Bem dizia Zeca Afonso (“Não me obriguem a vir para a rua gritar que é já tempo d’ embalar a trouxa e zarpar”). O líder do PSD, Rui Rio, viaja hoje para Luanda, Angola, e vai encontrar-se com o presidente angolano, João Lourenço. O presidente dos social-democratas antecipa-se assim a António Costa, que só deverá visitar Angola em Julho.

A visita de Rio acontece depois de, na sexta-feira, a certidão do processo Fizz relativo antigo presidente da Sonangol e vice-presidente angolano Manuel Vicente ter sido enviada para a Procuradoria-geral da República (PGR) de Angola.

O envio do processo do antigo vice-presidente de Angola para as autoridades judiciárias angolanas resultou de uma decisão, em sede de recurso, do Tribunal da Relação de Lisboa.

Sobre esta decisão judicial e politicamente correcta, como pretendiam os agentes políticos portugueses, Rui Rio disse que se tratou, “ obviamente, uma boa notícia para as relações entre Portugal e Angola”, mascarando a situação com a tese de que “temos que ter consciência, ao longo de todo este processo, que há uma real separação de poderes em Portugal e, portanto, o poder político não podia fazer nada, nem devia fazer nada, relativamente a isto”.

Rui Rio afirmou também que, “a partir do momento em que o caso ficou sempre na esfera do poder judicial, e o poder judicial resolveu da forma como resolveu, do lado do poder político é muito positivo”. Claro. Do lado do poder político foi a cereja no topo do bolo. Isto porque, desse mesmo lado, o envio do processo para Angola levou em conta que as relações de Portugal com Angola “são vitais para o desenvolvimento de ambos”.

“Nem vejo agora razão nenhuma para não se normalizarem as relações e é muito importante para Portugal ter, para lá da sua relação com a Europa, uma boa relação com o Atlântico e com os países de expressão portuguesa, no âmbito dos quais Angola tem um papel absolutamente preponderante”.

Segundo Rui Rio, “era muito mau, quer para Angola, quer para Portugal, arrastar-se a situação que se vinha vindo a arrastar”, pelo que – afirma – “é preciso compreender que se trata de uma matéria do foro judicial, na qual o poder político não tem responsabilidade”. Como se alguém, cá e em Lisboa, acreditasse nisso.

No dia 24 de Agosto de 2017, na Sede da Distrital do PSD Porto, o deputado Luís Campos Ferreira disse que a paz e a tranquilidade política em Angola são uma “boa notícia” para Portugal, considerando que este “novo ciclo” vai incentivar “ainda mais” a cooperação entre os dois países.

“Tendo nós um conjunto significativo de portugueses que vivem em Angola, empresas que se internacionalizaram para Angola, outras que exportam para Angola, tendo nós investimentos angolanos em Portugal, a paz e a tranquilidade política em Angola é uma boa noticia para os portugueses”, considerou Luís Campos Ferreira em declarações aos jornalistas.

Para o deputado social-democrata, é importante para Portugal e para os portugueses saberem que um país com quem têm “tantas relações históricas, de afinidade e de afectos” interpreta a sua vida política “de forma democrática, com naturalidade e pluralidade”.

O deputado social-democrata disse ainda esperar que o novo ciclo que se abre agora com um novo Presidente e que seja um contributo e uma oportunidade para que as relações entre os dois países, “que já são excelentes”, se tornem ainda melhores.

“O presidente é novo, logo é natural que hajam diferenças, quer na personalidade, na forma de fazer política e de exercer poder. É natural que hajam diferenças com aquilo que foram os 38 anos de presidência de José Eduardo dos Santos”, frisou Luís Campos Ferreira.

Luís Campos Ferreira, apesar de nesse altura os resultados serem ainda provisórios, endereçou os parabéns ao MPLA e ao novo Presidente de Angola, João Lourenço, desejando que contribua para uma Angola “ainda mais democrática e mais forte económica e socialmente” e que imprima ao país um período de bem-estar, progresso social e qualidade de vida para os cidadãos.

O deputado do PSD destacou ainda a “normalidade e tranquilidade” com que decorreu a campanha eleitoral e as eleições. Convém não esquecer.

O mesmo Luís Campos Ferreira, então como secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Portugal, afirmou no dia 11 de Novembro de 2015, em Luanda. que qualquer Governo de Portugal terá a “obrigação” de “respeitar” as relações estabelecidas ao longo dos anos com Angola.

Campos Ferreira, na altura a versão portuguesa de Luvualu de Carvalho, falava à agência Lusa ao concluir uma visita de dois dias a Angola, representando o Estado português nas comemorações oficiais dos 40 anos da independência angolana.

Luís Campos Ferreira garantiu que a situação governativa portuguesa – o princípio do fim ou o fim do princípio do Governo de Passos Coelho – não foi abordada com as autoridades angolanas, até porque não estavam agendados contactos bilaterais.

“É natural que a situação em Portugal seja acompanhada com atenção por parte de Angola e de todos os outros países, mas não houve nenhuma conversa nesse sentido”, disse o governante português.

Nesse ano, fruto do apoio ao caso dos 15 activistas detidos em Luanda, dirigentes e militantes do Bloco de Esquerda, foram duramente criticados por elementos do regime angolano.

“Qualquer Governo português deve respeitar aquilo que se conseguiu até agora, que foi construído com muito empenho, com muita determinação, por vezes com muito esforço de ambas as partes, e também com benefícios mútuos. É uma relação de povos, de gentes, de empresas. Por isso, os governos, sejam eles quais forem, têm a obrigação de respeitar as relações que se estabelecem entre os povos e que são naturais e autênticas”, afirmou Luís Campos Ferreira.

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