous acuse” de genocida, incompetente e líder máximo do gangue de marimbondos que assola Angola e chego à conclusão que acusou alguns e mandou prender ou exonerar outros num golpe teatral para que as atenções se afastassem de V. Ex.ª e fosse fazendo o culto da personalidade como os fascistas da Europa do século passado.

Sr. General “je vous acuse” de ser o responsável pela centralização do país na selvática e desordenada capital tornando o resto das províncias em paisagem apenas, excepto, um pouco, as que produzam petróleo ou diamantes já que o país que governa não sabe produzir mais nada. Onde está a filha da grandessíssima pu** da diversificação económica que prometeu? Por isto também a si “j’accuse” pois teve tempo mais do que suficiente.

“J’accuse” V. Ex.ª de ter prometido meio milhão de trabalhos para jovens e nem um criou condenando-os à prostituição, toxicodependência e marginalidade e morte precoce de recursos que poderiam ajudar a erguer o nosso imenso país.

Mas não se esqueça de uma coisa presidente. A pirâmide demográfica angolana assenta na juventude e ainda que não haja grandes alternativas os jovens não irão votar em V. Ex.ª por mais camisolas estampadas e contas-de-vidro que lhes forneça. O seu homólogo da ex-Rodésia do Sul a quem copiou métodos cometeu um erro que em Angola, infelizmente nem sequer foi feito. Como professor que era, sensibilizou-se para a educação da populaça e criou uma juventude esclarecida que jamais iria votar nele… a não ser que o Nazi Austral não tivesse o golpe de génio de exigir uma factura para o recenseamento dos jovens o que se revelou impossível ganhando eleições também fraudulentamente mas sem votos dessa juventude esclarecida (por Mugabe é certo) e excluída por esse “pro forma”. Por tentar perverter e corromper, da mesma forma, os jovens tal como Hitler da Rodésia – em boa hora falecido – eu a si “j’accuse”.

“J’accuse” a ti, como homem e meu irmão, de seres um empecilho para o país e a única coisa verdadeiramente patriótica que poderias fazer seria demitires-te e nomear (no sentido de dizer os nomes dos ladrões e não de os promover em cargos) todos os larápios que delapidaram angola e mataram – num genocídio consequente – milhões de pessoas sobretudo crianças. Concorra de novo se assim o entender, mas por outro partido porque o MPLA tem de ser destruído e esmagado como uma mosca pois é o cancro do país e talvez ainda não com descomedidas metástases pelo que tenho uma réstia de esperança. Aquela esperança que os náufragos têm de sobreviver ao afogamento iminente por se agarrarem a um pedaço de madeira a boiar (isto para não dizer uma palha pois acho que Angola ainda não desceu tão baixo).

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